O Pastor e suas Ovelhas, por Carlos Alberto Teixeira

Enviado por Alfeu

Esse texto foi publicado no caderno de Informática d’O Globo em 2002 e, obviamente, a maior parte do que ali se encontrava está secularmente desatualizado. Mas não é o caso da coluna do [email protected], onde ele aborda criticamente o perfil de um profissional de TI.

Se compararmos com os tecnocratas, cabeças de planilha ou qualquer outro que não consegue pensar além do limite das paredes de seus gabinetes, mas que tem a capacidade de virar do avesso um país, o texto ainda é atual.

Nesse balaio, pode-se incluir ainda procuradores e juízes, pois nenhum deles tem a noção do que se passa fora das caixinhas em que vivem. É uma imensidão que os assustam, nunca arriscam o mínimo contato, mas quando tentam “sem jeito manda lembranças”.

Publicado em 25/11/2002

A turma está ficando cansada com os excessos decorrentes. da tecnologia. Um deles é o excesso de zelo com a privacidade. É claro que é necessário estar alerta às invasões e ao mau uso de nossos dados sigilosos. Mas não precisamos chegar ao extremo de tentar esconder de todos o conjunto completo de nossas informações, mesmo porque jamais conseguiremos ocultar tudo. Muito embora o fenômeno ainda não tenha chegado às mailing lists nacionais, lá fora o pessoal está relaxando cada vez mais, oferecendo livremente informações pessoais em seus perfis públicos de usuário: endereços de casa, telefones; aptidões, preferências, tá tudo lá.

Outra coisa- é o excesso de informação. Até o identificador de chamadas lá de casa, vulgo bina, eu já desliguei. De que me interessa saber quem me ligou e não deixou recado na secretária eletrônica? E se alguém ligar e eu não quiser falar, é só usar a velha desculpa de que estou fritando alho e tá quase queimando, depois eu te ligo de volta. Sobre o excesso de emails, este é um caso aparte. Já me convenci de que jamais serei capaz de me manter em dia com a quantidade de mensagens que entram diariamente.  

Pra terminar; existe o terrível hábito do excesso de confiança nos gurus. Sim, a mania de confiar exageradamente, nos caras de sistemas, os analistas; consultores, programadores e assemelhados. São uma raça sem-vergonha, leitora, acredite em mim. Falo de cadeira porque sou um deles. Pensam que são donos do mundo e que dominam os desígnios da natureza, os desígnios do destino e os poderes telúricos do planeta. Recentemente uma leitora veio com um papo de endeusar a equipe de tecnologia da empresa em que trabalha. Perguntei a ela se conhecia o tradicional caso do pastor e suas ovelhas. Ela disse que não, então pus-me a lhe contar a história: Um pastor está cuidando de suas queridas ovelhas ao longo de uma estrada deserta. Os campos que ladeiam a rodovia são verdejantes e o relevo da região é monótono, com colinas baixas e suaves. O ambiente é de total paz, o visual deslumbrante. Só o que se ouve são alguns balidos e os cantos dos pássaros. De repente, o pastor começa a ouvir ao longe o som de um potente motor de automóvel, aparentemente vindo em alta velocidade. Vai o ruído crescendo e logo um Porsche vermelho novinho em folha para abruptamente cantando pneu perto onde estão o pastor e seu rebanho.

O motorista, sujeito pintoso e posudo trajando terno Armani, sapatos Cerutti, óculos de sol Ray-Ban, relógio de pulso TAG-Heuer/GPS e gravata Pierre Cardin, sai do automóvel e olha para o céu. Não há nuvens. Isso é bom, pensa ele. Em seguida, dirige-se ao pastor, e pergunta sem rodeios: “Se eu lhe disser quantas ovelhas você tem, você me dá uma delas?” O pastor analisa rapidàmente o impetuoso jovem e depois olha para seu numeroso rebanho. Dá de ombros e responde: “OK”.

O rapaz estaciona o carro numa manobra rápida, ruidosa, mas precisa. Tira os óculos escuros e conecta seu laptop de última geração a um fax-modem-celular. Apesar do sol forte, ele demonstra frieza absoluta. Nenhuma gota de suor escorre de sua fronte. Sua destreza no teclado é inacreditável e seus movimentos são exatos e calculados com precisão. Seu próximo passo é entrar num website oculto da Nasa. Ele informa ao sistema as coordenadas geográficas do ponto onde se encontra, com ase nos dados informados via radiofreqüência pelo seu relógio equipado com Bluetooth. Com isto, aciona um satélite em órbita que, mediante uma senha especial, realiza uma meticulosa varredura no terreno e invoca nos servidores da agência espacial americana uma aplicação de processamento paralelo visando a efetuar a contagem dos animais. O sistema devolve uma matriz de comandos criptografados que, no laptop do mancebo, abre 14 bancos de dados e 60 planilhas cheias de logaritmos neperianos, curvas de Gauss e tabelas-pivô. O pastor permanece observando o cidadão, pasmo, sem sequer ousar imaginar a tempestade tecnológica que se desencadeia naquela maquineta infernal.

Depois disso, em poucos segundos, o sujeito imprime um relatório de 150 páginas em cores com sua mini-impressora de alta tecnologia. Com os papéis em mãos, respira fundo, põe novamente os óculos, vira-se para o pastor e diz, com certa empáfia: “Você tem exatamente 1.586 ovelhas aqui.” O pastor se empolga: “Está certíssimo, pode ficar com sua ovelha”. O rapaz se levanta e, com uma ginga de príncipe, faz sua escolha, pondo o animal cuidadosamente no banco detrás de seu Porsche.

O pastor franze a testa, olha para o camarada e pergunta: “Se eu adivinhar sua profissão, você me devolve o animal?” O sujeito olha para o relógio, faz uma discreta careta, examina o homem de cima a baixo e responde: “Sim, por que não?” O pastor diz então, na lata: “Você é um consultor de informática.” “Como é que você sabe?”, indaga o surpreso janota. “É simples”, responde o pastor. “Primeiro, você chegou aqui sem ter sido chamado. Segundo,você me cobrou um valor para me dizer algo que eu já sabia, e terceiro, você não entende nada sobre o meu negócio… E agora, poderia fazer o favor de me devolver o meu cachorro?” 

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