Coronavírus apresenta o Brasil real, por Diego Ramos

No caso do Brasil, as vísceras da nação vêm sendo expostas em cadeia nacional com a pandemia da COVID-19. O tecido social vem se decompondo rapidamente e as tensões de classes ficam cada vez mais evidentes

Coronavírus apresenta o Brasil real

Por Diego Ramos

Situações catastróficas como guerras e desastres naturais costumam expor o lado mais humano ou individualista de uma sociedade. Basta elegermos a perspectiva a ser analisada. Em países asiáticos, europeus e até mesmo nos Estados Unidos, embora não devamos encarar com naturalidade, é inegável que estes povos já tiveram contato com alguma pandemia, furacão, terremoto ou até mesmo guerras. No entanto, quando tais situações ocorrem em países que não possuem histórico de traumas tão duros com seus povos, as reações são ainda mais estranhas. No caso do Brasil, as vísceras da nação vêm sendo expostas em cadeia nacional com a pandemia da COVID-19. O tecido social vem se decompondo rapidamente e as tensões de classes ficam cada vez mais evidentes.

Alguns dias atrás, ainda no princípio da pandemia, quando as determinações de isolamento dadas pelo governador do estado do Rio de Janeiro estavam sendo respeitadas e a quarentena era realizada com mais seriedade, a Rede Globo promoveu uma reportagem nas ruas do Centro do Rio de Janeiro buscando saber sobre a situação e as condições da população de rua naquele local. Como quase nunca vemos moradores de rua segurando o microfone, a imagem já alertava os mais atentos para o que estaria vindo por aí. Como raramente alguma reportagem dá voz à população de rua (eles possuem uma associação!) e, mais ainda, expõem a existência de uma população que praticamente é invisível diante dos olhos da sociedade, muito menos ainda tendo espaço no horário nobre global, vamos percebendo do que uma pandemia é capaz[1].

Dias depois a emissora continua o seu trabalho jornalístico que, diga-se de passagem, vem sendo realizado com relativa qualidade, principalmente se compararmos com os episódios de um passado recente onde seus telejornais mais se confundiam com palanques político-partidários. A reportagem estava mostrando a realidade dos moradores das comunidades carentes do Rio de Janeiro e a forma como vinham enfrentando a pandemia. Exaltando a capacidade de colaboração dos moradores e incentivando sua ação contra o abandono do poder público, jovens moradores tinham seus vídeos e trabalhos publicados pelo periódico televisivo, um espaço que até então nunca tiveram. Um Brasil dentro do Brasil. Novamente, invisíveis da sociedade ganhavam espaço no horário nobre as condições de falta de saneamento básico, desemprego, falta de acesso a condições mínimas de saúde e até mesmo de sabão impressionavam até os mais experientes e conhecedores da realidade da população pobre brasileira[2].

Era cada vez mais notório que a pandemia que vinha se aproximando do Brasil iria expor as vísceras de nossa nação em rede nacional e mais uma vez os invisíveis, os excluídos, as pessoas desamparadas estavam agora sendo “descobertas” por outras classes que, fechadas em seus carros populares com ar-condicionado ou encastelados em condomínios de luxo, obviamente, ignoravam a existência do “Brasil real”. As tão faladas classes D e E, que num mundo midiático como o nosso mais pareciam elementos distantes da nossa realidade. A recente ascensão das camadas da sociedade brasileira, de certa forma, promoveu uma perda de identidade classista. Pobre passou a ser aquele que “tem menos que eu, porque eu não sou pobre”. Além de temer a disseminação do vírus entre as camadas populares por sua, agora notória, falta de estrutura mínima de sobrevivência, existe o medo de uma sublevação social. Sem emprego, sem renda, sem alimento e sem assistência médica, a projeção para a crise do coronavírus sobre este grupo social não é das melhores. Uma sublevação social não é absurda de se imaginar, daí as últimas ações políticas do exército, preocupado com o futuro, como já noticiado pelo próprio GGN[3].

Ora, e se numa situação hipotética a crise do coronavírus chegar à proporções tão devastadoras quanto na Itália na Espanha, sendo que em nosso país com a falta de condições a probabilidade é real, será que os moradores das comunidades carentes das principais cidades brasileiras ficaram dentro de suas casas esperando a morte chegar?

As ações realizadas pelos agentes públicos, em alguns casos mais imediatas e incisivas, em outros casos mais vacilantes, expuseram ainda a falta de preparo, planejamento e, principalmente, investimentos. No Brasil neoliberal, há muito espaço para hospitais de campanha, solidariedade e material humano, leitos velhos reformados às pressas e poucos respiradores (as armas mais caras da batalha). As mazelas de um país latino-americano, que tropegamente buscava sua redenção, solapado por golpes e projetos imediatistas de poder são os ingredientes fundamentais para a catástrofe que se anuncia. Silenciosamente uma forte tensão social vem crescendo no Brasil, onde a população pobre, provavelmente a mais afetada, está encurralada em seus guetos e a população mais privilegiada, que também está suscetível a doença, consegue amparo mediante o dinheiro. O coronavírus, adaptando uma frase do rapper Mano Brown, mostra o que a novela não diz, expõe o que o sistema não quis.

[1] https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus/sambodromo-pode-virar-abrigo-para-acolher-moradores-de-rua-durante-pandemia-24317707

[2] https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2020/03/20/voluntario-consegue-sabao-para-doar-a-moradores-de-favela-no-grande-rio.ghtml

[3] https://jornalggn.com.br/a-grande-crise/acordo-das-forcas-armadas-coloca-braga-neto-como-presidente-operacional/

 

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3 comentários

  1. Não se preocupem com a continuada cegueira em relação a muita coisa, inclusive em relação ao Moro e associados.
    O CORONAVÍRUS veio para isso.
    Com o passar do tempo, a coisa piorando, os que sobreviverem estarão de olhos bem abertos.

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