Não, grandes jornalistas da manhã, tarde, noite, madrugada, por Eliseu Venturi

Raoul Hausmann. ABCD. Ca. 1920

ABCD, Raoul Hausmann (Austrian, Vienna 1886–1971 Limoges), Gelatin silver print

Não, grandes jornalistas da manhã, tarde, noite, madrugada

por Eliseu Raphael Venturi

“Esse aniquilamento progressivo das relações humanas não deixa de criar certos problemas para o romance. Como estabelecer a narrativa dessas paixões impetuosas, estendendo-se por vários anos, espalhando, às vezes, os seus efeitos por muitas gerações? O mínimo que se pode dizer é que estamos longe do ‘Morro dos Ventos Uivantes’. A forma romanesca não existe para pintar a indiferença nem o nada. Seria necessário inventar uma articulação mais plana, concisa e morna”. (HOUELLEBECQ, Michel)

Desde as madrugadas até o recomeço das madrugadas, suas vozes estarão presentes e serão requentadas em novas edições. Café da manhã, almoço, jantar; o pão de cada dia servido.

Falta de tempo, facilidade do meio, a mistura perfeita está garantida e a dependência firmada. Criou-se um hábito e uma cultura de consumo.

A televisão é arcaica e ultrapassada; é nova e vigorosa. Morta e viva, morta-viva que se alimenta de vidas. Seguem suas publicidades, suas verdades, suas certezas, sua autorreferencialidade e sua autovalidação. “Somos indispensáveis”, dizem; “controlamos a crítica”, “somos a crítica”, pensam; “somos neutros e imparciais”, iludem-se.

Corpos mais ou menos formatados, posturas, sotaques, detalhes de idiossincrasias caricatos; dos canais pares aos ímpares, dos pagos aos “gratuitos” (e que cobram os piores preços), vocês, enquanto estiverem na visibilidade, serão um pouco idênticos ao colega do programa anterior, e serão perpassados por um mesmo fantasma genérico homogêneo seguindo alguma moda conservadora dos anos 1950.

Formarão uma família, como sói à humanidade quase sempre fazer.

Suas vozes, estas vozes, não são suas vozes; são uma encenação de mais gente, forças, poderes. Seu trabalho de atuação, dentre tantas outras atuações, é uma coreografia de espontaneidades ensaiadas. E está tudo ali, na tela. São as faces rebocadas de outros rostos e carrancas, e nosso “não” é, portanto, maior.

Nós, singularidades ocultadas e açoitadas do outro lado genérico e abstrato da lavabilidade das imagens, nós sempre seremos “quase” como que da família, liame, fronteira e brasão que quase toda família lassa gosta de ostentar. Vocês têm cultivado nossos afetos mais profundos, mas talvez não passem de uma mera e persistente irritação em turnos, apenas.

Do universo da diversidade, sua uniformidade será imposta como padrão de qualidade. Identidades serão esquecidas, alguns sujeitos pretensamente representativos serão eleitos para acalmar as críticas mais urgentes. No fundo, dirão a mesma coisa.

Pluralidade será um canto; negros serão embranquecidos, mulheres serão machistas, gays serão masculinizados; não foi sempre assim? Não tanto, quando as identidades eram simplesmente degoladas. Coisas que mudam para permanecer.

Foi-se o tempo em que a rigidez dos códigos de moda e linguagem eram tão sinceros, cinzas e transparentes. Hoje, o mundo oferece uma tênue sofisticação com ares de liberdade, palavras de liberdade, uma sofisticação que perpassa desde os códigos das roupas até das posturas e da linguagem. Amemos a nossa liberdade.

Esta é a sua linguagem, sua pretensão asséptica, sua postura em tom de falsete; basta uma câmera ligada fora do “timing” e o mundo desmorona em grosseria. Mas tudo já estava ali, para antes do vazamento, nas vozes do antigarantismo e da antijuridicidade.

Quase nos seduzem. A dominação é boa jogadora e a flexibilização uma sedutora camisa de força florida, talvez, com hibiscos arejados. Quase nos enganam. No país das carências, quase tudo seduz, quase tudo engana.

Quem um dia não confiou piamente no que os olhos viram no telejornal? Quem um dia não desconfiou que a caixa preta, hoje plana, sempre foi uma máquina de ilusões, ainda que requintadas?

Quem nunca temeu cair no circuito das versões, das superinterpretações, das sobreinterpretações soberanas do jornalista confiável? Quem ali entra, seja por quinze minutos de fama, seja do jovem inocente ao juiz decano, parece ser processado por uma espécie de roteirista sádico.

Do espelhamento ao teatro. Do teatro à perversão.

Cada dia mais uma avalanche de “fake news” será o pressuposto ótimo e oportunista para afirmação de sua legitimação. “Traremos a verdade”, dizem, opondo fatos e fakes, juntando Ministros e eventos: “nós daremos os fatos, a verdade”. Prestaremos serviços de interesse público e ensinaremos a boa moral. Sim, temos o poder de tudo simplificar e reduzir.

O que poderia satisfazer mais uma população que, pelos mesmos meios e mensagens e por suas mesmas mãos, teve nutrido o medo inflado à quintessência do existir? Promessa de tantas religiões que fornecem este mesmo produto metafísico, “a verdade”, que nos deleita a mente e o coração.

Tal como o ciclo cruel de torturar e encher corpos de açúcar e depois exauri-los de medicamentos, de entupir e desentupir artérias, inflam-se vidas de medo e depois de respostas institucionais fajutas com a chancela deste mesmo jornalismo.

Jornalismo e Direito, dispositivos e maquinações do medo ao reconforto – um reconforto decadente e um medo sem precedentes. Se estas economias continuam rodando, eis a evidência de seu convencimento. Até quando se sustenta tal equação? Por muitas gerações e mais.

À disposição destas vozes suas, que ecoarão por quilômetros e mais quilômetros codificadas e depois decodificadas, sem mais haver fantasmas de transmissão, mas muitos outros no discurso subsistem, ouvidos de todos os tipos em todos os lugares escutarão: tendenciosos, que buscam confirmações, que não suportam mais escutar ou ver.

Olhos atentos, olhos inconscientes, olhos distraídos. Os continentes das suas verdades, do país do futuro, das fórmulas gastas, lugares comuns, confabulações e comédias, devoções.

Incluem-se aqueles ouvidos e olhos de boa-fé, necessitados de informação, vulneráveis; incluem-se todos em uma estranha democracia da comunicação, em uma mutante democracia porosa de autoritarismos, com uma sintaxe democrática, uma semântica duvidosa e uma pragmática degradante. E para além destas retóricas, haverá mais excluídos: excluídos, inclusive, da alienação.

Ouvidos e olhos que depositarão suas confianças e expectativas em seu discurso ininterrupto. Mas que vocês nunca saberão quem são estas vidas, porque seus discursos sempre foram e sempre serão unidirecionais. Não se iludam nos vídeos de 15 segundos na horizontal.

Nesta desproporção absoluta de forças, os ouvidos e olhos cederão o espaço do direito fundamental à informação à sua presença. O direito à educação, à cultura, à comunicação, também, todos espaços de direitos cedidos à sua presença, à sua profissão, à sua presença. Uma responsabilidade de vida. Mas os seus olhos apenas podem ver uma massa indistinta de alheios.

Havia uma antiga demagogia que pregava “peço licença para entrar na sua casa; obrigado por me receber em sua casa”. Depois veio a soberania do “assiste quem quer”, “desliga quem quiser”, a liberdade. Os apagamentos das necessidades são oportunos; assim como os ocultamentos das concessões públicas e tudo o que significam, e a tudo ao que obrigam. Há tanto envolvido que as fórmulas prontas são natimortas, porém, ultra eficazes na simplificação.

O dispositivo técnico levará sua mensagem a milhões; estes milhões depositantes da confiança, das expectativas, dos projetos, dos fundamentos de decisões. O dispositivo amplificará sua responsabilidade moral, profissional e jurídica ao infinito, até diluí-la na incapacidade de responder: como indenizar, como reparar todos os danos de manhã, tarde, noite, madrugadas?

Esta ironia do mundo contemporâneo é insolúvel. Atingem-se tantos, nenhuma tutela coletiva abarcaria os danos coletivos. Quem medirá a destruição cotidiana dos direitos, a ruína das liberdades, o fim da ética da comunicação? E o sequestro das subjetividades? Nenhum conglomerado conseguiria indenizar os efeitos imediatos, os efeitos ao longo prazo, os danos à historicidade.

Não há racionalidade nem fundamentação jurídica que abarque; algo escapa, muito escapa, quase tudo, escapa.

Em nome da democracia, nós concedemos uma parcela significativa de nossas liberdades. Não sem a reserva de discordar e desobedecer. Não sem o poder de pensar e de desconfiar.

Nem representativos, nem participativos, toda concessão é apenas mais um modo de distrair da violência que lhes constitui. Mesmo com redes sociais, mesmo com mensagens instantâneas, sim, vocês estão blindados, como deuses sujeitos à profanação. Nós podemos rir e vocês não saberão; é neste outro lado da mente que está sua vulnerabilidade.

É neste contrainfluxo da informação que está o seu fim, seu encerramento; a ironia do leitor, do tele-espectador que, distante, já trai seu ato de fé e despotencializa a deidade.

Ao contrário do que prega sua liturgia, a educação crítica funcionou em muitos aspectos e os meios “alternativos”, ou meios outros, já firmaram uma linha de corte suficiente para toda a enganação deliberada.

Suas declarações peremptórias, sua falta de cuidado com os direitos alheios, e a performatividade da sangria da sua linguagem não transcendem essa mesma condição humana que nos une, assim como uma justiça natural que sempre está à espreita de devolver as coisas aos seus lugares.

Não, grandes senhores e senhoras jornalistas da manhã, da tarde, da noite, da madrugada. Nem o tempo nem a história lhes pertence. Nem a democracia, nem os direitos, nem as liberdades, nem a cidadania, nem as eleições. Tais conceitos lhes são alheios.

Eliseu Raphael Venturi é doutorando e mestre em direitos humanos e democracia pela Universidade Federal do Paraná. Editor executivo da Revista da Faculdade de Direito UFPR e Membro do Comitê de Ética na Pesquisa com Seres Humanos da UFPR. Advogado.

¹ Disponível em: <https://www.metmuseum.org/art/collection/search/265584>. Acesso em: 27 ago. 2018
² HOUELLEBECQ, Michel. Extensão do domínio da luta. Tradução de Juremir Machado da Silva. Porto Alegre: Sulina, 2002. p. 39.

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