Entre os grandiosos César e Pompeu, um pequenino mito brasileiro, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Comparar Bolsonaro a César é um abuso. Mas compará-lo a Pompeu não é. Ao que parece ambos terão o mesmo destino. Derrota, fuga e decapitação. No caso de Bolsonaro a decapitação será apenas metafórica, é claro.

Entre os grandiosos César e Pompeu, um pequenino mito brasileiro

por Fábio de Oliveira Ribeiro

No vídeo em que comentou a convocação de manifestações contra o Parlamento, o jornalista Luis Nassif disse que Jair Bolsonaro atravessou o Rubicão. A referência à Júlio César e ao início da guerra civil romana parece ser pertinente. Entretanto, do ponto de vista histórico é possível ver as coisas de outra maneira.

Comparar Bolsonaro a César me parece inadequado. Após uma bem-sucedida carreira religiosa e política, César se tornou um general vitorioso nos campos de batalha durante a Guerra da Gália, Guerra da Espanha e Guerra Civil. O brasileiro foi expulso do Exército e virtude de ser preguiçoso, incompetente, indisciplinado, medroso, desonesto e meio amalucado. Após ficar cochilando durante duas décadas no Parlamento, Bolsonaro se tornou presidente espalhando Fake News e aproveitando a crise política iniciada por Aécio Neves.

Além de suas habilidades políticas e militares, Júlio César foi um grande escritor. Os três livros que ele nos deixou (A Guerra Civil, Comentários sobre a guerra gálica e A Guerra na Hispânia, o último parcialmente atribuído a Aulo Hircio) são interessantes, bem escritos e contém observações importantes sobre os povos com os quais os romanos entraram em contato. Bolsonaro só consegue escrever bobagens no Twitter e não raro comete erros de pontuação e de concordância.

Conquanto tenha realmente atravessado o Rubicão e cometido o sacrilégio de entrar com suas tropas em Roma, o conquistador da Gália pode não ter agido de maneira inadequada. Mas para julgar melhor os fatos é preciso voltar um pouco no tempo.

Leia também:  Por quem as panelas batem, por Cleiton Leite Coutinho

César enviou ao Senado romano uma carta na qual propunha a renúncia dele e de Pompeu, com a desmobilização das tropas de ambos. Ele estava distante de Roma. Pompeu estava acampado perto da cidade. A leitura da carta de César no Senado foi bastante tumultuada.

“Enche-se a Cidade e o próprio comício de tribunos, de centuriões e de reincorporados. Os amigos todos dos cônsules, os apaniguados de Pompeu e os que nutriam velhos ressentimentos com César são atulhados no Senado; com seus gritos e aglomeração aterrorizam os mais fracos, os indecisos recobram o ânimo, e à maioria se tira a capacidade de livre decisão.” (Bellum Civile – A Guerra Civil, Caio Júlio César, tradução Antônio da Silveira Mendonça, Estação Liberdade, São Paulo, 1999, p. 41/43)

Peço ao leitor prestar especial atenção ao fragmento em negrito, cuja versão original em latim tem a seguinte redação “…quorum uocibus est concursu terrentur infirmiores, dubii confirmantur, plerisque uero libere decernendi potestas eripitur.” (Bellum Civile – A Guerra Civil, Caio Júlio César, tradução Antônio da Silveira Mendonça, Estação Liberdade, São Paulo, 1999, p. 42).

Júlio César tentou apaziguar aos ânimos. Ele respeitou a autonomia dos senadores para decidir uma questão política e militar que era relevante para o futuro dele, de Pompeu e de Roma. Quem mobilizou milícias, aterrorizou o Senado, forçou uma decisão desfavorável ao adversário, coagiu os indecisos e impediu a maioria de decidir de maneira livre foi Pompeu. Portanto, o verdadeiro artífice da queda da república romana pode não ter sido César e sim o adversário dele.

Ao atravessar o Rubicão, César realmente parece ter dado início à guerra civil. Mas ninguém em sã consciência pode deixar de admitir a hipótese de que ele estava apenas reagindo contra a decisão injusta tomada por um Senado que havia sido privado de sua autonomia.

Leia também:  TV GGN: quais são as medidas jurídicas e humanitárias do caso Bolsonaro?

Quem nesse momento está “…com seus gritos e aglomeração aterrorizam os mais fracos, os indecisos recobram o ânimo, e à maioria se tira a capacidade de livre decisão”? Os líderes da oposição ou Jair Bolsonaro?

Nenhum líder oposicionista tentou fechar o Parlamento ou cassar o direito do STF de proferir decisões com autonomia. Quem quer atropelar as instituições, coagir o Legislativo e obrigar a maioria dos ministros do STF a aceitar a legitimidade de toda e qualquer proposta inconstitucional, decisão criminosa ou decreto ilegal proferido pelo governo é Bolsonaro. Foi ele que convocou suas milícias políticas para atacar dois poderes da República com a finalidade de suprimir-lhes a autonomia garantida pela Constituição Cidadã.

Comparar Bolsonaro a César é um abuso. Mas compará-lo a Pompeu não é. Ao que parece ambos terão o mesmo destino. Derrota, fuga e decapitação. No caso de Bolsonaro a decapitação será apenas metafórica, é claro.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora