Das eternas precariedades das esquerdas brasileiras, por Eduardo Ramos

Precisamos mais de brasileiros apaixonados pelo Brasil, que usem a RAZÃO na construção de seus ideais e nos seus apoios, que sejam apoios críticos e não fanáticos.

Das eternas precariedades das esquerdas brasileiras

por Eduardo Ramos

Esse artigo é, na verdade, apenas uma reflexão feita por um leigo, não filiado a partido algum, não especialista no assunto mas que, há meio século, quando começou a se interessar por política, assiste, tragicamente, equívocos gravíssimos e cenas de canibalismo explícito nas chamadas “esquerdas brasileiras”. Não objetiva portanto esse modismo tolo dos nossos tempos: “lacrar”, o que quer que seja, ou trazer verdades definitivas. Ao contrário, apesar das afirmativas que se seguirão no decorrer do texto, levanta mais dúvidas e questões do que traz respostas.

Enxerguei de perto essa realidade em 1978, quando entrei na Faculdade Nacional de Direito, curso que não terminei, indo até o oitavo período. Era o fim da ditadura, mas ainda havia prisões, alguma tortura e raramente mortes, os estudantes, íamos às ruas gritar pela volta da democracia e grandes passeatas voltavam a ocorrer, ao menos no Rio de Janeiro. Foi quando tivemos o congresso da UNE (fui como delegado votado pelos estudantes…) em Salvador, uma festa democrática altamente politizada, com debates extraordinários, em 1979, e a volta dos primeiros brasileiros vindos do exílio. O país respirava desejos de liberdade e vivíamos a chamada “distensão política”, os militares meio que “obrigados” a ceder espaços à democracia, que gritava por passagem em vários segmentos sociais.

É dessa época minha vivência REAL da sandice que percebo desde então nas esquerdas brasileiras (sim, no plural, porque são várias e com vários objetivos, ideais e lutas…), em discutirem com a veemência de fanáticos religiosos, mesmo os detalhes mais insignificantes de cada “passo da luta”. Cito um exemplo: fui “redator” do Jornal da Faculdade na época – que só durou dois meses para nossa total frustração… -, chamado “A Resistência”. Os debates duraram algo em torno de quatro, cinco horas, porque alguns companheiros achavam a palavra “resistência” muito “passiva”, e desejavam o nome “Luta e Resistência” – porque “Luta” tinha uma conotação “ativa” e mais radical para os nossos objetivos. Multipliquem isso por cem motivos semelhantes, cem manhãs ou tardes ou noites em debates acalorados que chegavam a durar cinco, seis horas, e compreenderão o fastio que até hoje sinto por essa obsessão compulsiva que observo em nossas esquerdas desde aquele período…

Além desse componente exaustivo, sempre presente, era comum vermos ressentimentos, desprezos, ataques verbais duríssimos nos debates públicos, entre as correntes que perfaziam o movimento estudantil. Não vou ficar em cima do muro, quero citar um exemplo que vivenciei há uns dois anos, que me remeteu aos “quase ódios” que eu via em alguns grupos estudantis.

Eu estava conversando com um colega de trabalho militante do PSOL, e soltei um comentário simples, mais humano do que político na verdade, lamentando Lula estar preso e a injustiça dessa prisão. O colega fez uma cara de nojo, e respondeu “na lata”, como se diz: “…tenho pena não! Quem com porcos anda, farelo come!”… – e saiu do elevador antes que eu pudesse responder qualquer coisa.

Já escrevi sobre isso em minha página do Facebook, uma certa ojeriza que peguei em relação ao PSOL desde 2012/2013, quando intuí que eles (Freixo à frente, na minha opinião…) se aproveitaram das manifestações meio anárquicas daquele tempo – logo manipuladas pela Globo que lhes deu motivo, motivação, rosto, mantras, e até o ódio canalizado, de presente… – para engrossarem a cadeia de eventos para que Dilma e o PT se desgastassem aos olhos da sociedade, um modo meio perverso de tentarem “ficar com os despojos” – aumentarem sua visibilidade e se apresentarem a todos como “a esquerda pura, limpa e sem corrupção…” – nesse aspecto, portanto, cúmplices naquele momento, da direita brasileira.

Em um sindicato que participei uma vez por poucos meses, vi os mesmos problemas tantas vezes…. debates longos, cansativos, por “PN” como dizíamos no meu tempo, e em todas as votações importantes, as duas correntes mais fortes (ambas de esquerda…) só faltavam cair na pancadaria explícita. O resto era “permitido”.

Confesso meu cansaço disso tudo, talvez por isso um afastamento de todo debate que percebo exacerbado e uma impaciência absoluta quando esses equívocos – ou má fé mesmo! – não permitem que as esquerdas se unam, mesmo quando isso é, claramente, uma questão de sobrevivência e/ou de salvar o país.

Impaciência idêntica dos que fazem da política – mesmo a bem intencionada – uma espécie de religião. Fico pasmo quando leio coisas do tipo: “posso até pensar o contrário, mas se Lula acha isso o melhor, tô com ele, Lula sabe o que faz!” – uma espécie de “infalibilidade papal” concedida ao grande Lula. Quem me dera alguém tivesse gritado nos ouvidos de Lula, Dilma, o PT inteiro, que excesso de republicanismo é ingenuidade BURRA E FATAL, e que colocar, por exemplo um Janot como PGR, é como entregar a madeira para o cadafalso e a corda para o carrasco, e o nome disso é SUICÍDIO, não “republicanismo” – para citar apenas um dos grandes erros da dupla Lula/Dilma, no poder.

Precisamos mais de brasileiros apaixonados pelo Brasil, que usem a RAZÃO na construção de seus ideais e nos seus apoios, que sejam apoios críticos e não fanáticos. E que ações como a do PSOL em 2012/2013 sejam extirpadas de nossas esquerdas. O que nos derruba do poder, sempre, além da bestialidade selvagem e furiosa da direita (normalmente unidíssima…)? Creio que ingenuidades diversas, equívocos monumentais quando no poder, disputas por espaço e apoio popular com táticas de guerrilha – canibalismo na veia! – e falta de foco.

Quero me livrar do monstro que está no poder. Lula é a nossa maior chance. A mim pouco importa se ele deseja ou não colocar Alckmin em seu palanque para acalmar as oligarquias, abaixar a bola do ódio ao PT, etc. etc….. – Há motivos a favor e contra essa tática. Mas vou me contradizer: debato isso com Lula, o PT inteiro, o papel e os limites de Alckmin, DEPOIS QUE ELE GANHAR A ELEIÇÃO!

Hoje, esquerdas, por favor: livremos o Brasil da fome, da destruição total e de um genocida!

(eduardo ramos)

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3 Comentários

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Zinda Vasconcellos

- 2022-01-15 14:15:39

Ok, Eduardo, concordo com a maioria do que vc diz (sobretudo na parte referente ao PSOL, fiquei com a mesma repulsa ao partido pela cumplicidade com a Direita para levar vantagem em relaçao ao PT -- eu que tinha assinado a favor da formaçao dele, me afastando do PT para fazer isso. Mas acho que vc, que acusa Lula e o PT de ingenuidade, está sendo ingênuo também. Sou contra Alckmin de vice, mas nao por purismo político, e sim PORQUE É PERIGOSO! Dar a Lula um vice de que a Direita goste é o mesmo que encomendar o assassinato dele. Nao adianta ganhar eleiçao para passar o governo para Alckmin... Realismo demais pode acabar virando tiro contra.

Wilson Ramos

- 2022-01-15 13:40:14

Sem dúvida as esquerdas deveriam apoiar projetos que andam na direção do que sonham, mas parar de imaginar que terão apoio da maioria dos trabalhadores para realizar a tal revolução utópica. Deveriam estudar mais, seguir o que ensinaram os clássicos mas atualizar a situação da economia e da sociedade. O capitalista não atua mais, coloca empregados para fazer seu papel, até para decidir investimentos. O trabalhador cada vez mais acumula capital, apropriando-se também de mais valia que se tornou impossível de calcular e nem sequer imaginar. Os trabalhadores em conjunto detém mais capital do que os que os empregam. É preciso endereçar a nova realidade sem pretender que o país ande para trás para permitir o emprego das velhas teorias.

Aldair

- 2022-01-15 11:29:12

Surpresa total! O autor deve ter guardado esse texto da época da faculdade, tamanha a infantilidade do assunto, uma briga de setores da "esquerda letrada". No texto comete o mesmo "erro" do qual acusa os militantes do psol. Lamentável GGN publicar uma ingenuidade dessa. Perdi meu tempo lendo essa nota de memória dos tempos de movimentos estudantis, brigando em congressos pela eleição do grêmio da faculdade.

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