Em lugar da divisão e do confronto, uma Política “para e com o povo”, por Arnaldo Cardoso

Para lançar luzes sobre esse confronto entre política, religião e justiça instalado no Brasil, sob o atual governo, relembro as sábias reflexões do Papa Francisco

Em lugar da divisão e do confronto, uma Política “para e com o povo”

por Arnaldo Cardoso

Continua produzindo barulho a recente sabatina e aprovação no Senado do advogado André Mendonça, o candidato “terrivelmente evangélico” indicado por Bolsonaro para o cargo de juiz do Superior Tribunal Federal. Este foi mais um episódio de inflamado e nutrido confronto entre política, religião e justiça; inflamado e nutrido pois, é possível avaliar que é intencional que assim se configure, a exemplo da condução de outras sérias questões nacionais pelo atual governo, que se alimenta de controvérsias, confrontos e produção de ódios.

Uma nociva combinação de ignorância, incompetência, irresponsabilidade, desonestidade e doses elevadas de indiferença com o sofrimento alheio, tem contaminado áreas cruciais para o desenvolvimento da sociedade brasileira como a educação, a cultura, a economia, e tantas outras, inibindo ou impedindo a atuação de atores sociais, individuais ou coletivos, dispostos e capacitados a desatar nós e promover a superação de barreiras estruturais de nossa sociedade.

Para lançar luzes sobre esse confronto entre política, religião e justiça instalado no Brasil, sob o atual governo, relembro as sábias reflexões do Papa Francisco, expostas em sua participação em abril passado na conferência internacional “A Politics Rooted in the People” [Uma política arraigada no povo], realizada em Londres e organizada pelo Centre for Theology and the Community, abordando temas tratados pelo Papa em seu livro de 2020 “Sonhemos juntos” (Ritorniamo a sognare. La strada verso un futuro migliore).

Consciente e preocupado com as  consequências da pandemia do coronavírus especialmente sobre os mais vulneráveis, o Papa Francisco exaltou a importância do diálogo em lugar do confronto e das falsas oposições; exortou a política com “P” maiúsculo a trabalhar “para e com o povo”; criticou a atual fase da economia de mercado capitalista que colocou o consumo no centro e passou a desprezar os significados do trabalho. Também alertou sobre os perigos da crescente desigualdade social que levanta muros entre ricos e pobres e criticou uma “teologia da prosperidade” que se afasta dos verdadeiros valores do cristianismo.

Preocupado com os processos de exclusão social o Papa salientou que “quando as pessoas são descartadas ficam privadas não só do bem-estar material, mas também da dignidade de agir, de ser protagonistas de sua história, de seu destino, de se expressar com seus valores e cultura, de sua criatividade, de sua fecundidade”.

Retomando o que expressou em seu livro o Papa pediu “que todas as dioceses do mundo tenham uma colaboração sustentada com os movimentos populares” porque “ir ao encontro de Cristo ferido e ressuscitado nas comunidades mais pobres nos permite recuperar o nosso vigor missionário, porque assim nasceu a Igreja, na periferia da Cruz”. E sentenciou que “se a Igreja não se interessa pelos pobres, deixa de ser Igreja de Jesus e revive as velhas tentações de se tornar elite moral”.

Ainda sobre as instituições religiosas, o Papa ressaltou que “o papel dessas instituições não é impor nada, mas caminhar com o povo, lembrando-o do rosto de Deus que sempre nos precede” e complementou “o verdadeiro pastor de um povo, pastor religioso, é aquele que tem a coragem de caminhar à frente, no meio e atrás do povo. Na frente, para mostrar um pouco o caminho, no meio para sentir com o seu povo e não se enganar, e atrás para amparar os mais necessitados”.

Antes de concluir sua participação na referida conferência, o Papa saudou a Campanha Católica para o Desenvolvimento Humano, que comemora 50 anos de ajuda às comunidades mais pobres dos Estados Unidos, promovendo sua participação nas decisões que as afetam. Lembrou também organizações que atuam nessa direção no Reino Unido, Alemanha e outros países, apoiando os pobres na sua luta por “Terra, teto e trabalho”.

Afirmando diversas vezes a necessidade do respeito e diálogo entre as religiões e o sincero reconhecimento da importância da espiritualidade na vida dos povos, o Papa, que já deu mostras em seu papado de sua disposição em romper muros e dialogar com outras tradições religiosas, fez referências a líderes religiosos como o Imam Ahmad Al-Tayyeb, chamado de irmão.

Por suas ideias e ações o Papa Francisco dá mostras de como uma liderança se faz legítima e da importância disso em um mundo tão esvaziado de lideranças com propósitos legítimos.

A exortação do Papa é pela construção do futuro através de uma política enraizada nas pessoas e revitalizadora da esperança. Oxalá possa vencer os desígnios sombrios daqueles que, desvirtuando a força da fé, semeiam ódio e escuridão e se alimentam de falsos confrontos.

* A referida mensagem do Papa Francisco pode ser ouvida em: https://www.youtube.com/watch?v=xBKvbeId68U

Arnaldo Cardoso, sociólogo e cientista político formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, é escritor e professor universitário.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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