O Highlander tupiniquim se auto-decapitou em Washington, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Nos últimos tempos, recorrendo aos filmes de HQs, os fanáticos seguidores de Bolsonaro o transformaram numa espécie de Capitão América de Pindorama.

O Highlander tupiniquim se auto-decapitou em Washington

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Muito embora tenha alguma semelhança intelectual com Polifemo (gigante caolho que vivia numa caverna e que foi enganado, embriagado e cegado por Ulisses), Bolsonaro não construiu seu mito fazendo referência à mitologia grega. Após ser expulso do Exército nos anos 1980, o mais provável é que ele tenha recorrido à cultura de massa etnológica norte-americana (isso explicaria, inclusive a fixação dele pelos EUA) para aparecer diante do respeitável público como um campeão invencível do individualismo evangélico capitalista moralizante na sua cruzada contra o mal (o comunismo imoral herético gayzista).

Nos últimos tempos, recorrendo aos filmes de HQs, os fanáticos seguidores de Bolsonaro o transformaram numa espécie de Capitão América de Pindorama. Mas se nós voltarmos ao início da saga mitológica bolsonariana encontraremos outra influência cinematográfica marcante. Refiro-me, obviamente, à saga cinematográfica Highlander.

O primeiro filme da série foi lançado em 1986, ano em que Jair Bolsonaro foi preso em razão de se apresentar aos brasileiros como um herói capaz de decapitar a política salarial do Exército. Desde então a missão dele tem sido degolar seus inimigos internos e externos.

Nos embates que travou durante sua carreira política, o autoproclamado ditador brasileiro sempre deixou bem claro que só pode existir um (ele mesmo). Sempre que pode ele decapita seus inimigos verbalmente (Seu pai dá o cu!, gritou ele na Câmara dos Deputados), quando não pode fazer isso ele recorre às ameaças de decapitação (“Calma que sua hora vai chegar, marmita de corrupto preso”). A reforma penal que o Ministro da Justiça dele apresentou ao Congresso Nacional reinstitui a pena de morte, a qual ficará a critério do policial que se sentir amedrontado ao executar um suspeito (ou que disser em juízo que se sentiu ameaçado).

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Bolsonaro não tem amigos e não pode ter amigos. Quando algo ou alguém se coloca em seu caminho (ou a neurose o faz acreditar que isso ocorreu), Bolsonaro é simplesmente incapaz de levar em consideração os interesses de longo prazo do país ou os interesses de curto e médio dos grupos econômicos que o ajudaram a chegar à presidência. Como todo Highlander, o mito (é assim que o presidente é chamado por seus adoradores) não é guiado por considerações de natureza racional e econômica. Ele é conduzido por uma pulsão: o desejo irresistível de decapitar algo ou alguém para se tornar o “um”, e desfrutar o prêmio.

Desde que tomou posse, o Highlander Bolsonaro tem causado estragos. Ele disse que vai mudar a Embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém. O resultado foi uma retaliação comercial dos países árabes (eles deixaram de comprar carne de frango “made in Brasil”). Ele hostilizou a China comunista. Pequim se ofereceu para comprar nos EUA os alimentos que compra no Brasil (o que resultará numa perde de 30 bilhões de reais em exportação).

O Brasil está em frangalhos, mas Bolsonaro parece não se importar. Em visita aos EUA, ele fez diversas concessões diplomáticas, econômicas, militares e territoriais sem exigir qualquer contrapartida norte-americana. Donald Trump aceitou as oferendas feitas pelo Highlander tupiniquim esquisitão e nem se deu ao trabalho de comentar no Twitter a visita oficial do presidente brasileiro.

A reação às vergonhosas demonstrações de submissão do Brasil aos EUA foi imensa. Em declínio, a popularidade de Bolsonaro sofreu um golpe mortal. Tudo indica que ao decapitar o Brasil, o mito finalmente desferiu um golpe no próprio pescoço. O Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes e ninguém pode realmente dizer que só pode existir um brasileiro. Nem mesmo um mito que pretende exercer o poder eternamente.