O calvário do Brasil na placa do elevador, por Rogério Marques

O Brasil sempre foi um caldeirão de preconceitos, da classe dominante às camadas menos favorecidas. O que estamos vivendo neste momento é a explosão desse caldeirão.

O calvário do Brasil na placa do elevador

por Rogério Marques

Uma placa no elevador, que alguns não reparam, explica muito do que o Brasil vive hoje — essa explosão de preconceitos e conservadorismo estimulada por um homem que sempre se elegeu vomitando preconceitos na cara de todos.

Essas placas passaram a ser exibidas por força de leis estaduais e municipais a partir do começo dos anos 90, mais ou menos.

Embora elas relacionem vários segmentos que não podem ser discriminados no uso dos elevadores, as leis foram feitas visando principalmente as empregadas domésticas.

Em boa parte do país, essas empregadas são negras, importante lembrar.

Até o final dos anos 80, empregada doméstica só usava entrada de serviço e elevador de serviço. Direitos trabalhistas, férias, horário de trabalho? Nem pensar!

No caso das babás, havia uma exceção: se estivessem com as crianças poderiam usar o elevador dito social. A criança era uma espécie de salvo-conduto.

Essa política odiosa, resquício da escravidão, de vez em quando era contestada por patrões que não concordavam com ela e por empregadas mais conscientes de seus direitos, que não aceitavam se submeter a tamanha humilhação.

Isso gerava conflitos, que viravam notícia nos jornais. Quem tem mais de 40, 50 anos lembra bem disso.

Começaram a surgir então leis para combater essa discriminação odiosa. Os condomínios e prédios comerciais são obrigados a exibir nos elevadores a placa com a lei.

De início, essa tentativa de se pôr fim à discriminação foi contestada principalmente em condomínios ditos “nobres” — a mídia continua a empregar esse termo idiota para bairros e condomínios da classe média alta e dos ricos. Síndicos e alguns moradores achavam e ainda acham absurdo andar no elevador com seus “serviçais”.

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Leis, protestos, encrencas que foram parar em delegacias policiais, mobilização de grupos, placas ameaçando punição. Tudo isso foi preciso, ainda ontem, para que patrões e empregadas pudessem usar o mesmo elevador!

Lembrei dessa história da placa dos elevadores ao ler uma pesquisa do Datafolha publicada nesta semana.

Cerca de um terço dos brasileiros tem opinião similar à de Jair Bolsonaro em temas como o golpe de 64, política ambiental, demarcação de terras indígenas. Nunca tive dúvidas sobre isso. Declarações racistas, homofóbicas, o menosprezo ao massacre de 62 presos em Altamira, no Pará, o ataque a ambientalistas tudo isso mantém o apoio a Bolsonaro, por mais medíocre e destrutivo que seja o seu governo. Os preconceitos e até mesmo o ódio falam mais alto que a razão.

Não creio, ao contrário de alguns, que Bolsonaro venha agindo dessa forma como uma estratégia, para desviar a atenção de seu governo medíocre. Ele é isso, sempre foi isso desde o início da carreira política inexpressiva. E sempre se elegeu com essa plataforma do racismo, da homofobia, das patriotadas, da exaltação da tortura, da ditadura, da aversão de fachada à corrupção.

O Brasil sempre foi um caldeirão de preconceitos, da classe dominante às camadas menos favorecidas. O que estamos vivendo neste momento é a explosão desse caldeirão.

Valendo-se desses preconceitos, e da falta de consciência política e social de boa parte da população, o andar de cima deu um golpe de mestre. Com a tradicional ajuda de um Judiciário arrogante e elitista e dos donos da mídia, conseguiu convencer o andar de baixo de que é ótimo negócio perder direitos trabalhistas, na aposentadoria, trabalhar mais, ganhar menos. É o Brasil da placa no elevador.

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Mas, como na música do Chico, vai passar.

(Rogério Marques)

 

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3 comentários

  1. Que vai passar, vai. Mas o estrago que vai causar e as vidas que serão levadas necessitam de uma reação imediata! Vamos às ruas contra esse monstro autoritário, vamos lutar contra esse “Brazil” trumpiano que querem nos impor!

  2. Vale lembrar que quando vamos a um tribunal(por exemplo TRT de SP ) , tem elevador exclusivo para Juízes, entrada para advogados e entrada para o resto.

  3. “Essa política odiosa, resquício da escravidão”

    O “nobres” esta mais perto: eh mania de bilionarios hoje mas originalmente era costume de familias reais, nada a ver com o racismo explicito que virou.

    Onde e por qual razao isso ainda persiste no Brasil eh um misterio pra mim. (So fui em uma mansao nos EUA que tinha entrada de funcionarios separada mas eles eram podres de ricos, nao me ocorreu pensar nada aa epoca.)

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