Narciso, por Wilson Ramos Filho

A fórmula do sucesso dos palestrantes-celebridade é simples, não deve inovar, apenas repetir o que o distinto público já sabe.

Narciso

por Wilson Ramos Filho, Xixo

Nos congressos jurídicos, nos últimos vinte anos, frequentemente se encontram dois personagens-tipo que ilustram a indigência intelectual no campo do direito: o palestrantes-celebridade e o malucos-de-palestra.

A fórmula do sucesso dos palestrantes-celebridade é simples, não deve inovar, apenas repetir o que o distinto público já sabe. A quantidade de aplausos e de selfies ao final dos eventos guardará proporcionalidade direta com a mediocridade do que for palestrado. Quanto maior for a coincidência entre o que disser o palestrante com aquilo que o público já sabe, maior será o sucesso. Quem assiste a exposição não busca, na verdade, aprender algo novo. Quer apenas validar aquilo que já pensa, reforçar o senso-comum, confirmar que está certo. O ex-constitucionalista, hoje no supremo, é um craque na arte da identificação narcísica. Diz o que as platéias querem ouvir, reforça aquilo que já está introjetado em suas visões de mundo. O participante desses numerosos eventos, ao constatar que o palestrante “pensa como ele” conclui – em involuntário autoelogio – que o conferencista “é bom, culto e preparado”, identificando-se com ele. Inconscientemente passa a amar o palestrante que reforça aquilo que sempre soube e regozija-se.

Outra figura frequente nos eventos é a do maluco-de-palestra que se caracteriza pela compulsão de “ter que fazer uma pergunta” ao final. Geralmente a intervenção guarda remota relação com o que foi explanado e raramente indica a existência de dúvida real com o conteúdo do exposto. Também este tem suas fórmulas de encantamento (embora quase sempre terminem em retumbantes fiascos). Alguns se esforçam para apenas repetir, com suas palavras, exatamente o que já foi dito pelo palestrante, objetivando pegar a rebarba nos aplausos; outros, ousados, tentam o passo adiante (com efeitos igualmente desastrosos) trazendo lugares-comuns que poderiam ter figurado no discurso do convidado ou que ficaram subentendidos. O maluco-de-palestra adora cobrar autocrítica dos outros e vaticinar, prever o futuro, com ares de quem vê o que ninguém viu, pretendendo amealhar parte do protagonismo do conferencista. Como a repetição leva à perfeição, o maluco-de-palestra experiente também não inova, simplesmente aborda outras dimensões do senso-comum, diz aquilo que imagina que todos já sabem.

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Muito provavelmente também em outras áreas do conhecimento possam ser encontrados palestrantes-celebridades e malucos-de-palestra com as características acima caricaturalmente esboçadas, mas arrisco afirmar que os Encontros e Ciclos Jurídicos tradicionais sejam mais chatos e mais inúteis que aqueles da área médica, da tecnológica, das ciências humanas ou das sociais aplicadas, até porque os juristas têm o péssimo gosto de encerrar suas palestras com versos de poemas, frases descontextualizadas extraídas de algum romancista para demonstrar inexistente erudição ou, pior, com trecho da letra de alguma música popular para “pagar de descolado”.

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3 comentários

  1. Não sei se é melhor nos meios mais tecnicos, mas na ciências sociais, politica, cinema e culturete em geral, é bem parecido. Os mesmos personagens, os mesmas falas etc.

  2. deve ter muita história interessante a respeito.
    tem o cara que é amigo do palestrante, lembra de um detalhe da obra do fulano e faz uma pergunta bastante verossímel e levanta a bola para um resposta sempre agradável para a plateia.
    ou aquele escritor já meio famoso que leva sua turma num encontro literário e mete o pau no crítico que já sabe defensor de um genero que ele escritor em busca de maior fama quer desancar para beneficiar o seu lado.

  3. PIOR É AQUILO QUE CHAMAM COFFEEBREAK, UM FESTIVAL DE SALAMOLEQUES OU SALAMELEKAS DE ENJOAR ESTÔMAGO DE URUBU, OU HIENAS KKK.

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