Mas afinal, quem é o Centro?, por Ion de Andrade

Mas afinal, quem é o Centro?, por Ion de Andrade

As discussões relacionadas ao segundo turno apontam para a necessidade da ocupação pelas forças democráticas de um dito Centro político. É a partir desse “Centro” hipotético que se admite a possibilidade de ampliar a sustentação política para a governabilidade.

Não é à toa que o Estado de direito, na verdade o Estado ampliado de que temos um arremedo, é entendido como um Estado pacto, ele permite elaborações às vezes meio fantasiosas em torno dessa matemática da sustentabilidade.

Portanto vamos entender o “Centro” não como um elemento ideológico, desconectado de uma materialidade histórica, como gostaria FHC, ao atribuí-lo a Alckmin, mas vamos imaginá-lo sob o enfoque de uma geometria de equilíbrio do Poder para a governabilidade, como o centro “geodésico” de um Estado dinâmico onde o peso relativo das partes e o “território” que as forças ocupam são mutáveis e alteram o equilíbrio fazendo com que esse Centro deva se reposicionar para continuar dando sustentabilidade ao sistema democrático.

Então o Centro é um fenômeno estatal, historicamente dado, o equilíbrio a partir do qual o Poder pode ser exercido com custo energético mínimo (e consenso máximo) sem a necessidade da realimentação autoritária e permanente de mais e mais energias para manter a máquina rodando, por exemplo, contra a vontade das multidões. Nesse sentido o “Centro” seria a melhor expressão histórica do pacto, a democracia possível numa correlação de forças real.

Ao Centro se agrega, portanto, uma identidade com esse Estado pacto de que é o melhor intérprete, é ele que “encarna” aquele Estado de direito realmente existente e historicamente definido. E é esse Centro e apenas ele quem pode, pela legitimidade que tem, agregar, por meio de compromissos, outras forças à governança.

Na nossa história recente, encarnaram esse Centro Ulysses Guimarães e Tancredo Neves na redemocratização e Lula como força civilizatória. Lá fora encarnou o Centro de Gaulle, na França do pós guerra, quando construiu um primeiro governo de união nacional, ou Mandela na África do Sul quando da redemocratização, depois abortada, daquele país. Mais recentemente poderíamos dizer que essa união de esquerdas em Portugal disputou o centro da governança com uma direita que o detinha e o perdeu e é num governo de “Centro” que constrói uma notável governabilidade, regido por um novo consenso contrário à austeridade, muito amplo e que efetivamente uniu o país.

E o que aconteceu no Brasil de 2016 para cá? O estupro da ordem constitucional e o impedimento de uma presidente honesta para o atendimento aos interesses das forças eleitoralmente derrotadas que lotearam o Estado. Um Poder excêntrico, sob essa leitura, que produziu um desequilíbrio da sustentabilidade do Estado, que vem rodopiando desde então. A resultante desse estupro institucional é a perda total de legitimidade das forças golpistas, o que vem a funcionar, de fato, como uma perda de peso relativo, ou de territórios ocupados, ou a um verdadeiro colapso político dessas forças que, antes de tudo isso, efetivamente disputavam o Poder. Nessa geometria, tendo implodido, como implodiu, a direita tradicional exorbitou o Centro da governabilidade para a centro-esquerda.

Como fenômeno tectônico que é, isso significa que os segmentos sociais que essas forças representavam deixaram de estar legitimamente representados na máquina estatal, produzindo o caos atual que se exprime por representações voláteis e monstruosas, que abrem as portas para o fascismo.

Que relevância tem isso?

Uma relevância objetiva e outra subjetiva.

Do ponto de vista objetivo, a percepção da migração do Centro para a centro-esquerda nos permite entender o nosso papel hoje e a natureza do governo que vem, que tem, por dever de ofício, de ser um governo amplo e de recomposição dessa governabilidade que rodopia. Enxergamos uma missão.

Do ponto de vista subjetivo essa percepção nos permitirá um posicionamento no tabuleiro do segundo turno como o Centro que nos tornamos, construindo a agenda de governança e da recomposição do Estado pacto com o conjunto dos segmentos da sociedade, os trabalhadores, os movimentos sociais, o patronato, o mercado…

Na orquestra das lutas a batuta caiu em nossas mãos.

Vamos reger!

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7 Comentários

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Ion de Andrade

- 2018-09-24 15:10:27

Ingenuidade?

A guerra pelo "Centro" estáaberta. Hoje nos jornais o candidato da extrema direita diz que vai lançar um manifesto à nação sobre racismo e misoginia,onde vai desmentir tudo o que tem dito nos últimos tempos.

È bom sabermos o que pode ser esse Centro para não irmos atrás do Centrão.

Se você olhar a realidade sem preconceitos verá que não há alternativa leninista à vista.

 

Saudações

Nender, o tal.

- 2018-09-23 21:39:18

Ah, tá explicado!

Eu pensei que fosse algo mais grave, mas no seu caso é só ingenuidade mesmo!

Ok, tudo certo, respeito sua concepção, apesar de entender que ela não faz o menor sentido, nem no campo simbólico, nem na elaboração de uma teoria política de atuação.

Bem, mas você mesmo mencionou a chave de seu pensamento: de que há algum "pluralismo democrático".

Uma lógica des-historicizada e que tem tanta utlidade como um quadro na parede, ou um slogan pintado.

A velha crença do pessoa oriundo do PC italiano que há uma democracia que resista como valor universal!

E depois, assistimos o que se seguiu: o assassinato da esquerda e dos movimentos sociais pela social-democracia!

Nender, o tal.

- 2018-09-23 21:28:49

Arf.

maestro que não é maestro, eu estou com paciência hoje, logo, responderei sua impertinência, que tenta disfarçar uma atitude blasé com algo que não foi capaz de entender, mas que despertou sua curiosidade.

Eu poderia fazer uma graça, e dizer que, conceitualmente, como fenômeno e elemento da equação social, a esquerda não comporta uma definição que se afaste da que você deu por ignorância: balaio de gatos, sim, pelo seu aspecto multicromático e de múltiplas vozes.

Mas eu vou ser um pouco mais rude: a esquerda a que me refiro é justamente aquela representada pelo autor, que acredita em centros, e por tal defeito, nem deveria ser chamado de esquerda do espectro político.

Sim, porque no fim das contas, só tem sentido chamar de esquerda quem acredita que a única chance de triunfo da esquerda, e sim, o seu fim como denominação, é a destruição completa da direita, e não a convivência com ela.

Direita e esquerda são divisões contemporâneas e típicas do capitalismo, e para superar (o capitalismo) não podemos imaginar um mundo onde a direita persista, portanto, não há centro possível!

Por óbvio, a aniquilação da direita é uma perspectiva histórica a ser construída, e como o tempo tem nos mostrado, não é tarefa fácil nem iminente.

No entanto, sem a compreensão dessa possibilidade como factível e sem recuperar a historicidade de nossa luta contra a dominação, combatendo a "naturalidade" das formas de opressão que servem ao capitalismo e suas classes dirigentes, nada mudará de fato, a não ser para pior!!!!

Vá estudar, filho, por favor, não me faça sentir vergonha alheia!

 

rdmaestri

- 2018-09-23 19:18:31

Neder, o qual. Que esquerda? Cara pálida.

Pelo menos adjetive a esquerda que falas, por escrever algo e dizer: O centro: o novo (velho) fetiche da esquerda! Está fazendo um verdadeiro balaio de gatos.

Ion de Andrade

- 2018-09-23 17:17:26

É um conceito operacional para o segundo turno

É um conceito operacional para a política. Uma chave de leitura para ampliar os horizontes, pq o desafio não é de teoria é de governabilidade.

Estou querendo dizer que perante a extrema direita com quem vamos nos confrontar, o "Centro" somos nós pelo compromisso com esse Estado de direito do qual, queiramos ou não, a direita tradicional também faz parte.

Ou seja quem representa esse pluralismo democrático, cada um chame do que quiser e aqui eu quis em resposta ao Centro de FHC chamar de Centro, somos nós.

E acho que é eleitoralmente umaideia poderosa.

Me dou conta também nessa reflexão que a direita já faz uso desse conceito há muito tempo, cinicamente aliás, porque acreditam nisso tão pouco quanto nós, mas descobriram o poder que isso gera no imaginário coletivo e disso fazem uso. Estou invertendo essa variável a nosso favor reconceituando o Centro aliás.

 

 

rdmaestri

- 2018-09-23 16:21:40

O centro é uma miragem.

CLASSES SOCIAIS.

Na história sempre houve duas classes sociais, uma que dominava e outra que trabalhava, escravos-senhores de escravos, aristocracia-burguesia, burguesia-trabalhadores, nada impedindo que tivesse classes intermediárias que geralmente serviam aos senhores, por exemplo os escravocratas tenham seus feitores, seus exércitos, seus juízes, seus gestores das cidades e daí por diante, os burgueses da idade média tinham seus artesões seus exércitos, seus juízes, já os grandes burgueses dos dias de hoje que são denominados como capitalistas, rentistas, empreendedores, e outras denominações, mais atuais tem o que se chama a pequena burguesia, uma subclasse social que serve aos seus interesses, são os chamados profissionais liberais, os professores dos mais diversos níveis, os juízes, os militares e daí por diante.

As classes sociais desenvolvem as suas políticas, os senhores de escravos, os aristocratas, os burgueses, e os grandes burgueses, sempre tiveram a sua política, a de conservar tudo como estava, pois, para eles estava bom, vamos então chamá-los de direita. Já por outro lado, os escravos, a burguesia quando era oprimida pela aristocracia e os trabalhadores nos dias atuais como acham que tudo está errado tem uma política de mudança, vamos então chamá-los de esquerda.

MOBILIDADE VERTICAL.

Sempre na história um escravo dificilmente poderia virar um senhor de escravos, mas isto acontecia, o inverso também ocorria, mas com mais facilidade. Da mesma forma um burguês rico poderia comprar um título nobiliárquico ou ganhar um, por deferimento de um senhor, e se tornar um aristocrata, também o processo inverso também ocorria, isto se chama mobilidade vertical.

A mobilidade vertical no início do domínio da sociedade da classe burguesa a mobilidade vertical era grande, ou seja, algum artesão um pouco mais esperto que tivesse a chance de organizar a exploração correta de seus aprendizes ou empregados, conseguia passar para a grande burguesia, porém assim como na aristocracia quanto mais ela se tornava hegemônica e tradicional, mais difícil se tornava a mobilidade vertical para cima.

Com o início de uma nova fase do capitalismo, o capitalismo transnacional monopolista (ou oligopolista), que se chamou de imperialismo, a mobilidade vertical para cima está se tornando praticamente impossível, pois devido as características dos grandes monopólios/oligopólios, cada vez mais para ser um grande capitalista é necessário ter algum monopólio/oligopólio ao nível internacional, que se vem denominar de globalização da economia.

Porém, mesmo com a progressão dos monopólios/oligopólios internacionais, uma parcela da chamada pequena burguesia ainda sonha em passar para o nível de cima dos estratos sociais, logo eles ainda apoiam as políticas das camadas superiores da sociedade.

DIREITA, ESQUERDA E UMA COISA CHAMADO CENTRO.

Como visto, desde que a sociedade se estruturou e começou a exploração do homem pelo homem nos regimes escravocratas, sempre tiveram os que apoiavam os que estavam acima de todos, e estes são chamados de direita. Por outro lado, aqueles que lutavam por mudar as diversas formas de opressão, são chamados de esquerda.

No meio desta clara luta entre os que dominam e são dominados, há nos dias atuais uma massa de pequenos burgueses que acham a situação de explorados ou de empregados qualificados do grande capital confortável e satisfazendo as suas necessidades ou anseios de um dia ascenderem as classes superiores, são pessoas com a mesma ideologia dos grandes capitalistas, mas como não são, no lugar de serem chamados de direita, que seria o nome correto, são chamados de centro. Logo o centro é formado por direitistas não pertencendo a classe dos exploradores assumem a sua ideologia.

Em resumo, o centro é uma miragem.

 

Nender, o tal.

- 2018-09-23 16:04:44

O centro: o novo (velho) fetiche da esquerda!

Problema conceitual grave na análise:

Desconhecer que o próprio processo de formação do Estado carrega em si a impossibilidade política da existência do Estado como um possível centro, ainda que reconhecidas as ressalvas do autor no início, que reconhece sim o "centro" como uma ideia (ideologia) e como contextualizado historicamente (materializado).

Esse erro o faz acreditar que havia antes uma "ordem" que foi "estuprada", quando na verdade, a aparente "desordem" (atual), que sobreveio de 2016  nada mais é que um desdobramento histórico dessa própria ordem que permite ser "desordenada" pelos caprichos da elite e a agenda do capital, toda vez que enxerga ameaça ao estamento ou oportunidade em aprofundar as bases injustas nas quais está construído.

A ideia de centro é um cacoete que já deveria ter sido superado desde que o jovem Marx (O Velho) pulverizou a dialética hegeliana.

Porque Marx viu (e Ion ainda não) que não há chance de que a antítese haja (SEMPRE!!!!!) como um perpetuador (centro) da própria ordem que desafia como tal (antítese).

Ou seja, ffhhcc mente quando reivindica um centro, porque ele sabe ser impossível, Ion só é ingênuo mesmo.

Seu texto é algo que nos diz mais ou menos algo assim: "o centro do ffhhcc não existe, mas construir o nosso (centro) é imperativo".

Acreditar em centro é acreditar em democracia como valor universal, roubando-a sua transitoriedade histórica, sem a qual, a própria democracia deixa de ser um processo em construção (e disputa) para ser um slogan na parede, que inclusive pode (e poderá) ser berrada até pelos selvagens que a desejam morta (fascistas)!!!!

 

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