De um cientista para um crente: Uma resposta a Silas Malafaia, por Eduardo Borges

De um cientista para um crente: Uma resposta a Silas Malafaia

por Eduardo Borges

Escrevo esse texto com certo atraso, pois o fato que me motivou a escrevê-lo aconteceu no meio da semana passada. Contudo, o tema em questão é tão pertinente e necessário que é atemporal. Em tempos de profundo obscurantismo intelectual que estamos vivenciando, se torna, inclusive, necessário. Refiro-me ao comentário do  Pastor Silas Malafaia sobre a fala do ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, respondendo a uma declaração de outra ministra do governo Bolsonaro, Damares Alves.

De acordo com a ministra Damares a Igreja Evangélica perdeu o espaço na história e na ciência quando a teoria da evolução entrou na escola sem ser devidamente questionada. O ministro Marcos Pontes fez o que se espera de um gestor responsável pela ciência do país, disse ele: “Não se deve misturar ciência com religião”.

O Pastor Silas Malafaia, que vem nos últimos anos se credenciando a comentador mor do País, não perdeu tempo e respondeu ao ministro, através de suas redes sociais, com toda “suavidade” que lhe é peculiar. Longe de querer polemizar ou desrespeitar o citado líder religioso, quero apenas usar seus comentários para fazer algumas ponderações sobre a relação entre ciência e religião em tempos bolsonaristas.

Escreveu Malafaia: “Se a teoria da evolução fosse verdade comprovada, se chamaria lei da evolução. As leis da ciência são verdades comprovadas que não mudam. As teorias são verdades relativas q podem mudar a qualquer hora”.

O Pastor já demonstra, de saída, um olhar no mínimo enviesado do que é ciência e do que é uma suposta “verdade científica”. Se tivesse ele feito uma rápida leitura de Karl Popper veria que “a ciência jamais persegue o objetivo ilusório de tornar finais ou mesmo prováveis suas respostas. Ela avança, antes, rumo a um objetivo remoto e, não obstante, atingível: o de sempre descobrir problemas novos, mais profundos e mais gerais, e de sujeitar suas respostas, sempre provisórias, a testes sempre renovados e sempre mais rigorosos”.

Malafaia não compreende que diferente de uma “comprovação” religiosa que necessita apenas de fé para ser considerada verdade, uma “verdade” científica pode ser resultado apenas de indícios, de conjecturas, ainda que sempre tendo como premissa básica cálculos e experimentos.

O Pastor afirma que  “Se a criação é uma teoria, a da evolução é pior ainda. Existem mais evidência na natureza para a criação do que para a evolução. Submeta as 2 as seguintes leis e você verá. As leis da biogêneses, causa e efeito,1ª e2ª lei da termodinâmica.O RESTO É CONVERSA!”. A caixa alta no final é apenas um registro da conhecida empáfia do religioso.

Para Malafaia, recebeu o nome de “Lei” é uma verdade absoluta e pode ser considerada ciência, mas se foi chamada de “teoria”, então é algo a ser relativizado enquanto ciência, pois pode até mesmo ser confundido com crença e fé. Nesse caso, o que teria sido um certo Albert Eistein e sua “teoria da relatividade”, um dos maiores cientistas de todos os tempos ou um competente  proselitista que convenceu muitos para sua causa?

Quando diz que “Existem mais evidência na natureza para a criação do que para a evolução”, o famoso Pastor deve estar pensando na lei da biogênese que afirma que todos os seres vivos são originados de outros seres vivos preexistentes. Desconheço o fato de que Louis Pasteur estivesse interessado em comprovar ou explicar o surgimento do primeiro ser vivo, a biogênese vem para desconstruir a abiogênese e demonstrar a origem da vida a partir de outro ser vivo. Apenas isso, sem kkkkk (você vai entender isso no parágrafo seguinte)

Malafaia insiste em vincular a teoria da evolução a uma crença religiosa e afirma: “A teoria da evolução tem mais de religião do que de ciência, como não tem comprovação, você precisa acreditar nela, com um detalhe, tem que ter mais fé do acreditar na criação. Tudo veio do nada, passou por processos que ninguém sabe. Só kkkkk”.(Como é óbvio e hilário esse Silas).

Insisto na leitura de Karl Popper que o Pastor certamente não terá interesse em fazer. Silas não entende o sentido do termo “comprovação” dentro de uma investigação científica. A crença do cientista não vem de uma abstração como ocorre com a crença religiosa. A “crença” de um cientista é sempre resultante de uma exaustiva pesquisa e experimentação. Retornando a Karl Popper, ele nos ensinou que devemos ter o “reconhecimento de que as nossas teorias, mesmo as mais importantes, e até as que são realmente verdadeiras, nunca deixam de ser suposições ou conjecturas”. Mas, ainda assim, isso não faz de nossas teorias científicas “crenças religiosas”.

Existe, entretanto, uma falsa polêmica entre evolucionistas e criacionistas no que diz respeito à lei da Biogênese. Mesmo que essa lei afirme de que um ser vivo só pode ser originado de outro ser vivo, o que realmente interessa para os evolucionistas é a evolução dos seres vivos, independente de como se deu sua origem primária. Acredito que o Pastor Malafaia, na ânsia de provocar uma boa polêmica, não tenha pensado nisso.

Para os que acreditam (como Silas Malafaia) na teoria do criacionismo não é necessário comprovação científica, basta fazer um simples exercício de raciocínio básico tipo: não é possível que tudo tenha vindo do nada, é necessário que tenha existido uma origem para tudo e isso só pode ter sido Deus. Mas se Deus é a origem de tudo, é aquele que antecede o nada, quem criou Deus? Como diria Malafaia: Só kkkkk.

A famosa teoria do Bin Bang que explica a formação do universo através de uma grande explosão, parte da premissa de que toda a matéria do universo estava comprimida em algum lugar e que a explosão do Big Bang apenas descomprimiu essa matéria concentrada. Certamente que os criacionistas vão perguntar: De onde surgiu essa primeira matéria comprimida?

O  físico americano Alan Guth buscou explicar em seu livro intitulado: “O universo inflacionário”, usando da física quântica, essa questão da origem primordial, identificando o “nada” como o lugar de toda a origem do universo. Tudo teria emergido de um vazio que ao se expandir em grande velocidade seria depois fragmentado pelo Big Bang. Uma dica para quem quiser se aprofundar sobre o tema é buscar o significado de “vazio” para a física quântica.

Sobre a questão da origem da vida, de acordo com a teoria criacionista somos todos resultantes da criação de um Ser Supremo que nos fez à sua imagem e semelhança. Malafaia e Cia acreditam nisso e isso é um direito inalienável deles. Por outro lado, a ciência, ao não se satisfazer com explicações resultantes exclusivamente de uma vontade de fé, tem suas teorias, mesmo que suas “verdades” estejam abertas para serem contestadas ou falseadas.

A mais famosa dessas teorias é conhecida como: “sopa primordial”. Possivelmente, em uma poça de água teria ocorrido uma série de reações químicas sobre substâncias como amônia, metano e agua, resultante de correntes elétricas de tempestades ou de radiação solar que culminaria na formação de moléculas simples que resultaria na origem da primeira experiência de vida na terra.

Veja bem Malafaia, isso é uma teoria científica, logo, como tal, pode ser contestada livremente. Entretanto, para ser contestada, é necessário que se apresente outra teoria com base em conjecturas e experimentos científicos, nunca uma teoria eivada de subjetivismos.

É por isso Pastor Silas e Ministra Pastora Damares, que essa teoria deve estar na sala de aula, porque ela pode ser sempre apresentada como uma hipótese, nunca como uma verdade absoluta.

E é por motivo diferente, que o criacionismo pode e deve estar na Igreja ou na família, nunca na escola, pois em sentido oposto, como é fruto de uma crença, não pode ser contestada nem desconstruída.

Enfim, defendendo o ministro Marcos Pontes, o que ele quis dizer se resume na famosa frase atribuída a Jesus Cristo, “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Diferente do senhor Silas Malafaia, o ministro, ao separar ciência de religião, apenas demonstrou seu profundo respeito por ambas, mas como se diz por aí, deixando claro que cada um deve ficar no seu quadrado.

Eduardo Borges – Doutor em História

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