Fase emergencial: é proibido, mas se quiser pode (até porque os governos não dão alternativas), por Daniel Gorte-Dalmoro

Deixo de lado a questão do quão essa entrada na fase verde - ao menos sua duração - foi eleitoreira

Foto de paralela da 25 de Março, no dia 17

Fase emergencial: é proibido, mas se quiser pode (até porque os governos não dão alternativas)

por Daniel Gorte-Dalmoro

Há um meme na internet, foto de uma placa que remete a bailão do interior, em que diz: “É proibido dançar agarrado. Mas se quiser pode”. A fase emergencial na capital paulistana, com várias e rígidas restrições, parece esse aviso: é proibido, mas se quiser pode. No trajeto para o trabalho, oito da manhã, várias pessoas nas ruas, o habitual fluxo de ida para o trabalho, com as bancadas de café da manhã imantando trabalhadores de diversos setores. Na Sé, a prefeitura se esmera na limpeza da rua com um caminhão pipa – e azar de quem está dormindo sobre o asfalto ainda frio. Aparentemente, tudo normal. Na volta, meio da tarde, é que se percebe pequenas mudanças, entre elas o “se quiser, pode”. 

Na 25 de Março, os vendedores estão nas ruas, anunciando cabelos, tênis, camisas de times, acessórios para celulares, armação para óculos e outros artigos do gênero (achei exótico um que oferecia “cigarro, remédio, eletrônico”). As lojas estão com as portas fechadas, mas basta bater nela que você está autorizado a comprar algum dos bens de primeira necessidade citados acima; há também a opção delivery pelo WhatsApp: você chama no número e eles abrem para sua você entrar escolher o que vai ser entregue após pagar a conta. Afinal, o que é a vida se não for para consumir, mesmo que produtos falsificados, numa vã esperança de que sua vida se pareça com as peças publicitárias que vendem uma felicidade irreal? 

Nas periferias – extremo leste e sul, que foi onde circulei -, algumas lojas maiores estão fechadas, mas o pequeno e médio comércio seguem normais. O motorista critica que pobre não respeito as leis, eu tento dar uma suavizada nessa moral simplória de certo e errado sem atentar para qualquer nuance: a situação é complicada: sem um auxílio emergencial que faça minimamente frente aos gastos habituais, os trabalhadores ou trabalham ou morrem de fome (esses R$ 250,00, conseguido às custas do salário futuro de médicos do SUS, professores, policiais e outros funcionários públicos, é um arremedo que soaria como escárnio não estivéssemos em situação calamitosa); donos de pequenos negócios – no fundo proletários iludidos que são proprietários de algo –  sem apoio governamental correm o risco iminente de falir; os grandes capitalistas e seus asseclas, esses se opõem a medidas restritivas por união carnal do capital com o sofrimento, que tem a morte, a escravidão e a miséria como seus frutos mais abundantes – nada de novo na essência, apenas explicitado sem verniz ideológico. 

O que notei de mudança grande diante do meu trajeto de duas semanas atrás foi o tanto de pessoas usando máscara: até parece que estamos numa pandemia!

Esse fato me chamou a atenção e me fez pensar muito sobre: de onde teriam as pessoas voltado a perceber que a pandemia está grave – ou melhor, que há uma pandemia -, se há mais de um mês essa bola é cantada por gente séria, com estados então beirando o colapso e Manaus dando um trailer do inferno que nos espera? Dez dias atrás, no centro de São Paulo, reparei que máscara tinha virado pulseira, que se punha no rosto na hora de entrar no transporte público, alguns ainda ostentavam o nariz pra fora, para mostrar que não são maricas ou medrosas; tanto que faz umas semanas que, tendo notado a esbórnia geral, tratei de me conformar a pagar caro em máscaras hospitalares PFF2, já que ficar em casa não me era permitido, e apesar de saudade enorme de uma sala de teatro (já autorizadas pelo protocolo do governo – pretensamente atento à ciência – de São Paulo), preferi me resguardar todo tempo no qual não sou obrigado a sair. Terá sido passar 2.500 mortes diárias, porque até 2.499 não surtia efeito? Não me parece o caso.

Sei que é fácil fazer previsão de fatos consumados, mas me parece que, para além do mau exemplo dado pelo prefeito e governador (o presidente é desnecessário dizer), houve uma falha grave na hora de estabelecer as fases de abertura dos setores da economia. Não que não se possa dizer que não havia como prever: a forma como foi estruturada essa abertura gradual poderia ter se utilizado como uma das referências as pesquisas sobre rotulagem de alimentos ultraprocessados: as versões coloridas e nuançadas não tem o mesmo efeito das que imprimem um triângulo de alerta para alimentos com alto teor de açúcar, sódio e gorduras (pouco importa se esse alto é excessivamente alto, muito alto ou apenas alto, se é alto é alto. O site O Joio e o Trigo tem acompanhado com ótimas reportagens o assunto: http://bit.ly/JoioRotulagem). O mesmo dá para imaginar que se passou com as fases de abertura da economia: ao propôr quatro fases antes da volta à normalidade, e ter em novembro admitido que se chegara à verde – a quarta e última com restrições -, o recado passado foi: relaxa que a coisa já se encaminhou pro final. As amigas da minha então companheira, por exemplo, cansadas do isolamento e se sentindo autorizadas pelas autoridades, aproveitaram novembro para ir para a praia: máscara no caminho, mas chegando lá, área aberta e fase verde, para quê seguir com ela? O sinal verde é sinal de avançar – a pandemia está ficando para trás.

Deixo de lado a questão do quão essa entrada na fase verde – ao menos sua duração – foi eleitoreira, o ponto é: numa pandemia, ainda sem vacina e sem tratamento efetivo para a doença, não se pode dar a impressão de que o pior já passou e é questão de tempo de tudo se normalizar. Não se tratava de manter restrições rígidas, pois há de fato um esgotamento da situação de confinamento (dos que puderam ficar isolados), mas ao se estabelecer as etapas de abertura, deviam ter pensado nos seus efeitos psicológicos também, e decidido que as duas últimas antes da normalidade só poderiam ser alcançadas com total segurança: nem que para dar essa impressão se aumentasse de quatro para seis fases restritivas antes da normalidade, e não se passasse da quarta, que seguiria os parâmetros tal qual é hoje (que me parecem bastante lassos); haveria nesse caso sempre um aviso implícito de: ainda temos duas etapas antes de chegar à normalidade, então aproveita um pouco, mas não relaxa demais. Tenho a impressão de que foi esse o recado dado pelas restrições severas impostas atualmente, e por mais que as pessoas sigam saindo, por obrigações laborais ou fadiga de confinamento, o desdém com as máscaras voltou a ser minoritário.

Queria que esta fosse uma reflexão impotente, uma vez que, graças às vacinas, a pandemia estaria caminhando para seu fim. Infelizmente, a inoperância do governo federal não nos autoriza vislumbrar fim próximo para esta tormenta. Que ao menos consigamos passar pelos próximos momentos mas cientes do que devemos fazer – os que tiverem oportunidade de seguir vivos.17 de março de 2021
PS: vejo nas notícias que o governo do Estado, com um ano de atraso, toma algumas medidas para tentar evitar uma maior quebradeira de pequenas e médias empresas e minorar o sofrimento de trabalhadores. Não havia um economista sério na equipe de Doria Jr, capaz de prever isso logo no início da pandemia? Já o prefeito Bruno Covas, ao invés de decretar um lockdown, antecipa feriados. A ver como será este ano, mas em 2020 as pessoas levaram bem ao pé da letra essa antecipação de feriados: trataram de aproveitar o feriado: descer pra praia, ir para a parte não cercada do Ibirapuera, passear, curtir com a família. Novamente, ao recusar o lockdown, a mensagem que se passa é de que não é tão grave assim. São Paulo é governada por dois amadores incompetentes que se destacam apenas porque no governo federal temos um competente genocida que se regojiza com a morte.

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