Judeus, palestinos, negros, índios: o que têm em comum com a guerra Israel/Palestina?, por Eduardo Ramos

Mas o CERNE da questão hoje nessa guerra e na PERMISSÃO dada pelo ocidente para o morticínio que ocorrerá na Palestina

Banksy

Judeus, palestinos, negros, índios: o que têm em comum com a guerra Israel/Palestina?

por Eduardo Ramos

Li centenas de artigos sobre esse novo episódio miserável, cruel, desumano da guerra que dura décadas entre Israel e os palestinos na Faixa de Gaza. Um artigo a mais só deveria ser escrito se trouxer um novo ângulo a ser analisado por seus leitores. Por óbvio que seja, é o que pretendo com essa breve reflexão.

Um pequeno preâmbulo que explicará muito do objeto do artigo. Certa vez, quando eu trabalhava em um cartório eleitoral (2004 se não me engano…) e visitava a PUC do Rio para pedir mais uma vez que nos cedesse salas de aula para servirem de seções eleitorais, ouvi um diálogo que mexeu comigo de modo definitivo, mudou mesmo o modo de eu me enxergar, à vida e ao mundo à minha volta. Foi naquele dia que decidi escrever um livro (ainda em formação) sobre “o narcisismo de classe” presente nas sociedades e nações como um componente perverso, excludente e motivador da indiferença ou agressividade violenta de classes sociais sobre determinados grupos de pessoas.

O professor que atendeu a mim e à minha colega, ao falar de pessoas que conhecia, onde morava, os lugares que frequentava, logo estabeleceu uma ponte de ligação com ela, e os dois passaram alguns minutos identificando amigos em comum, clubes em comum, coisas assim, e ele finalizou a conversa feliz, como nos sentimos ao perceber semelhanças com o outro e usou a expressão que me marcaria para sempre: “tão legal isso, não, Maria (nome fictício)? As pessoas acabam se reconhecendo no Brasil que conta! Somos uma minoria, e mesmo numa cidade como o Rio, esse Brasil que conta acaba se conhecendo e reconhecendo, né?” – concluiu feliz, e pude perceber que não havia maldade ou malícia alguma em seu comentário, apenas um certo “êxtase social” por participar disso que chamava “o Brasil que conta”.

Minha amiga, de um cargo bem superior ao meu e casada com um homem de alto poder aquisitivo, de repente percebeu minha exclusão e mutismo durante o breve diálogo, nunca conversei com ela sobre o que senti naquela ocasião, até porque era de uma simplicidade absoluta, mas lembro com a mesma nitidez do momento, o “susto” de perceber que eu não pertencia “ao Brasil que conta”, pelo lugar que morava, pelos lugares que frequentava, pelo carro simples que tinha, pela escola que meus filhos frequentavam, etc. etc. Dezenas e dezenas de pensamentos começaram a se plantar em minha mente a partir daquele dia, inclusive esse que vou utilizar nesse texto, de que o mundo, afinal, é dividido ANTES DE QUALQUER OUTRA PREMISSA, entre “as pessoas que contam” e “as pessoas que não contam”.

Um exemplo bem fácil de ser apreendido? um evento recente e que nos chocou a todos, pela brutalidade e a banalidade trágicas: a morte dos três médicos na zona sul do Rio há algumas semanas por parte de milicianos. Muito da nossa comoção se deve à interiorização desse “conceito” (que se torna uma espécie de “sentir natural” que nem percebemos…) em nós – eles fazem parte dos “brasileiros que contam”. A prova de que é assim? Ora, as chacinas em que PMs matam dez, quinze, vinte moradores de comunidades carentes, às vezes com predomínio de trabalhadores em nada envolvidos com o crime, e não damos a mínima: “vida que segue!” – porque fazem parte dos “brasileiros que não contam”.

O MUNDO SEMPRE FOI DIVIDIDO POR QUEM DETÉM O PODER POLÍTICO E O PODER DE MOLDAR A OPINIÃO PÚBLICA DESSE MODO EXECRÁVEL, CANALHA, MALDOSO: OS “QUE CONTAM” E “OS QUE NÃO CONTAM!”

Porque a escravidão dos negros foi aceita como algo normal por séculos?

Porque índios foram exterminados nas Américas e discutia-se inclusive se “teriam ou não alma”?

Porque a sociedade alemã aceitou com facilidade a parte do nazismo que incluía o desprezo e os crimes contra os judeus?

Por causa desse pensamento/sentimento incutidos em sociedades e nações, de que há grupos sociais inferiores, desprezíveis, DESPROVIDOS DE VALOR, portanto, descartáveis, “porque não contam”, não valem…

E é essa a premissa essencial sentida, pensada com convicção absoluta e preconceituosa pelo mundo ocidental em geral e promulgado incessantemente pelas grandes mídias mundo afora: “a morte de judeus conta, é trágica! a morte dos palestinos na faixa de Gaza é uma compreensiva reação dos israelenses ao terrorismo do Hamas!”

Dane-se o fato óbvio/ululante de que o Hamas não representa os palestinos.

Dane-se a covardia selvagem, sistêmica e genocida do Estado de Israel contra os palestinos (inclusive mulheres, idosos e crianças…)

Dane-se os EUA, Europa e Israel JAMAIS terem admitido outro fato óbvio-ululante: que não haverá paz naquela região sem que se pense e debata com honestidade a criação de um Estado palestino.

Em tempo: o mesmo horror que tenho à selvageria de Israel tenho contra o Hamas, penso em ambos os grupos como bárbaros, violentos, amantes da guerra e não da paz…

Mas o CERNE da questão hoje nessa guerra e na PERMISSÃO dada pelo ocidente para o morticínio que ocorrerá na Palestina nos próximos dias, tem tudo a ver com a frase que ouvi daquele professor sorridente na PUC há quase vinte anos: há “os que contam”. E há “os que não contam”.

Os poderosos do mundo e sua mídia ecoam a mesma maldade há décadas: “Israel conta para o mundo. Palestinos, não!”

Boa parte do que vemos ou ouvimos tem a ver com isso.

Quase toda a maldade havida no mundo, idem.

Só uma nova Educação, mais profunda, humana, fraterna, includente nos salvará a todos!

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Redação

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