O câncer do autoritarismo segue crescendo nos EUA e no Reino Unido, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Como as vítimas inglesas e norte-americanas do autoritarismo reagirão? Elas foram doutrinadas a acreditar que podem fazer suas escolhas

O câncer do autoritarismo segue crescendo nos EUA e no Reino Unido

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Um novo ciclo de degradação da democracia está ocorrendo nos EUA e na Inglaterra.

Esta semana, em New York, centenas de manifestantes que exigiam pacificamente o interrompimento dos bombardeios israelenses contra Gaza por Israel foram presos pela polícia.

Na Inglaterra, a polícia ameaçou prender todo mundo que levantasse a bandeira da Palestina durante a manifestação que ocorreu. Todavia, a manifestação foi tão massiva que os policiais ingleses simplesmente não puderam cumprir a diretriz governamental. Todavia, a repressão contra as manifestações ecológicas seguem com força total.

De acordo com um documento divulgado no LinkedIn, a polícia política inglesa passou a impor duas condições para liberar as pessoas presas sob fiança:

1- Não participar em novas manifestações nas ruas de Londres;

2- Não entrar em Londres novamente, exceto para participar de audiência no Tribunal;

Nos dois casos é evidente o desrespeito das autoridades aos direitos à liberdade de manifestação e de locomoção. O golpe de 2016 reintroduziu a democracia sem povo no Brasil para que reformas neoliberais rejeitadas nas urnas fossem impostas a força pelo usurpador Michel Temer. O primeiro-ministro Rishi Sunak e o presidente Joe Biden são incapazes de demonstrar qualquer compromisso com o direito de dissenção popular. Ambos comandam regimes políticos que são democráticos apenas no nome.

Durante a Guerra Fria, os governantes dos EUA e Reino Unido usaram exaustivamente a retórica da democracia para diferenciar seus países dos regimes comunistas supostamente autoritários. Todavia, ambos sempre mantiveram relações de proximidade com ditaduras sanguinárias (Arábia Saudita, da família Saud; Africa do Sul sob o apartheid; Uganda de Idi Amin Dada, etc…).

Nos EUA, a polícia reprimiu violentamente manifestações de rua em defesa dos direitos civis dos negros e contra a guerra no Vietnã. No Reino Unido, o exército suprimiu brutalmente qualquer liberdade dos irlandeses no Uster e a polícia usou violência extrema contra operários que desafiaram as reformas impostas por Margaret Thatcher.

EUA e Reino Unido têm, portanto, vasta experiência autoritária. Apesar de referir-se apenas ao primeiro, Noam Chomsky acertou na mosca quando sumarizou essa característica no princípio “manter a ralé na linha” no livro Réquiem para o Sonho Americano – os 10 princípios de concentração de riqueza & poder, editora Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2019. Em defesa dos negócios como de costume e da não interrupção da guerra no Oriente Média, os dois países tratam a questão social como caso de polícia.

Como as vítimas inglesas e norte-americanas do autoritarismo policial reagirão? Elas foram doutrinadas desde tenra idade a acreditar que podem fazer suas escolhas políticas com total liberdade e que, em decorrência da legislação em vigor nos dois países, podem organizar manifestações pacíficas sem ser importunadas. Algumas delas provavelmente desistirão de se manifestar, mas outras podem começar a usar táticas mais e mais violentas ao se chocar com os policiais.

As polícias dos dois países usam e abusam de tecnologias extremamente sofisticadas para vigiar a população, monitorar manifestantes e recolher provas que são utilizadas em processos criminais. Portanto, é previsível que o novo surto de autoritarismo nos EUA e no Reino Unido será acompanhado por algum tipo de adaptação por parte dos manifestantes. Eles deixarão de utilizar seus smartphones e passarão a empregar low tech technology para que não possam ser facilmente espionados e incriminados pelos policiais?

O movimento em favor dos palestinos e contra a bestialidade militar de Israel cresceu muito nos últimos dias. Mas os preços das ações das fábricas que produzem os armamentos utilizados para destruir prédios residenciais, escolas, hospitais, creches, universidades, etc… em Gaza também estão aumentando. As bombas, mísseis e projéteis de canhão utilizadas pelas tropas israelenses terão que ser repostas. Isso significa contratos lucrativos e farta distribuição de dividendos para os acionistas.

Como financiam campanhas eleitorais, essas empresas têm o poder de deformar os regimes democráticos nos EUA e no Reino Unido. Os compromissos internos de Biden e Sunak dependem do surgimento, da continuação e da eventual expansão de conflitos internacionais como o que está ocorrendo nesse momento no Oriente Médio.

A vitória da Rússia sobre a Ucrânia é inevitável. Mas tudo indica que ela será obscurecida pela guerra israelense que permitirá a continuidade dos negócios como de costume dos fabricantes de armamentos “made in UK” e “made in USA”. Os protestos populares nos dois países podem entravar esse mecanismo e já estão sendo reprimidos. A questão agora é saber o que Joe Biden e Rishi Sunak farão se os protestos aumentarem e se tornarem mais violentos.

Os palestinos não constituem realmente uma força militar capaz de derrotar Israel. Mas é evidente que uma derrota na guerra pelos corações e mentes nas ruas dos EUA, Reino Unido e de outros países europeus reduzirão bastante a liberdade de ação de Netanyahu. A condenação dele pelo Tribunal Penal Internacional nesse caso seria quase inevitável.

Assim como os palestinos lutam para reconquistar suas terras e liberdade, norte-americanos, ingleses e europeus estão lutando para reconquistar direitos cívicos que foram mais e mais restringidos pelo neoliberalismo. O futuro é incerto. Mas o mundo não será o mesmo se Israel for forçado a recuar porque o movimento contra a guerra comprometer a governabilidade dos países que sustentam o militarismo sionista (e que contabilizam lucros fazendo isso).

A grande interrogação é o que substituirá o neoliberalismo? Os regimes políticos da Rússia e da China também são intolerantes quando lidam com a dissidência política. Se abandonar o cânone neoliberal e ampliar sua democracia capitalizando os benefícios do crescimento econômico, o Brasil pode despontar como um modelo político para o primeiro mundo. Afinal, nós brasileiros adquirimos alguma experiência derrotando uma Ditadura Militar e esvaziando o potencial agressivo e destrutivo do neolibarbarismo autoritário bolsonarista.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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Fábio de Oliveira Ribeiro

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