Conservador sem causa, por Janderson Lacerda

Conservador sem causa, por Janderson Lacerda

Lembro-me da música, “Rebelde sem causa” do Ultraje a Rigor, grande sucesso dos anos 1980, que retratava a história de um jovem que era estimulado a fazer tudo o que desejava pelos seus pais e, exatamente, por este motivo, revoltou-se. Na verdade, o refrão dizia: “Não vai dar, assim não vai dar/Como é que eu vou crescer sem ter com quem me revoltar”… Este é o legítimo rebelde sem causa. Uma espécie em extinção é preciso dizer. Sim, caro leitor, grande parte dos jovens abandonaram a rebeldia sem causa, tão característica da juventude que sempre apreciou a transgressão, os questionamentos às regras e o culto à liberdade, ainda que utópica.

Não pretendo fazer apologia à rebeldia com esta crônica. Portanto, não precisa colocar meu nome na boca de algum pastor evangélico e expulsar o capiroto que, supostamente, habita em mim. A única coisa que estou tentando fazer aqui é compreender o que aconteceu com esta geração que abandonou as legiões urbanas e os movimentos contracultura para filiar-se ao exército da moral e dos bons costumes, que dentre muitas coisas, apregoa o ódio às minorias e censura à liberdade de expressão e de escolha do povo. Vivemos uma nova era, um tempo dos conservadores sem causa. Até alguns roqueiros, pasmem, estão aderindo a este movimento, a exemplo do próprio Roger Moreira, vocalista do Ultraje a Rigor. A insanidade é tão grande que um grupo chegou a vaiar um dos fundadores do Pink Floyd, Roger Waters, após o cantor criticar em um show o, então, candidato à presidência da República, Jair Bolsonaro.

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Agora me responda: quem em sã consciência iria pensar que o ex-lider do Pink Floyd apoiaria a candidatura de Bolsonaro? Tempos estranhos!

Mas, se já era difícil compreender a rebeldia sem causa, os intermináveis questionamentos e a revolta da geração que amava os Beatles e os Rolling Stones, hoje é ainda mais complicado entender o conservadorismo sem causa que despreza as guitarras e aprecia um instrumento que sempre dá a mesma nota — ra-tá-tá-tá…

Muitos desses jovens exorcizaram a democracia e invocaram com as armas em punho a volta da ditadura; e agora como ovelhas são guiadas pelos campos dos Olavos de Carvalho, que negam a ciência e apresentam-se como fundadores de uma nova direita. A direita que pensa que ser liberal é ser comunista, que Chico Buarque é modinha e que interferir na liberdade individual das pessoas é correto.

Ao longo da história a juventude nunca se identificou com uma postura conservadora. Aliás, é preciso ressaltar que existe uma grande diferença entre o comportamento conservador e o pensamento político conservador. Justiça seja feita – mesmo não concordando – preciso reconhecer que o conservadorismo de Edmund Burke é uma teoria consistente. No entanto, deparo-me no atual momento com jovens conservadores sem causa; a expressão mais viva do tédio e da ignorância sistêmica que parece ter tomado conta dos trópicos.

Se há governo sou a favor!

3 comentários

  1. ódio ao chão e ao povo

    Essa geração falhou miseravelmente. Pior, foi capaz de entregar o présal, os minérios, a floresta, a base de Alcântara, a Embraer, a energia elétrica, o satélite e as calças.  Recebeu uma terra “onde se plantando, tudo dá” e deu. Deu inclusive o solo pátrio. Em troca de uns poucos trinta dinheiros.

    Eis o que 50 anos de imbecialização pelo plimplim pode fazer com um povo.

    (…Cade o colar de tomates golpista da a. maria brega agora que o produto passou de $10 o kilo?)

  2. Efeito Rede Globo

    Esse é o “Efeito Rede Globo”!

    Durante os anos em que LULA esteve no governo, LULA foi caracterizado em comédias, paródias e piadas como bebum, analfabeto, milionário e ainda continua sofrendo sarcasmo de alguns.

    O “Espetáculo do Mensalão” deu o álibe para uma agressiva campanha para varrer o PT do mapa, graças ao domínio do fato que ainda não conseguiu provar que havia compras de votos ou que a visanet era uma empresa pública!

    Se o Haddad fizesse o tal “mea culpa” exigido pela globo seria o álibi para que o partido fosse “fechado pela justiça” com a delação do Palocci…

    Hoje artistas(?) falam em ficar longe da politica, vamos continuar produzindo arte duvidosa…

    O que aconteceu no final do jogo do palmeiras dá bem a dimensão do que somos hoje como país, ainda não é agora que seremos uma nação!

    Imaturidade…

    Grande população imatura…

    Não assumem a responsabilidade de ser um país!

  3. Geração 140 caracteres

    Hoje em dia quantos leem um texto de 2 ou mais páginas? E um livro então? Esse é o problema, os caras vão ao show de Roger Warters sem saber da sua militância.

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