Insensatez, por Wilson Ramos Filho (Xixo)

Restrinjo-me a observar que nos últimos 4 anos os cariocas elegeram Crivella, Witzel, dois senadores de extrema-direita, além dos Bolsonaros e Rodrigo Maia.

Insensatez

por Wilson Ramos Filho (Xixo)

Vai, meu coração, ouve a razão, usa só sinceridade, cantou Tom Jobim.

Os cariocas, para mim, são um enigma. Elegeram Brizola ao final da ditadura, têm algumas das melhores universidades. A elite intelectual do país habita sua zona sul. Na música, no teatro, nas artes plásticas, na fotografia, em todas as manifestações artísticas, é no Rio de Janeiro onde tudo acontece. Em outras grandes capitais também, mas é inegável que no campo da cultura o Rio desponta. Todavia, nos últimos anos, os cariocas demonstraram uma estranha capacidade de escolher o que há de pior nas eleições. Não vou nem mencionar Roberto Jefferson, Cabral, Garotinho, Babá, para não acertar a canela de ninguém. Restrinjo-me a observar que nos últimos 4 anos os cariocas elegeram Crivella, Witzel, dois senadores de extrema-direita, além dos Bolsonaros e Rodrigo Maia.

Agora, nessas eleições municipais, pelo que vejo nas redes sociais, parte da elite cultural do país que vive do lado de lá dos túneis Santa Bárbara e Rebouças, ou em Santa Tereza, Laranjeiras e Tijuca, nos surpreende com declarações de voto na Delegada Martha, lavajatista militante, para impedir um segundo turno entre Paes, do DEM, e Benedita da PT. Optam pelo voto inútil com a desculpa do voto útil. Para tirar o Crivella, justificam. Não aprendeu nada, coração tão desalmado?

Nas eleições passadas, na última semana de campanha, muitos deles abandonaram a campanha da comunista Jandira, a melhor candidata, e votaram no Freixo, para assegurar uma candidatura de esquerda contra o obscurantismo no segundo turno. Agora, de modo insensato e contraditório, parte da intelectualidade promete migrar para a campanha da lavajatista, rifando a candidata do PT, a mais bem colocada nas pesquisas no campo da esquerda. Defendem o voto inútil sob o esfarrapado argumento cirista de que ela seria a única que venceria o Paes, do DEM, no segundo turno. Não entendo os cariocas em geral, mas me incomodo bastante com certa parcela de sua elite cultural que se utiliza de tais argumentos. Forasteiro, a mim me parece que o veto à Benedita beira inconfessáveis preconceitos, incompatíveis com o ethos da esquerda.

Nas artes e na cultura, depois do Rio, a cidade de São Paulo também se destaca. Os intelectuais paulistanos, de origem ou por adoção, foram fundamentais para a eleição de Erundina, da Marta e do Haddad e para as exitosas gestões petistas na capital de um estado dominado pelos tucanos. Na periferia, nas classes exploradas, a memória do legado destas gestões petistas tem um peso considerável. O crescimento da candidatura de Tatto se deu exatamente sobre o eleitorado pobre que no começo da campanha se inclinava pelo voto em Russomanno, então favorito. A candidatura do PT tirou votos do candidato da extrema-direita beneficiando Boulos, o candidato preferido da elite intelectual.

Tenho reiterado que o povo consciente não é gado. Decide segundo sua percepção. Nesta semana haverá migração de votos para a candidatura de esquerda melhor posicionada para enfrentar o tucano Covas no segundo turno. Essa migração independe da orientação das cúpulas partidárias ou dos desejos da elite cultural. A esquerda estará unida no segundo turno. Entretanto, de modo insensato, assistimos um cretino movimento de parte dos intelectuais na defesa, cirista, do voto em França, ao argumento de que a candidatura dele (como a da pedetista do Rio) seria a única capaz de derrotar a direita que se articulará em torno a Covas. Novamente pregam o voto inútil alegando voto útil. Russomanno já está fora. Seria insensato alguém de esquerda turbinar a candidatura do França para prejudicar Boulos e Tatto.

A insensatez se revela de modo agudo quando se constata que a delegada lavajatista carioca não apoiará Benedita no segundo turno. Se não for para Paris, acabará apoiando Paes. Do mesmo modo, se o França não passar ao segundo turno, caso não viaje com a delegada Martha Rocha, acabará apoiando Covas contra Boulos. Negar tal evidência seria insensatez.

Nas duas maiores cidades do país, onde a cultura e a intelectualidade brilham, pelo que apontam as pesquisas de opinião, teremos segundo turno entre a esquerda e a direita tradicional. Os candidatos bolsonaristas ficarão fora da disputa, no Rio e em São Paulo.

Em Curitiba a questão é menos complexa. O atual prefeito, Greca, representa a direita tradicional. Se houver segundo turno será com Francischini, um sujeito repugnante de extrema-direita. As esquerdas, a contragosto, não tiveram tempo de construir uma candidatura unitária. Nem Goura, nem Camila, nem Opuszka se destacaram nas pesquisas eleitorais. Fazem campanhas bonitas, sem escaramuças fratricidas. Seria insensato torcer por um segundo turno entre a direita e a extrema-direita, meu coração ouve a razão, usa só sinceridade. Houvesse segundo turno, o bolsonarista no mínimo dobraria a votação obtida no primeiro. Melhor vê-lo derrotado, fiasco eleitoral, desde logo na capital da LavaJato. A esquerda não teria nada a ganhar em um eventual segundo turno. Não teria em quem votar.

Sendo verdadeira essa premissa, ouço a razão, revela-se insensato o voto petista em Goura. Seria um voto inútil. Ainda que toda a esquerda votasse nele, se verdadeiras as pesquisas, ainda assim não iríamos para o segundo turno. Como estão as coisas o mais sensato é o voto no partido do coração, coração mais sem cuidado, versejou Vinícius para Jobim. Quem se identificar com o PT, diz a razão, deve votar no Paulo Opuszka, quem prefere o PCdoB vota na Camila, quem é cirista ou quem se sensibiliza com as pautas dele votará no Goura. Sem medo de ser feliz.

A maneira bolsonara de existir em sociedade é a inimiga a ser combatida e derrotada. Os eleitores de esquerda, sensatos, saberão como votar para enfrentar os bolsonaristas e não se deixarão envolver pelo que desejam os intelectuais, as elites culturais e os meios de comunicação, sejam quais forem, mais recônditas ou mais explícitas, as motivações psicanalíticas de tais desejos. O único voto útil é o que coincide com a consciência de cada um. O resto é ingenuidade, hipocrisia ou dissimulação.

Wilson Ramos Filho (Xixo), doutor em direito, presidente do Instituto Defesa da Classe Trabalhadora.

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3 comentários

  1. Aqui no rj a delegada não engana ninguem. São fortes as semelhanças com o witzel, que apareceu do nada e acabou se revelando um nada. Não creio restar dúvidas que caso vitoriosa ( a delegada) seria aquela coisa de pm chefiando aqui, policial mandando ali, arma na mão de guardas despreparados, etc. Não rola!
    No RJ, além das milicias (especificidade carioca), a postura de gado assumida por seguidores de seitas evangélicas (doença nacional) interfere negativamente no pleito. Contudo, é imbatível a burrice das esquerdas que na busca de protagonismo partidário se negam a adotar uma candidatura e agenda integradas.

  2. Sr. Xixo: seu “imperativo categórico” é de que o bolsonarismo é o inimigo a ser combatido e derrotado.
    Então, por que não Boulos para derrotar Russomano, e Marta Rocha para derrotar Crivela ?
    Quando o candidato é do PT, trata-se de voto útil. Quando o candidato não é do PT, então o voto é inútil ?

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