Neoliberalismo, pesadelo e Arte, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Talvez a Arte possa ser uma pedagogia, um medicamento, um despertador... Afinal, o neoliberalismo depende da teatralização da política e, nesse momento, teatraliza o assassinato em massa.

Neoliberalismo, pesadelo e Arte

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Em 22 de março de 2021 acompanhei o debate no YouTube entre Rubens Casara e Orlando Calheiros, o qual recomendo aos leitores:

Farei aqui comentários sobre algumas questões sugeridas pelo debate que podem ser objeto de reflexão.

Num bom  livro sobre o governo Bush Jr. é relatado o episódio em que uma autoridade norte-americana disse a um jornalista que o Império cria a realidade e quando o jornalista a relata ela já mudou.

“…somos um império agora e, quando agimos, criamos nossa própria realidade. E, enquanto você estiver estudando esta realidade, agiremos mais uma vez, criando outras novas realidades, que você poderá analisar também” (Crônicas da era Bush, Eliot Weinberger, Record, Rio de Janeiro/São Paulo, 2006)

Creio que nesse momento o mesmo pode ser dito da teoria. Sempre que alguém faz uma análise teórica do governo Bolsonaro ela nasce velha, pois uma nova realidade foi criada. No momento, o comum é o SUS como porta de entrada e de saída do genocídio sem que isso seja tratado como crime. Sugado pela dinâmica do bolsonarismo, o Sistema de Justiça colabora ativa ou passivamente para a concretização do resultado morte.

O direito ao enterro, único que tem sido respeitado, impede a visualização do fenômeno macabro. O assassinato em massa não é percebido como genocídio e sim como tragédia sem culpados.

E assim chegamos ao ponto essencial que eu gostaria de ser objeto de reflexão: o total divórcio entre entre a racionalidade e a realidade. Neste mundo governado pelo pesadelo, a teoria (mesmo que seja ela seja construída de maneira profunda e cuidadosa) perde sua eficácia política. 

A realidade movimentada pelo onírico é impermeável à ciência e a produção de cadáveres pelo SUS continua em escala industrial rigorosamente obedecendo às normas do Direito administrativo deslocado de sua verdadeira finalidade, que seria preservar a vida. A racionalidade jurídica e judicial foi colocada a serviço do pesadelo.

Mergulhada no pesadelo, a sociedade precisa acordar dentro do pesadelo para poder sair dele. Mas a verdade e a racionalidade são inúteis nesse ambiente que funciona com regras diferentes da ciência.

Talvez a Arte possa ser uma pedagogia, um medicamento, um despertador… Afinal, o neoliberalismo depende da teatralização da política e, nesse momento, teatraliza o assassinato em massa. A reação, portanto, deveria ser teatralizada. 

A medicina (palavra usada aqui como sinônimo de profilaxia) nesse caso, pode estar no próprio veneno do necroliberalismo. Sintomaticamente, ambos os debatedores fizeram a crítica do neoliberalismo, sistema econômico que provoca o empobrecimento simbólico (Rubens Casara) e acarreta exclusão social e acumulação de riqueza (Orlando Calheiro), mas sem levar em conta a realidade do assassinato em massa da população brasileira no momento em que debatem. Isso é muito significativo, suponho. Uma evidência talvez da incapacidade da teoria de descrever a realidade no momento em que ela já modificou a natureza do próprio neoliberalismo.

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