Instrospectar para não morrer ou matar, por Matê da Luz

Instrospectar para não morrer ou matar

por Matê da Luz

Tem um grande amigo meu que disse estes dias sobre os tempos difíceis que a gente tem vivido: “essas leis que aprovam a cura gay, essas invasões nos terreiros, esse grande Brasil evangelizado que tem se apresentado acontece, na verdade, pra nos distrair – isso porquê os bandidos políticos não têm mais como fugir ou como esconder suas maracutaias e, então, ficam causando grandes movimentações midiáticas pra sairem de cena”. Num primeiro momento eu, que estava aos prantos com essa história de autorização de tratamento psicológico para os gays pelo simples fato de não ter nem mais energia pro diálogo, que dirá pra investir em demolição de preconceito, respira, pega fôlego e segue o parágrafo, bem, num primeiro momento eu achei que ele estava exagerando. 

Daí encontrei este texto sobre os exageros permitidos, escrito pelo Igor Fuser, professor de Relações Internacionais da UFABC, que me fez refletir ainda mais um tantico: 

Sobre a esquerda e as tais “identidades”

Outro dia, numa palestra que eu dei sobre a política na Venezuela, na hora das perguntas, umas das pessoas presentes, uma mulher negra, me disse algo assim: “Vc falou que a direita na Venezuela desvia produtos para o mercado negro. Não dizia usar essa expressão racista. Deveria procurar alguma outra expressão em lugar dessa.”

Fiquei surpreso, mas não reagi. OK. De agora em diante não falarei mais em “mercado negro”. Falarei em mercado paralelo, clandestino, ilegal, sei lá… Farei isso do mesmo modo que, há muito tempo, depois de ser interpelado de modo similar quando estava na mesa de outro debate, não me refiro mais à ditadura militar como “um período negro” na história brasileira. Falo em tempos tenebrosos, sombrios…

Hoje, não sei por que, esse assunto voltou à minha cabeça.

Pensando bem, eles e elas têm toda razão. Tudo aquilo que a minha mente racional, cartesiana, ocidental, branca, intelectual, marxista, repleta de ensinamentos sobre tática & estratégica, tende a achar que são excessos e exageros dos grupos e segmentos e coletivos em busca de afirmação da própria identidade e da correção de velha injustiças, na realidade…. eles e elas têm toda razão.

Puta que pariu! O bisavô ou tataravô daquela pessoa que me interpelou num debate foi torturado no pelourinho, ele próprio ou seu pai ou avô ou avó ou bisavó sobreviveu a um navio negreiro, ele ou outros iguais instalaram na rua os paralelepídedos das ruas que nós hoje pisamos, debaixo de chicote, debaixo da negação da própria condição humana construíram cada alicerce dessa porra desse país onde vivemos e que, bem ou mal, me permitem estar bebendo uma vodca importada deliciosa enquanto escrevo estas linhas, e essa pessoa, e muitos outros e outras iguais a ela, sobreviveram, se instruíram, se empoderaram, e tiveram descendentes mais fortes e instruídos e articulados intelectualmente, apesar de tudo, apesar de todo o peso, o carma se quiserem, apesar dos condicionantes estruturais e hereditários do que foi todo o horror da escravidão dos avós e dos bisavós, o peso da senzala, o peso da favela, da falta de grana, o peso do desprezo, de ser raça ruim, cabelo ruim, inferiores, desprezados, humilhados, espezinhados de todo o jeito possível e imaginável e inimaginável, e hoje os descendentes e descendentas daqueles africanos escravizados estão aí, nas universidades, no debate político, polemizando em pé de igualdade com quem aparece pela frente…

Quem sou, um branco descendente de italianos bem de vida, para dizer o que quer que seja? Estou com eles e elas, é isso aí.

O milagre é que eles estão aí, os subalternos estão falando, têm voz, não precisam ser representados por outros bem ou mal intencionados.

Se têm aí uns tantos supostos exageros, ou não, foda-se. Isso será resolvido no processo histórico, se é que tem alguma relevância.

Se tem exageros no feminismo? No feminismo radical? Foda-se, com o perdão pelo termo em vias de se tornar inadequado, politicamente incorreto. Não sou mulher nem nunca fui, ao contrário da letra da linda canção do Chico César, mas, PQP! Milênios de opressão, subjugadas de todas as formas, ainda hoje submetidas a todo tipo de situações negativas, injustas, ofensivas, degradantes, discriminatórias….

Se tem algum exagero… faz parte! Faz parte do processo de emancipação, de libertação. Ninguém se liberta com equilíbrio, com plena e perfeita elegância. É na porrada. Na raça (no pleno sentido da palavra), e vai sobrar mesmo pra todo mundo. Equilíbrio é o cacete! Às favas a racionalidade política, a tática e a estratégia.

O mesmo pode ser dizer do gays, lésbicas, transgêneros… Gerações e gerações de pessoas que cresceram e existiram na ignomínia, como pervertidos, degenerados, viados, sapatões, vergonha da humanidade… E agora percebem que não é nada disso, se afirmam, empoderam, se assumem, despertam e lutam. Pro inferno o equilíbrio, o bom gosto, a elegância, as boas maneiras na política e na boa educação.

Aqueles que, como eu, não se incluem em nenhum desses enormes coletivos humanos historicamente oprimidos, aqueles que, com plena razão, continuamos a interpretar a vida social a partir da existência inexorável das classes e da luta de classes, aqueles que sabem que no fundo de todas as opressões contemporâneas está o capitalismo e que essas opressões só poderão ser superadas pela revolução, pelo socialismo, embora somente revolução e socialismo não bastem, aqueles nós, esses nós, temos que encontrar forma de entender, de apoiar, de nos solidarizar e marchar juntos com os que se rebelam contra essas opressões que não se subsumem à exploração capitalista, sem paternalismo nem ilusória superioridade, incorporar suas explosões mesmo que às vezes causem certa estranheza, e marchar juntos e juntos, lutar juntos, porque sem isso qualquer libertação, qualquer emancipação que não seja a emancipação geral e absoluta e efetiva de toda a humanidade, não será emancipação absolutamente nenhuma.

Li, reli, treli. Compartilhei por aqui, acolá. Dialoguei com alguns amigos psiquiatras e sociólogos e, porfim, a conclusão que cheguei é a de que sim, é preciso algum exagero pra que pelo menos o mínimo seja garantido – e no Brasil-hospício de hoje em dia, nem assim pra acontecer. Mas, ainda mais relevante e salvador do que isso é a necessidade de auto-avaliação, auto-transformação e auto-análise, para que a gente consiga imprimir no mundo as pequenas e mágicas evoluções que faz na gente mesmo

E se um texto deste não te impacta, volte dez casas e recomece a leitura, até impactar. 

Haja invisível pra tanta bagunça. 

Leia também:  Até quando os evangélicos vão se esconder na desculpa da Banda Podre, por Rogério Maestri

 

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2 comentários

  1. Ademais, as putas também são perseguidas.

    No texto do ótimo Igor Fuser, deixa-se escapar duas menções às putas como depreciativos. Então,  além de negros( as), homossexuais,  mulheres, etc., devemos nos desacostumar também com os qualificativos PQP,  FDP e quetais.  Tempos difíceis,  mas essa travessia é necessária. Lutar contra o Golpe é também lutar por construir uma nova cultura, ou seja, novas regras de convivência. 

  2. Tem que bater bumbo

    Acho que o combate pelo reconhecimento de direitos e igualdade de minorias e da mulher passa mesmo por conflitos e por toda essa situação tão esdruxula que estamos vivendo. A maioria branca e cristã sempre decidiu quais os parâmetros aceitaveis para a vida em sociedade. Parece-me melhor essa exarcebação do que aquele preconceito latente e escamoteado.

    Quando um jornalista, então editor em um grande jornal, como Ali Kamel escreve um livro afirmando que o racismo não existe no Brasil, é muito violento para com os negros e mestiços brasileiros e toda a historia brasileira assentada na exploração e escravagem negras. De repente estavamos confrontando novamente ideias negacionistas do inicio do século passado. Eh melhor então que se mostrem como são, o que pensam e à partir dai, demonstrarmos que não ha diferenças entre uns e outros por terem mais pigmentos na pele ou por escolherem amar de outra forma.  

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