Golpe não se dá quando se quer, só quando se pode, por Rogério Maestri

O que é um golpe mal sucedido, é um golpe em que um governante, um opositor a um governante, uma corporação militar ou mesmo forças populares tentam derrubar um governo e tudo não sai nem perto do que se deseja. 

Golpe não se dá quando se quer, só quando se pode

por Rogério Maestri

Se golpes de estado dependesse da vontade dos governantes a cada dois ou três governos ditos democráticos teríamos um golpe, porém a história de golpes fracassados de direita, centro e esquerda é povoada na proporção de quase 1 para 100 de golpes bem e mal sucedidos.

O que é um golpe mal sucedido, é um golpe em que um governante, um opositor a um governante, uma corporação militar ou mesmo forças populares tentam derrubar um governo e tudo não sai nem perto do que se deseja.

O golpe contra Dilma é um exemplo disso, como disse a golpeada, não restará pedra sobre pedra, e aos poucos a sua previsão vem se confirmando. Primeiro o grupo principal que deu o golpe não ficou com o poder, os militares que o apoiaram estão sofrendo um desgaste que no golpe anterior tiveram em somente quase duas décadas, quem assume o governo é uma criatura que não estava no script, ou seja, o golpe foi exitoso em parte mas sua estabilidade ainda é duvidosa.

Se considerarmos o período entre a independência do Brasil e 1964ª quantidade de golpes que levaram diversos nomes, desde revoluções até quarteladas a nossa história terá mais do que algumas dezenas de golpes sem sucesso, sendo nesse período os únicos golpes que foram definitivos (república) ou perduraram por algum tempo a revolução de 30 com as suas mudanças de status são um número muito pequeno em relação as tentativas.

Pode-se perguntar o porquê golpes com sucesso são tão difíceis, simplesmente porque há o processo de tendências na correlação de forças que causam o insucesso desses golpes. Quando um governo encontra-se forte com uma correlação de forças positiva na sua direção não há motivo de auto-golpes e golpes contra esse governo são facilmente debelados e algo mais importante que Getúlio Vargas nos ensinou com maestria, essa correlação de forças tem que ser real e não aparente. Por exemplo, a correlação de forças contra Getúlio Vargas pouco antes de sua morte aparentemente lhe era desfavorável, com o seu suicídio forças telúricas surgiram que fizeram todos os seus opositores fugirem do país pois eles temiam por suas vidas, e com razão.

O último grande político brasileiro que entendeu o que é a dinâmica da correlação de forças foi Leonel de Moura Brizola em 1961 quando os militares tentaram impedir a posse do vice-presidente, ele com um microfone de rádio na mão, montou a cadeia da Legalidade, levou consigo as forças do Terceiro Exército, da Brigada Militar do RGS e o mais importante centena de milhares de gaúchos e brasileiros que se aprontaram para enfrentar as forças armadas do resto do país. Como os militares não sabiam se soldados, cabos e sargentos os apoiariam eles aproveitando o oportunismo do congresso e a frouxidão de Jango deram um golpe parcial, a implantação do parlamentarismo, esse foi o 1904 ao inverso que permitiu o 1964. Nessa data, com um presidente que já revelara suas fraquezas e insegurança, e com um planejamento contando com o apoio de governadores dos estados e figuras tidas como exemplo de democratas, como Ulisses Guimarães, tramaram durante anos junto com os presidentes democratas dos estados unidos um golpe organizado com princípio meio e fim. Entretanto os golpistas da parte militar fizeram cuidadosamente as contas com quantas tropas contavam e mesmo assim tiveram que subornar generais que na última hora tiraram apoio da presidência da república.

Nos dias de hoje, quando uma epidemia mortal associada claramente ao desempenho patético de um alto oficial do exército brasileiro, que pode com as próximas semanas agravar em muito mais o número de mortos pela incúria e incompetência claramente mostrada pelo governo federal com seus ministros militares, levará sérias divisões nas forças armadas, pois um soldado, um suboficial ou um oficial ao ver seus amigos e parentes próximos falecerem devido a não só o vírus, mas também a morte por falta de uma logística básica de fornecimento de insumos básicos, ninguém na certa sabe com quem pode contar para golpear para perpetuar uma situação desastrosa.

Nem falei aqui na conjuntura internacional, que essa é completamente antagônica a que havia em 1964, pois o atual governo norte-americano está se preocupando mais com a sua segurança interna do que externa e não entraria de cheio numa aventura golpista.

Diria claramente a todos, um golpe saído de qualquer lugar, poderá num primeiro momento ser um sucesso, entretanto todas as possibilidades existem para que esse se torne num dos golpes com maior fracasso e com maiores repercussões negativas para os golpistas que ainda não se viu no Brasil, pois golpe não se dá quando se quer, só quando se pode.

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