Cenas da juventude negra perdida na Barra da Tijuca, por Mário Lima Jr.

Cenas da juventude negra perdida na Barra da Tijuca, por Mário Lima Jr.

A Barra da Tijuca, bairro da cidade do Rio de Janeiro, conta com um dos maiores índices de desenvolvimento humano do Estado. Privilégio dos ricos, sem dúvida. A juventude negra vende balas e doces dentro dos ônibus, faz malabarismos nos sinais de trânsito em troca de esmola e organiza arrastões nas calçadas.

Ontem, sexta-feira, peguei o BRT na estação Via Parque com destino à estação Jardim Oceânico. Antes do ônibus partir, eu e os demais passageiros assistimos da janela, chocados, cinco jovens espancando um rapaz e uma garota na calçada do outro lado da Avenida Ayrton Senna. Cinco jovens negros e pardos (negros, de acordo com o IBGE) de chinelo, sem camisa, contra dois jovens brancos bem vestidos. Para ajudar os assaltantes – é isso mesmo que você leu – mais dois moleques desembarcaram do BRT e atravessaram a rua correndo.

O rapaz e a moça, recém saídos da adolescência, se defenderam com bravura dando socos, chutes e se movimentando como lutadores profissionais. O bolso da calça do rapaz foi rasgado até o joelho. Depois de bater no casal, o grupo de assaltantes fugiu a pé.

Nas estações seguintes entraram no BRT três jovens negros vendendo amendoim. Magros, o peso das sacolas que carregavam inclinava o corpo deles. Cada um improvisou um discurso educado, usando pronomes de tratamento respeitoso, e elogiou o próprio produto falando uma espécie estranha e engraçada de português culto não acadêmico, nascido nas ruas. Nenhum passageiro comprou.

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Nos sinais de trânsito da Barra da Tijuca cenas piores podem ser vistas. Jovens negros, suados sob o sol forte, correm descalços no asfalto quente, no meio dos carros, e penduram sacos de balas nos retrovisores. Contei mais de dez fazendo isso até o fim da minha viagem. Antes que o sinal abra e os carros partam, eles voltam recolhendo os saquinhos. Não vi nenhum motorista descer o vidro da janela para comprar.

Tragédia maior acontece no mesmo lugar: crianças negras pintam o rosto, como fazem os palhaços, e passam o dia fazendo malabarismos para alegrar a elite e ganhar uns trocados, tentar sobreviver. Sempre sem camisa, pintam uns desenhos na barriga também. São nossos filhos humilhados e massacrados pela pobreza, não os filhos dos outros. São as crianças do Brasil.

É importante dizer a cor da pele porque querem esconder a injustiça sofrida por negros e índios ao longo da história desse país racista e hipócrita. Não é vitimismo lembrar dos ataques sofridos e brigar por um futuro melhor. É puro heroísmo.

Os assaltantes devem ser presos, mas o assalto foi um crime menor do que o abandono social de uma raça. O desafio das classes média e alta é defender os direitos de jovens que roubam e espancam nas ruas. Por enquanto a violência e os discursos de ódio alimentam um ao outro, cresce a vontade de reduzir a maioridade penal, de amarrar nos postes e linchar. Desse círculo vicioso culminou a intervenção militar.

Jovens que abandonam a escola têm semelhante origem social, renda familiar e condições de habitação. As estatísticas afirmam. Se houvesse desenvolvimento igualitário, mais tempo a juventude passaria estudando, em vez de perder a vida nas ruas.

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5 comentários

  1. Tiros, assaltos, roubos,

    Tiros, assaltos, roubos, tinhamos noticias pelo jornais pois só aconteciam na periferia. Hoje o crime chegou aos ditos bairros nobres. Os ricos não estão nem aí pois nem eles nem seus (deles) filhos andam pelas ruas e usam carros blindados. Já a classe média está sendo engolida pela violencia e clama por mais segurança. Só se colocar dupla de policiais em cada esquina da cidade. E olhe lá. Quando surge um político defendendo políticas públicas que combatem o mal pela raiz, esse político passa a ser maldito e todos pedem a sua morte ou, no mínimo, cadeia para ele, político. 

    Não há saida. A não ser através de um pacto politico. Vide a Africa do Sul. Mas aí é querer demais do brasileiro tacanho e mesquinho.

  2. Tiros, assaltos, roubos,

    Tiros, assaltos, roubos, tinhamos noticias pelo jornais pois só aconteciam na periferia. Hoje o crime chegou aos ditos bairros nobres. Os ricos não estão nem aí pois nem eles nem seus (deles) filhos andam pelas ruas e usam carros blindados. Já a classe média está sendo engolida pela violencia e clama por mais segurança. Só se colocar dupla de policiais em cada esquina da cidade. E olhe lá. Quando surge um político defendendo políticas públicas que combatem o mal pela raiz, esse político passa a ser maldito e todos pedem a sua morte ou, no mínimo, cadeia para ele, político. 

    Não há saida. A não ser através de um pacto politico. Vide a Africa do Sul. Mas aí é querer demais do brasileiro tacanho e mesquinho.

  3. cenas….

    O sr. deve ser carioca. Então sabe muito bem que a Barra não existia até a Redemocratização. Foi o refúgio construído para a Classe Média Alta fluminenese morar bem e longe dos morros e favelas. É um grande conjunto de Condomínios. Condomiínios, até a redemocratização, também era cena rara. Uma espécie de cadeia invertida. Uma agressão à civilidade e urbanidade. Os morros e favelas já existiam. E continuaram a existir, apesar de 40 anos pseudo-progressistas e socializantes. Então a culpa é de quem? Depois de anos de Saturnino. Moreira (quando o MDB era a vanguarda socialista), Brizola, Benedita, Cabral (de cria de perseguido político), Maia (como o pai de Cabral, tão pseudo-perseguido quanto este). E mais FHC da República da USP, Lula ( Presidente-Operário), Dilma ( Presidenta-Guerrilheira). E toda sua força política socializante e transformadora, espalhada por todos cantos e estados deste país. A culpa é de quem? Do Trump? Quando chegou a tal Redemocratização, estive no RJ, um pouco antes da 1.a Visita de um Papa. À noite, os morros se iluminavam de lamparinas a querosone e velas. No dia seguinte, SEMPRE a mesma história: Famílias e Crianças mortas em barracos que se incendiaram. Fazer o que?!! A culpa caia sempre no pai ou mãe relapsos, se tivessem sobrevividos. O Papa “inventa” de subir o morro !! Que Sacana !! Correm limpar vielas e ruas. Alargar passagens, despejando famílias (e daí? Miseráveis reclamarão para quem?) E o principal, em poucos dias, a tarefa de décadas que não era feita: colocar iluminação e rede elétrica !! Isto lá nos longinquos anos de 1980. Quase quarenta anos depois, chega a Copa, chega as Olimpiadas. Estamos inundados de Governos Socializantes, desde estados até a federação. A história é exatamente a mesma. Nossa farsa de Democracia. Ditadura fantasiada. Cada qual controla seu Feudo. Barats e Lavouras m,andam o dinheiro dos Ônibus. O Estado controla e mantém o Monopólio. Logicamente, agora de forma AntiCapitalista, como condiz à Ideologia Governamental Vigente. Favelas e Favelados continuam a ampliar sua Miséria. A culpa é de quem? Do Trump? O Brasil é de muito fácil explicação.  

  4. Texto forte e corajoso. Sem

    Texto forte e corajoso. Sem comentários! Desculpe-me, fui eu o primeiro. Justiça para todos!

  5. Este é o Rio …

    Este é o Rio , se acha ruim espere o próximo governo …

    Nos fluminenses vamos caprichar desta vez e escolher alguém pior que os últimos …

    E me julgo otimista …

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