Esporte e Política em ano de Copa do Mundo, por Walace Ferreira

Esporte e Política em ano de Copa do Mundo, por Walace Ferreira

Em ano de Copa do Mundo, temos boa razão para refletir sobre a antiga, e muitas vezes efervescente, relação entre esporte e política. Em 2013 o presidente russo Vladimir Putin assinou decreto impedindo protestos durante as olimpíadas de inverno de Sochi de 2014, resultado de uma onda de manifestações que aconteciam na ex-potência soviética e que encontravam apoiadores no mundo em decorrência da legislação homofóbica aprovada à época pelo governo.

Apesar de Putin ter sido reeleito recentemente com 77% dos votos, nada garante que manifestações em solo russo não voltem a acontecer, até porque elas já estão nas ruas. As causas são muitas: a concentração do poder nas mãos do ex-agente da KGB desde 2000, o que faz dele o líder há mais tempo depois de Stalin; a insatisfação da juventude com a política falso-democrática do país; a corrupção dos agentes estatais; o tradicionalismo machista e preconceituoso legalizado; a vigilância e a repressão às oposições do governo; a infraestrutura provavelmente inacabada até a Copa.

Mobilizações por razões sociais e políticas vinculadas a eventos esportivos não são raros, e conhecemos isso de perto. Em 2013, durante a Copa das Confederações, presenciamos inúmeras manifestações em estádios brasileiros, e em seu entorno, no que se seguiu a uma ebulição que marcava as cidades brasileiras em tom supostamente apartidário e em busca por ilusórios avanços sociais. Em 2014, na fatídica Copa no Brasil em termos de desempenho da seleção canarinha, mais protestos dentro e fora dos gramados. As vaias à então presidente Dilma Rousseff na abertura do evento no superfaturado estádio do Corinthians não pouparam sequer o ex-chefão da Fifa Joseph Blatter e mostraram uma vez mais a insatisfação de parte da sociedade com os rumos políticos do país.

Protestos também ocorreram dentro e fora das arenas esportivas em 2016 em atos contra o até hoje presidente Michel Temer, no entanto sem o mesmo sucesso e propulsão daqueles ocorridos contra sua antecessora vítima de impeachment. Cartazes com escritos “Fora Temer”, inclusive, foram reprimidos pelas forças de segurança dos Jogos. A força e a mobilização popular já não foram mais as mesmas como se a energia na revolta contra a corrupção e os problemas brasileiros tivessem sido resolvidos com a saída do PT do Planalto.

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No entanto, há uma questão de inquietude quando se observa a relação da política junto ao universo esportivo, a que diz respeito ao papel dos atletas.

Rememorando a história brasileira ao contexto de ditadura, o esporte, em particular o futebol, foi muito bem utilizado pelo regime como promoção da identidade nacional desejada e manipulada pelos militares. Que o digam o gigantesco campeonato brasileiro repleto de times sem nenhuma competitividade, mas que suporiam a unidade através do futebol, e o vislumbre do regime diante da conquista da Copa de 70, numa pseudo constatação de que tudo no Brasil ia bem em tempos de milagre econômico, tremenda desigualdade social e violento governo Médici.

Durante a ditadura, atletas foram vigiados e tiveram suas ações monitoradas pela inteligência, atenta a qualquer ação considerada subversiva. Sócrates, Casagrande e Wladimir, ídolos do Corinthians nos anos 80, foram observados e fichados pelo Departamento de Ordem e Política Social (Dops), mas não hesitaram na coragem mobilizadora. Os jogadores foram líderes do movimento conhecido como “Democracia Corintiana” segundo o qual os esportistas incidiam em decisões democráticas em torno da gestão do clube, algo simbolicamente um atentado contra o autoritarismo vigente no país.

Atletas de alto rendimento e de esportes de massa sempre tiveram visibilidade social e capacidade formadora de opinião. Ainda na ditadura, caso emblemático foi o de Reinaldo, inesquecível goleador do Atlético-MG, e que comemorava seus inúmeros gols com o punho cerrado e levantado, um símbolo socialista. Ao repetir o gesto após um gol pela seleção na Copa de 1978, na Argentina, fez mais um jogo e foi sacado do time pela Confederação Brasileira de Desportos. Geisel já havia lhe aconselhado pessoalmente para que o craque cuidasse apenas de futebol. Depois de aposentado, Reinaldo lembra de suas ações sem arrependimento e como uma frente de luta ao regime realizada a partir do esporte.

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Nos Estados Unidos, país de sérios problemas sociais e de conhecidos movimentos civis, atletas de renome costumam usar seu prestígio para se posicionar politicamente. Ano passado, após convite da Casa Branca para que o time campeão de NBA, o Golden State Warriors, visitasse a residência oficial do governo norte-americano, o craque Stephen Curry respondeu negativa e publicamente em razão de não concordar com o presidente Donald Trump. Após a retirada do convite pelo presidente, ganhou apoio do craque do time vice-campeão, LeBron James, do Cleveland Cavaliers, para quem visitar a Casa Branca deixara de ser uma honra com a chegada de Trump ao poder.  

Precisamos salientar, contudo, que por aqui a mobilização de atletas e ex-atletas em torno de assuntos sociais e políticos ainda é pequeno. O jornalista Juca Kfouri publicou recentemente um livro de memórias sobre sua experiência no jornalismo esportivo desde a década de 1970, no qual revela um desencanto com a omissão de atletas diante de questões políticas e esportivas do país.

As denúncias dos últimos anos envolvendo a CBF e outras confederações esportivas revelam como os problemas nunca foram poucos. Mesmo em ano de Copa do Mundo, com grande visibilidade da seleção, não presenciamos nenhum jogador manifestar-se a respeito da terrível crise que marca a gestão do nosso futebol, quiçá da nossa conjuntura política, o que corrobora a percepção criticada por Kfouri. Essa realidade precisa mudar para que tenhamos a evolução do esporte brasileiro, gestões mais democráticas e eficientes, e que seus atores sejam mais conscientes em termos sociais e políticos.

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 Mas é verdade que nem todos se calam. Foi assim com o goleiro Aranha, que denunciou os gestos e gritos de racismo sofrido por parte da torcida do Grêmio, em 2004, durante um jogo em Porto Alegre quando atuava pelo Santos. O time gaúcho acabou excluído da competição e o caso teve enorme repercussão, inclusive com indiciações por injúria racial. A infelicidade daquela situação foi a posterior declaração de Pelé minimizando o acontecido e argumentando que existirá mais racismo quanto mais se falar no tema.

Outras temáticas de grande relevância social têm sido destacadas por atletas de diversos esportes. Recentemente tivemos a denúncia de pedofilia na ginástica brasileira, o que fez com que o assunto fosse tratado não somente na especificidade do caso, mas pudesse ser debatido como um problema amplo e que deve ser denunciado sempre que ocorrer em qualquer espaço social e esportivo.

A realidade de hoje é bem mais turbulenta social, econômica e politicamente que aquela geradora das mobilizações iniciadas em 2013 no Brasil. No entanto, as vozes infelizmente parecem silenciadas quando comparadas àqueles de tempos recentes e também àquelas ativas em solo russo diante da Copa do leste europeu. Democracia, no entanto, precisa ser constante e o esporte é um ótimo campo para sua atuação. Em tempos de megaeventos e fora deles principalmente.

 

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