Catarse e riscos, por Assis Ribeiro

O clima de divisão e intolerância alimenta o surgimento de grupos que pela sedução, força, e chantagem forçam o apoio ao seu líder.

Catarse e riscos

por Assis Ribeiro

em seu blog

A história prova que sempre que o mundo entrou em aspiral moralista houve retrocesso nas democracias.

Os discursos apolíticos, de apelo preconceituoso e segregador, que evocam tradição, colocam em plano secundário o debate político. É quando surgem nomes identificados pela classe média como salvadores da pátria, como Bolsonaro.

Essas propagandas da anti-política provoca no inconsciente da sociedade a necessidade de catarse. É quando personagens radicais, demagógico e populistas se destacam, prometendo um mundo melhor – o lado do bem – colocando como mal todo o resto.

O clima de divisão e intolerância alimenta o surgimento de grupos que pela sedução, força, e chantagem forçam o apoio ao seu líder.

Os grupos e suas características:

1- Seguidores das redes sociais em constante prontidão de vigilância (paranóia) em “macartismo” contra “inimigos”;

2 – Formação de polícias “cães de guarda” para manter a ordem (leia-se) evitar qualquer forma de questionamento;

3 – Tornar a justiça, ora omissa, ora  atuante, a depender do lado político do investigado. A justiça ora severa, ora garantista a depender dos opostos. É o que se viu na decisão de Toffoli que proibiu a investigação contra Carlos Bolsonaro e Queiroz (contrária a uma decisão anterior do colegiado do STF,) que fere normas internacionais que o país é signatário.  Tal decisão contraria o entendimento da necessidade do coaf para elucidar crimes complexos, como o da Formação de Quadrilha, Crimes de Tráfico e Crimes do Colarinho Branco”;

4 – Surgimento de Milícias, agindo como instrumento paraestatal, de formato repressor e uso da violência, para emparedar todos aqueles que discordem, ou simplesmente questionem o presidente, sejam indivíduos e, até mesmo, as instituições democráticas, como o Congresso ou STF;

Leia também:  A suposta popularidade inesperada de Jair Bolsonaro e a força de sua agenda moral, por Camilo de Oliveira Aggio

4 – Forçam as mídias a tomar partido em favor do governo, como vimos os episódios agressivos contra Eliane Cantanhede, Miriam Leitão, Paulo Henrique Amorim, Glenn Greenwald, entre vários outros;

5 – Criminalização de todos partidos políticos que não façam parte do apoio ao presidente. A formação de um estigma de que todos os partidos de oposição ou neutros são corruptos e protetores de criminosos;

7 – Perseguição às lideranças, sejam jornalistas, populares, estudantis, pensadores, que apresentem pensamentos alternativos;

8 – Ações para amordaçar a intelectualidade. A disseminação de uma ideia de que os intelectuais são comunistas e subversivos à ordem;

9 – Criação de conflitos internos dentro do poder (controlados) para dificultar o foco do controle externo exercido pela população e pela mídia. Neste item estão as constantes mudanças nos primeiros escalões do governo, sejam generais (que se tornaram manipulados por bolsonaro), seja um representantes do próprio mercado;

10 – A formação de um núcleo de poder pessoal/familiar, como se viu nas ações de governo exercida pelos seus três filhos.

A história também demonstra que quando esses líderes se sentem reforçados o suficiente eles passam a também agir contra seus aliados, o que Bolsonaro já vem fazendo contra o generais

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2 comentários

  1. Divisão, fragmentação, mentiras e medo formam a terra fértil para a cultura do ódio, o pai da brutalidade.
    Aqui neste GGN, as análises do Nassif são nomeadas por ‘xadrez’, que é o nome do jogo dos reis antigos (xás). E é um bom simbolismo, para épocas de altas complexidades, imprevisibilidades, fragmentação e possibilidades. O jogo de xadrez, embora tenha um universo limitado a 64 casas com 32 peças, no entanto ainda que matemáticos façam cálculos relativos a isto, não conseguiram até hoje definir com precisão o número de possíveis jogadas. Estas são consideradas matematicamente como finitas, porém é tal o grau de imensidão que alguns as tratam por infinitas. O enigma para tanto, é nomeado por ‘número de Shannon’, onde 10 elevado a 120ª potência é a estimativa atual, ou seja, é o numeral um, seguido de 120 zeros. Como exemplo, se fosse possível dois enxadristas jogarem uma partida ininterrupta, todas as possibilidades seriam esgotadas em 260 bilhões de anos. Agora imagine quando no jogo de peças, elas tomam vida e ajam por vontade própria, como são os “jogos” das interações humanas. E agravando, se as mãos que passam a operar em um dos lados da mesa, vierem de uma mente insegura, confusa e perturbada? Parece que seja uma alegoria para os tempos presentes onde a cada dia se torna mais complicado para prever o futuro, sem podermos considerar bem os eventos do meio ambiente planetário com muito mais agressão e complexidade, agregadas as intricadas reações emocionais a constituírem o processo decisório. De fato, faz muito tempo que o mundo anda dividido e hoje fica mais claro, até pela análise dos resultados de eleições, nas últimas décadas grande parcela delas decididas não por intenções do melhor porvir, mas com medo do pior a recair. Se tornou até ingrediente para o marketing político. Na divisão, percebe-se e afloram mais as fraquezas, sombras e deficiências seja no âmbito individual ou coletivo. Um item que está fortemente conectado a tudo isto, resultado da alta imprevisibilidade é o medo, o qual nos ajuda a analisar alguns porquês no aumento das epidemias de ansiedade, do ódio solto e indignações seletivas, aumentos nos números de suicídios e depressões. O medo agita a mente e a alimenta com preocupações, suposições onde se ampliam as dúvidas e inquietações. A mente inquieta fica sem clareza e isto atrapalha o discernimento e dificulta o entendimento. Mentiras, falsidades se misturam com a verdade e estas são as armas sustentadoras do terror, abrindo espaço para as fraudes, enganos e os ilícitos passam a ser consentidos. Já se sabe que a ansiedade ao retirar o foco, desconcentra e torna a mente submissa, num estado mental-emocional quase que como o de hipnose e no caso, permite que o pior possa prosperar. Mente ansiosa, espírito esvaziado então, ânimo voraz. A junção de medos, imprevisibilidades, narrativas mentirosas, ou de falsas promessas, aliadas a frustração com o presente, trazem o caldo grosso onde é cozida a cultura do ódio. No Brasil especialmente, dois extratos sociais possuem condições maiores de serem mais influenciados pelas falas da cultura de ódio: jovens e evangélicos – se forem homens, mais ainda. Os jovens sofrem mais de ânsia por sair das agruras do presente e por terem, em tese, mais tempo de vida pela frente, o que lhes inquieta muito mais quanto ao futuro. Os evangélicos em especial e no Brasil em particular, estão reféns do chamado evangelho da prosperidade ou do empreendedorismo, onde segundo muitos de seus pregadores, se alguém entrega parcela de seu dinheiro à igreja, Deus fica em débito com a pessoa – nas pregações se troca o amar a Deus, pelo ‘temor’ a Deus – e há naturalmente o terrível medo do julgamento a quem de antemão é considerado pecador e se não tem vindo a cumprir o jugo de Deus – a Ele não se submeter. Como é falado por alguns, o principal recurso da religião perdurar ao longo dos séculos é mais graças aos medos embutidos e os demônios (inimigos) criados, que aos “prêmios” prometidos, geralmente para o final, no pós morte. O que se torna uma verdadeira ditadura, num mundo do consumismo exigido pelo deus mercado, este sim, sempre vívido. Se já há tantas inquietações presentes e aflições quanto ao futuro, os maliciosos então completam o quadro, ao plantarem mentiras e suspeições sobre o passado. Com o tempo não será mais preciso o uso da força bruta para controlar um grupo já tomado pela covardia apática, pois submetidos e prostrados pelo medo, sentem-se incapazes e entregues ao destino que lhes fora ditado. E o pior de tudo é que o medo regular acaba por embrutecer ao homem e este vai definhando o humanismo em si. Sem a chama humanitária, não há mais espaço para a empatia e a tendência será a do pavor ao próximo e ao porvir, o medo do destino. Sem empatia e sem destino, sem sentido para a vida e ai estão abertas as portas para a indiferença. Bruto e indiferente, tanto faz deixar-se morrer ou ao parceiro, amigo, vizinho, já que este deixou de enxergar um irmão ali.

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