Da colônia lusitana ao primeiro moquém marciano, por Fábio de Oliveira Ribeiro

O fracasso da civilização brasileira somente se tornará menos doloroso quando os norte-americanos finalmente começarem a colonizar Marte.

Da colônia lusitana ao primeiro moquém marciano

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Confesso que comecei a escrever pensando num assunto, mas à medida que progredia esbarrei em outro. A transição entre os dois fragmentos do texto é tão sutil e imperceptível que resolvi publicar tudo sem qualquer supressão.

A característica dominante das cidades do Mundo Antigo era a existência de muralhas. A construção e manutenção delas era uma tarefa de toda a comunidade. Na urbe confinada o aumento populacional representava um problema que somente poderia ser resolvido mediante o estabelecimento de colônias.

Os gregos colonizaram a Sicília, a Itália e a Ásia Menor. Os cartagineses colonizaram a Sicília e o litoral da Espanha. Os romanos começaram lutando para sobreviver e para sobrepujar as cidades vizinhas. À medida que a população de Roma crescia, os romanos estabeleceram colônias por toda península itálica. Depois eles avançaram para a Sicília, Gália, Espanha, Oriente Médio, Norte da África e Germânia. Roma entrou em conflito com diversas civilizações, assimilando a maioria delas e destruindo totalmente outras até transformar o Mediterrâneo num lago romano.

Crescer ou morrer. Expandir e conquistar ou definhar e ser conquistado. As forças que impeliam os romanos eram qualitativamente diferentes daquelas que impeliram os portugueses a navegar até a Índia e a acidentalmente descobrir um novo continente. No século XV, Portugal era um país pequenino com uma população diminuta que não precisava estabelecer colônias além mar para aliviar o aumento populacional nas suas cidades muradas.

A força motriz da expansão marítima portuguesa foi a ganância. O Rei de Portugal tinha uma ambição: monopolizar o comércio de especiarias contornando a barreira formidável criada pelos turcos entre a Europa e a Índia. O estabelecimento de colônias foi apenas um subproduto acidental da aventura comercial portuguesa.

Em algum momento as colônias se separaram de Portugal. As diferenças entre elas e a antiga metrópole são maiores do que as semelhanças entre Roma e as colônias romanas. A língua é a mesma, mas o vocabulário é muito diferente. A dinâmica social construída nas ex-colônias portuguesas, resultante do uso sistemático da violência contra povos autóctones e da brutal exploração de escravos africanos, não caracterizou as relações entre os portugueses em Portugal no mesmo período.

Ao expandir seu território (ou se expandir dentro dos territórios de outros povos), Roma também usava inicialmente à violência. Todavia, a médio prazo os romanos privilegiavam o comércio e a assimilação cultural. Com um pouco mais de tempo, os povos romanizados podiam conquistar a cidadania romana. Roma cobrava tributos, mas também investia parte deles na construção de infraestrutura urbana das novas cidades construídas para abrigar seu excedente populacional ou nas cidades que haviam sido conquistadas e romanizadas.

Para Portugal, colonizar era equivalente a se apropriar de algo ou de alguém sem se preocupar com o resultado social do processo de colonização. A riqueza resultante da exploração colonial era quase toda transferida para a metrópole. Pouco ou muito pouco foi investido no bem estar das populações colonizadas pelos portugueses.

Em Portugal o respeito pela vida humana é muito grande. Entre nós a vida mal chega a ser considerada um valor digno de ser defendido pela imprensa: 180 mil mortos em decorrência da inação governamental durante a pandemia e um jornalista da Rede Globo defendeu o Impeachment porque Bolsonaro usou a ABIN para tentar impedir um filho de ser condenado.

O fracasso da civilização brasileira somente se tornará menos doloroso quando os norte-americanos finalmente começarem a colonizar Marte. O resultado desse empreendimento tem tudo para ser uma imensa catástrofe humanitária. Mas isso é o que menos importa. O sucesso imaginário dele nos EUA é um fato comprovado pela profusão de vídeos sobre o tema publicados na internet. Os frutos políticos e econômicos do recomeço imaginário em um novo mundo já estão sendo colhidos.

Enquanto olham para o espaço e comemoram até os fracassos dos foguetes de Elon Musk, os norte-americanos continuarão entorpecidos. A embriaguez permanente (seja ela religiosa, política, militar ou científica) é um componente essencial do “American way of life”. Nos EUA perseguir a felicidade é um direito que possibilita esquecer a infelicidade.

Entre nós a embriaguez é um pouco diferente. Nós somos infelizes convictos que aprendemos a apreciar a infelicidade dos outros brasileiros. Nosso passado colonial tem um grande futuro pela frente. A bestialidade governamental nos tornou incapazes de acreditar no futuro. Ao contrário dos norte-americanos, os brasileiros não precisam colonizar outro planeta. Marte é aqui.

A nossa SpaceX continuará sendo um ônibus, trem ou metrô lotado de pessoas obrigadas a trabalhar na pandemia. O risco da explosão da contaminação e do aumento exponencial de mortes é real, mas o presidente da república ri da desgraça alheia e os governadores e prefeitos se recusam a decretar novas restrições.

Recolonizado pelo bolsonarismo, o Estado brasileiro também se tornou um foguetão desajeitado que tenta posar de marcha ré. Mas infelizmente o Brasil não vai explodir como o SpaceX muskiano. Desligado da realidade, as instituições estatais brasileiras continuarão  enriquecendo seus donos (banqueiros e barões da mídia entre os tais) e fazendo de conta que não tem qualquer obrigação de cuidar do bem estar da população.

O conceito de população brasileira é complicado. Durante séculos os índios foram tratados como bichos e os negros eram apenas coisas semoventes. O Estado colonial foi criado para cuidar dos interesses do Rei e preservar o bem estar dos homens livres. Seu sucessor, o Estado imperial, não fez algo muito diferente. Todas as nossas Repúblicas só foram nominalmente republicanas. De fato elas continuaram funcionando como instrumentos de socialização da violência para os “outros” e de capitalização dos lucros para alguns (os descendentes dos colonos e seus esbirros fardados e togados).

Qualquer observador atento consegue ver o declínio econômico, social e científico dos EUA. Mesmo assim, uma parcela da população brasileira (os endinheirados que são sócios dos norte-americanos no Brasil ou que têm interesses nos EUA) sonha com uma relação de dependência ao norte ainda maior. Abaixo o Real, viva o Dólar. A mimética classe média tradicional tupiniquim, composta por militares, médicos, juízes, procuradores, etc… só consegue pensar no Green Card ou num visto facilitado para poder visitar Miami, NY e Washington.

Frutos do empreendimento colonial acidental da Lusitânia, uma ex-província romana, os brasileiros endinheirados olham para os EUA e enxergam a nova Roma. Alguns deles provavelmente já estão pagando suas passagens para viver na colônia marciana imaginária do dono da Tesla. Se tiverem sorte eles serão apenas vítimas do primeiro estelionato espacial organizado em escala planetária. Se forem azarados, eles realmente subirão numa SpaceX rumo ao desconhecido.

Os brasileiros que sonham ir para Marte estão fartos do Brasil. Nós estamos fartos deles. Mesmo assim, nunca é demais ser gentil. Quem avisa inimigo é.

Em Marte não tem MST, nem PT. Mas também não existe mão de obra farta, cerveja gelada todos os dias e feijoada na quarta-feira. Na colônia marciana todos serão iguais perante a Lei, mas os norte-americanos provavelmente se sentirão tentados a tratar os brasileiros marcianos como membros de uma raça inferior condenada apenas a trabalhar.

Quando o foguetão aterrizar – supondo que ele não perderá o rumo ou explodirá ao tocar o solo marciano – os colonos brasileiros em Marte não encontrarão um mundo virgem. O mais provável é que eles encontrem um mundo árido e sem atmosfera respirável. Tudo aquilo que nós já temos aqui terá que ser construído lá. E para piorar, naquele planeta não tem nada daquilo que nós acostumamos a destruir e a desperdiçar no Brasil. Nem rios caudalosos, nem florestas luxuriosas, nem cachoeiras aprazíveis, nem índios que possam ser aprisionados e forçados a cortar pau-brasil em troca de machados e miçangas.

Muito trabalho e pouca saúva, os males de Marte são.

O Whisky acabou? Que pena. O novo carregamento só chegará no próximo foguetão, se ele não afundar na travessia espacial. Se a empresa de Elon Musk falir aqui na Terra, a colônia marciana dele será abandonada à própria sorte. Nesse caso, nunca é demais fazer um alerta essencial: os colonos brasileiros em Marte que forem vegetarianos correm o risco de morrer de fome; aqueles que forem carnívoros podem acabar revivendo uma tradição infame dos caetés e dos primeiros colonizadores da América do Norte.

Tupi or not tupi, o sonho transportado pela SpaceX pode virar o pesadelo de um moquém na borda do Valles Marineris. Vá para Marte, burguês níquel! E leve os filhos do Bolsonaro com você. Encontre lá um “American dream” pior do que tudo o que existe em nosso país. O Brasil certamente ficará bem melhor sem você.

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