Corrupção e sonegação, ou a captura do Estado, por Rudá Ricci

Corrupção não é problema brasileiro. É fenômeno mundial. As causas mais citadas são: profunda desigualdade social e Estado capturado por elites

Foto: ABr

Sugerido por Luiz Fernando Juncal Gomes
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Reflexões carnavalescas: Corrupção & Sonegação. Ou a captura do Estado.

Por Rudá Ricci

Como se enche a cabeça de um povo com bobagens e mentiras

A cultura política brasileira é rasa, opinativa. Raramente é embasada em fatos ou dados. Pior é quando se comenta algo relacionado às políticas sociais ou orçamento público. Uma ilustração pode ser pescada das conversas que os enclausurados do BBB entabulam. Não assisto BBB. Se é para ouvir conversa sem pé nem cabeça, prefiro um boteco.

Hoje, publicaram num dos grupos de Whatsapp que participo uma fala de alguém que está confinada no BBB e que comentava o que lhe dói ouvir “bandido bom é bandido morto”. Estava indo numa boa linha até que desanda a falar sobre corrupção. Mais uma que caiu no conto do vigário.

Corrupção não é problema brasileiro. É fenômeno mundial. E há estudos às pencas para compreender o fenômeno. As causas mais citadas são: profunda desigualdade social e Estado capturado por elites. Esta é a tese funcionalista norte-americana, por exemplo. Entretanto, no Brasil, o tema é tratado como um velho amigo que enveredou para o crime. É sempre uma fala genérica e raivosa, sem um mínimo de preocupação com as causas ou os verdadeiros efeitos desta prática. Parece dialogar com um sentimento atávico, de quando éramos bebês e um primo folgado nos surrupiou um brinquedo sem que nossos pais percebessem.

Uma rápida análise sobre os males que afligem nosso país levaria a qualquer um perceber que o problema brasileiro não é a corrupção, mas a desigualdade social. Thomas Piketty sustenta que somos o país mais desigual do planeta. A ONU acaba de publicar que somos a sétima nação mais desigual. Contudo, é consenso que somos a segunda nação em sonegação de impostos. Então, desigualdade e sonegação parecem forjar uma relação muito mais significativa que desigualdade e corrupção (dentre os 200 países do mundo, estamos na metade, no ranking mundial de percepção deste fenômeno).

O Banco Mundial revela que só perdemos em sonegação para a Rússia. Ricos e empresários parecem não ter muito apreço à nação. E fazem de tudo para armarem campanhas que nos façam legitimar a sonegação com frases como “se fizessem algo de bom com este dinheiro, eu até pagaria”.

A sonegação custa ao país sete vezes mais que a corrupção, sustenta o pesquisador Gabriel Casnati. Mas, a menina confinada do BBB dizia que a corrupção rouba recursos da educação e saúde. Percebem como os sonegadores fazem a cabeça de gente incauta?

Não é menos interessante saber que a menina confinada do BBB não citou a Emenda Constitucional que congelou gastos públicos, mas não congelou pagamento da dívida externa (que consome quase 50% de toda riqueza que produzimos neste país). Na época da votação da PEC do congelamento dos gastos sociais, especialistas de todo mundo a condenaram. Cito a relatora especial pelo direito à educação, Koumbou Boly Barry; o relator especial pelo direito à alimentação, Hilal Elver; a relatora especial para moradia adequada, Leilani Farha; o relator especial para pobreza extrema e direitos humanos, Philip Alston.

Vários estudos apontavam que seríamos tomados por epidemias já superadas (por falta de recursos à saúde pública) e aumentaria o número de suicídios. A desgraça que a Emenda Constitucional que congelou gastos sociais no Brasil implantou em nosso país já era prevista por David Stuckler, de Oxford. Mas a enclausurada do BBB não citou nada disso.

A menina enclausurada no BBB também não citou a reforma trabalhista e a lei que radicalizou a terceirização do país. Na época, o professor Ruy Braga, da USP, afirmou que em cinco anos chegaríamos a 75% dos brasileiros na insegurança da terceirização. Já estamos perto de 50%.

Então, para não me alongar, fico me perguntando o que faz uma tese tão rasa (a da corrupção como principal problema brasileiro) ganhar as mentes e corações de brasileiros incautos. Como podem esquecer de tantas causas mais significativas?

 

***
Livro: A Pátria Educadora em Colapso, de Renato Janine Ribeiro:

No livro “A pátria educadora em colapso”, do Renato Janine Ribeiro, o autor diz no capítulo “O governo acabou”, página 207: “No Brasil, dada a nossa INCULTURA POLÍTICA, somada à demagogia das oposições (qualquer oposição), tudo o que dá errado é atribuído à corrupção. O resultado paradoxal dessa incapacidade de entender a dimensão política – na qual nosso antagonista não é necessariamente desonesto – é que aqui os fins justificam os meios, mais do que em outros países. Explico: como os brasileiros não aceitam o pluralismo político, mas tentam encaixar na oposição honesto/desonesto, sempre que perdem dinheiro com políticas públicas acusam de ladrão quem está no governo. Portanto, se a economia estiver melhorando, aceitam as desonestidades. O fim é a prosperidade, o resto são apenas meios. Nossa BAIXA CULTURA POLÍTICA funciona sempre assim. Dizemos “corrupção”, mas isso significa apenas “queremos dinheiro”. Deixo muito claro que estou descrevendo uma triste realidade, a qual critico fortemente – não estou poupando corrupto algum. Na verdade, o ataque moralista é a cortina de fumaça para uma defesa, não esclarecida, de interesses muito imediatos.”

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3 comentários

  1. Eu fico me perguntando por onde andou o doutor cientista político nos últimos quarenta anos, período em que só se ouviu UMA única propaganda em TODOS os veículos de comunicação (não só em jornais e revistas): o estado retira recursos da sociedade pra uma minoria de corruptos embolsarem, daí, a soluçao é privatizar, desregulamentar, etc, etc.

    É o retrato da da ciência politica que jamais que jamais incorporou a comunicação nos modelos de analise, e de boa parte da esquerda política que perdeu a comunicação por W.O.

    E em pleno ano de 2020 da graça do senho ainda NÃO VIU!

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