Dos neonazismos do século XXI, por Eduardo Ramos

O neonazismo como DOENÇA SOCIAL presente no dia a dia da nação.

Dos neonazismos do século XXI

por Eduardo Ramos

“Poucos países podem dizer-se imunes em relação a uma futura onda de violência, gerada pela intolerância, pela vontade de poder, por razões econômicas, por fanatismos religiosos ou políticos, por atritos raciais. É preciso, pois, despertar nossos sentidos, desconfiar dos profetas, dos iluministas, daqueles que dizem e escrevem “belas palavras” não apoiadas por boas razões.”

(do livro “Os Afogados e os Sobreviventes”, 1986, Primo Levi, Edição de 2016 da Editora Paz & Terra)

À semelhança de Hannah Arendt, Primo Levi se tornou uma das vozes (e consciências críticas) mais atuantes e conhecidas na descrição do nazismo, suas formas, seu “modus operandis” e, de certo modo, mesmo que sob um prisma diferente, sua trágica BANALIDADE.

Este alerta que encontramos na contracapa do livro citado acima, deixa isso claro. Vou além, como eram proféticas as palavras do autor. Menos de 30 anos após essa fala tão objetiva, vemos um mundo corrompido por ideologias e governos de extrema direita, o autoritarismo é uma realidade, a intolerância idem, e urge que compreendamos esse termo tão atual, o “NEONAZISMO”. Para melhor compreensão das ideias que se desejam transmitir, dividiremos essa breve reflexão em tópicos.

Ponto Um – A que tipo de práticas, ideologias e governos podemos encaixar no termo “neonazismo”?

Erramos todos, quando ignoramos uma palavra que marcou uma era sombria e perversa específica, apesar das cristalinas SEMELHANÇAS percebidas em processos político-sociais futuros, apenas porque esses processos atuais NÃO TÊM O MESMO NÍVEL DE HORROR, VIRULÊNCIA E NÚMERO DE MORTES do evento histórico original. Não precisamos ver campos de concentração e câmaras de gás ou um conflito armado mundial para usarmos o termo “neonazismo” em relação aos processos de transformação política, social, econômica e até ética, porque passam alguns países no mundo, entre os quais o Brasil.

Nos quesitos enfermidade social de um povo, viés totalitarista de governo, a presença exacerbada de preconceitos, fanatismo e ódio em relação a grupos específicos de pessoas e suas lideranças, retrocessos inimagináveis nos níveis de civilidade de uma nação, massacre da democracia e dos direitos humanos, sordidez do Judiciário e a celebração da demência e da imbecilização em seu estado mais bruto, NO QUE NOS DIFERIMOS da sociedade alemã que, no decorrer da década de 30 abraçou o NAZISMO como ideologia de vida…? É esta analogia que AUTORIZA refletirmos sobre o Brasil de hoje – e outros tantos países… – como participantes de um novo “nazismo mundial”.

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Ponto Dois – O neonazismo como ideologia implementada não mais por Exércitos, mas pelo grande capital com a ajuda da mídia, das classes médias e do Judiciário.

Uma das dificuldades de enxergarmos a GRAVIDADE ABSOLUTA DESSE TEMPO e fazermos o “link” com o nazismo alemão, é a ausência de um Exército armado dominando tudo e propondo guerras nacionalistas. Essa parte, aparentemente, virou “peça de museu”. Os golpes de Estado se sofisticaram. Empresas como a Globo criam heróis, potências como os EUA fazem desses heróis marionetes robotizadas e fanáticas (vide Moro, Dallagnol e assemelhados…), fiéis não aos seus países de origem, mas às ideologias mais radicas do mercado e dos interesses das oligarquias financeiras, às classes médias desses países é apresentado um “SATANÁS PARA SER ODIADO”, símbolo de todo o mal e corrupção, e é criada uma “bandeira”, um mote, um ÁLIBI para a destruição do “SATANÁS”, que sempre será a pessoa-grupo social capazes de impedir a colonização do país-alvo, se deixados em liberdade. Todo esse processo é o que chamamos de “neonazismo”, porque uma de suas consequências mais trágicas é a MANUTENÇÃO DE CENTENAS DE MILHÕES DE SERES HUMANOS EM UM CATIVEIRO ETERNO DE VIOLÊNCIAS, MISÉRIA, DEGRADAÇÕES DIVERSAS E….. MORTE! Ou seja, um pequeno número de pessoas manipula quem controla a mídia e as instituições de uma nação, CRIA PAROXISMOS DOENTIOS sem que na verdade houvesse motivos para a sua existência, e ao condenarem uma imensa massa humana à “não-vida”, esse é um TIPO DE EXTERMÍNIO COMUM AO NAZISMO ALEMÃO.

Para os que ainda não compreenderam a ideia do texto, cito dois exemplos: Paraisópolis e o assassinato de nove jovens pela polícia de Doria Jr., o que significa, se não uma “GESTAPO LEGALIZADA”, com liberdade para matar “os que não contam”, os que não têm, de fato e de verdade, CIDADANIA, valor, importância alguma…? Quando o governador Witzel e seu sorriso psicótico, defende os “tiros na cabecinha”, autoriza e propõe como política de governo que se atire de helicópteros com fuzis sobre uma população indefesa, o que é isso senão GENOCÍDIO? E o que é o uso ilegal da polícia para intimidar o jornalista Luís Nassif em sua casa por vídeos em que denuncia esse genocídio, senão O TOTALITARISMO MAIS ABJETO DO ESTADO contra o cidadão, a democracia, o livre pensamento, os direitos mais fundamentais?

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Portanto, existem características pra lá de óbvias que nos permitem chamar o que vivemos hoje, no Brasil, de “um evento social neonazista”.

A grande mídia criou as serpentes, instigou o discurso do ódio, deu voz a cães bestiais nos últimos anos, tudo para destruir Lula e o PT, e hoje sabemos que os EUA estavam por trás de todo o processo, interessava a este país a destruição de nossa soberania, nossa democracia, a imbecilização de nossa classe média, o fim de nossas empreiteiras, a venda da EMBRAER, uma Odebrecht quebrada, falida, um Brasil desfigurado, humilhado, provavelmente visto com desprezo por China, URSS, e outros ex-parceiros, que nos celebravam há tão pouco tempo como uma futura potência, capaz de autodeterminar o seu futuro no mundo…

O Exército nem precisou sair às ruas, bastaram alguns tuítes e recados pelas redes sociais. Um Judiciário apequenado, covarde e reacionário fez o serviço sujo, Lula foi massacrado, sua família idem, o PT, satanizado de vez, e o governo entregue à escória, como Temer, e logo depois, ao ser bestial por excelência. Cabe a pergunta: como não identificarmos como “neonazista” a sociedade capaz de eleger um ser como Bolsonaro…?

Ponto Três – O neonazismo como DOENÇA SOCIAL presente no dia a dia da nação.

Encerramos nossa reflexão falando agora de exemplos concretos:

O que significa a foto de jovens sorridentes ao lado do ex-goleiro Bruno do Flamengo, como se não fosse ele o homem capaz de um dos assassinatos mais covardes e brutais já executados no Brasil?!?

O que significa a morte de um músico num domingo à tarde, por 200 tiros de militares, sem que a sociedade reaja com revolta à altura da violência covarde?

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O que significa Érika Marena e o suicídio do reitor Cancellier, sem punição aos responsáveis?

O que significa a morte, dia sim dia não, de líderes indígenas no Norte/Nordeste do país, sem que causem a menor comoção?

O que significa um policial federal atirar no acampamento Lula Livre em Curitiba, sem que seja preso e punido exemplarmente?

O que significa um juiz ordenar escutas sobre advogados de um ex presidente e não ser preso por tamanha desfaçatez?

O que significa Witzel e os “tiros na cabecinha” que já mataram dezenas e dezenas de inocentes?

O que significa um Judiciário e um Ministério Público tendenciosos, acanalhados, venais, perseguindo seus adversários políticos e protegendo seus aliados, a Lei transformada em FARSA INÚTIL?

O que significa o aumento da fome, do desemprego, da miséria, das doenças, de programas sociais que diminuíam esse horror, SEM QUE A SOCIEDADE FIQUE INDIGNADA, antes, celebre todas essas insanidades?!?

O que significa essa família no poder, amigos de milicianos, bestiais, selvagens, antidemocráticos, guiados lá dos EUA por um lunático-demente que se diz “filósofo”?

O que significa o vídeo que é o suprassumo de TODA A BESTIALIDADE HUMANA, em que candidatos a deputado e o sr. Witzel, gritam junto a uma turba enfurecida, FESTEJANDO o assassinato de Marielle Franco, pouco antes da eleição de 2018? Aliás, diga-se, O QUE SIGNIFICA SE ELEGEREM, EM GRANDE PARTE, POR ESSE VÍDEO?!?

E, o articulista poderia fazer dezenas de perguntas nesse mesmo sentido….

O que significa TUDO ISSO, afinal?

SIGNIFICA que adoecemos de vez como país, que chegamos ao fundo do fundo do fundo do poço enquanto nação. Incivilizados, sem cognição com a realidade, banhados em ódios e fanatismos, intolerantes, selvagens, indiferentes aos nossos pobres e miseráveis de vida tão sofrida…

É esse, afinal o NEONAZISMO à brasileira.

Primo Levi estava certo!

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1 comentário

  1. Parabéns pelo texto-desabafo, prezado Eduardo Ramos.
    Nós (não sei se é o teu caso) que já ultrapassamos a casa dos 60 e estamos em compasso de espera para o desfecho inescapável, nem surpreendidos somos mais, tal a repetição, pelos absurdos desse cotidiano que parece eterno.
    É verdade que na nossa trajetória até aqui neste vasto Mundo vivenciamos as muitas transfigurações apos o pós-guerra, como a persistente e gritante desigualdade social, o despontar do processo do consumismo fútil, a miséria moral das diversas matizes do preconceito, e até mesmo o extremo pessimismo próprio da dita pós-Modernidade que, se não era líquida, se liquefazia pelas imensas inflexões de caráter político, econômico, social e cultural sob os auspícios dos avanços tecnológicos; principalmente nas áreas da comunicação e da informática.
    A alegoria da Modernidade Líquida, da lavra do filósofo Zygmunt Bauman, a meu ver já em está processo de superação. Sem querer abusar da metaforização, sinto que colocamos um pé na modernidade gasosa na qual a fluidez dá lugar ao etéreo, ao volátil.
    Talvez fosse o caso de uma releitura do famoso aforismo de Marx: “Tudo o que era sólido(e líquido, acrescentaria) desmancha-se no ar; tudo o que era sagrado é profanado”.
    Pois é: vivenciamos num contexto de profanações tão bem explicitado nesse pertinente texto. Às pós-verdades se seguiram os delírios das inverdades e das alucinações num Mundo que parece ter perdido todas as suas referências.

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