Na era da negação da política, o Coringa é o novo Che, por Carolina Maria Ruy

Uma nova forma de alienação, travestida de ativismo. Um radicalismo irrealista que nos separa de um engajamento realista e consequente

Camiseta com o Joker interpretado por Joaquin Phoenix é vendida - Foto: Publicidade

Na era da negação da política o Coringa é o novo Che

Por Carolina Maria Ruy

Subindo a Rua Cardeal Arcoverde, em São Paulo, vi um jovem com a camiseta do Coringa interpretado por Joaquin Phoenix no filme de Todd Phillips. Lembrei de diversas fotos que vi nas redes sociais de jovens protestando no Chile, Equador, na França e na China com camisetas ou máscaras deste personagem.  Pensei que os jovens adotaram o Coringa como antes usavam a camiseta e a inconfundível boina do Che Guevara. E também como há pouco tempo usaram as máscaras de Guy Fawkes, do filme V de Vingança. Em cada tempo e a cada personagem, entretanto, o sentido muda. O sentido político e coletivo parece, cada vez mais, dar lugar a uma postura individual e anárquica.

Demorei para assistir Coringa porque tinha preconceitos contra o filme. Isso porque penso que não cabe ao arqui-inimigo do Batman um passado. Neste sentido considerava, e ainda considero, a representação de Heath Ledger, em Batman o Cavaleiro das Trevas, de 2008, não só a mais completa construção de um vilão, mas o Coringa definitivo.

A morte precoce do ator logo após as filmagens contribuiu para a mítica em torno deste papel. Mas não só isso. Acostumado a papéis doces, Ledger foi fundo no Coringa deixando a impressão de que deu ao personagem suas dores e dramas mais profundos.

No filme de 2008 ele encarna como ninguém o desfrute da condição de marginal. Já falei em um texto sobre os 10 anos de Batman o Cavaleiro das Trevas (“Batman O Cavaleiro das Trevas” chega aos 10 anos como um filme sério e profundo, publicado em 28/9/2018), que “O Coringa está muito mais próximo de Alexander DeLarge, o Alex, de Laranja Mecânica (Stanley Kubrick), do que de algum fantasioso Duende Verde, em Spiderman, ou Lex Luthor, do Superman”. Ele está no rol dos vilões complexos, de figuras que encontraram na maldade uma forma de existir neste mundo.

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Vou mais além. O Coringa, embora isso não apareça em O Cavaleiro das Trevas, compartilha com a criatura de Victor Frankenstein, o ser a quem acostumamos chamar de “Frankenstein” (Victor Frankenstein é o cientista e a criatura não tem nome), da revolta nascida da rejeição. O ser horrível, pálido e desengonçado encarna a repugnância uma vez que os homens comuns veem refletidas nele suas próprias maldades e feiuras.

E é neste ponto que entra o Coringa de Joaquim Phoenix. O filme conseguiu a proeza de construir uma versão de uma história sem destruir a versão anterior. Phoenix captou o que parece de fato ser a história de Arthur Fleck, antes dele se transformar no Coringa. Tal qual Frankenstein, Fleck foi moldado por uma sociedade que o renega, ainda que ele tenha buscado afeto e integração.

Esta situação de vítima era justamente o que eu temia encontrar neste filme. Mas o diretor foi perspicaz em levar o personagem a romper com seu passado e com o que o ligava a uma vida normal. Sua brutal transformação faz com que sua história seja condizente com o possível passado do vilão interpretado por Heath Ledger, daí a complementariedade.

Arthur Fleck, moldado pela revolta e transformado em Coringa, não é revolucionário. É um aniquilador. Um agente do caos. Embora não houvesse a necessidade de ser literal, ele mesmo fala no filme que não é político e que não acredita em manifestações populares. E isso é uma contradição, uma vez que grandes manifestações explodem a partir de suas ações e de sua figura.

Enriqueceu muito o filme trazê-lo para uma situação atual: o contexto das grandes manifestações de rua. É perfeitamente cabível que, como nas metrópoles de Chile, Equador, França e China, Gotham City seja palco destes eventos. Isso porque, como um mega centro urbano, ela exprime as mais acirradas contradições do capitalismo fomentando o individualismo, a violência e a desigualdade social.

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No mundo real como no filme salta aos olhos o sentimento de negação da política, de partidos, sindicatos ou de qualquer instituição social. Ressentimentos, antissociabilidade e revanchismo tomam o lugar da luta organizada por direitos, por igualdade, equidade e justiça para todos. “Matem os ricos”, eles dizem. Como se simplesmente matar os ricos pudesse mudar a dinâmica do mundo. Como se a ideia fosse simplesmente reinar sobre o caos.

Muitas vezes, como acontece no Brasil atual, do esgoto de tal fenômeno saem justiceiros e outsiders que pretensamente negam a grande política, mas que chafurdam em seus recantos mais obscuros. Parece até coisa calculada. Uma nova forma de alienação, travestida de ativismo. Um radicalismo irrealista que nos separa de um engajamento realista e consequente.

Assim é o Coringa e isso é o que se espera dele enquanto vilão. Um ser avulso, sem perspectivas, que vive apenas o calor do momento. A ironia é que no bojo de toda essa negação, Coringa é um filme político que diz muito sobre o nosso tempo.

Carolina Maria Ruy, jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical

 

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2 comentários

  1. Os anarquistas de preto sumiram das ruas do Brasil. Será que agora está tudo ótimo? Era bom fazer manifestação durante os governo democráticos do PT, que permitiam o ir e vir nas ruas, nas praças públicas, que pertencem ao povo e têm mais é que serem ocupadas e usadas pelo povo mesmo. Mas, e agora, anarquistas, estão com menos disposição para lutar? Ou seria medo da repressão em tempos de intolerância??? Onde está aquela indignação de 2013?

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  2. Carolina: qual é a causa q leva Arthur Fleck a se transformar no Coringa ? E por que o Coringa, sem pretender, ganha dimensão política no filme e no mundo real ?
    Penso q vc não responde essas questões. O Coringa deveria fundar o sindicato dos palhaços para ser consequente ?

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