O que as baratas podem ensinar ao Tigelino tupiniquim e ao filho de BolsoNero?, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Tanto o filho do presidente quanto o general Villas Boas tratam o Brasil como se o nosso país fosse um território ocupado. No imaginário deles, os interesses e as manifestações de vontade da população brasileira podem ser silenciados ou ignorados.

O que as baratas podem ensinar ao Tigelino tupiniquim e ao filho de BolsoNero?

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Em virtude do cerco diplomático ao Brasil por causa da bestialidade ecológica de Jair Bolsonaro ter incendiado a floresta amazônica, o filho dele e o general Villas Boas esboçaram reações violentas no Twitter.

O candidato a diplomata Eduardo Bolsonaro chamou o presidente francês de idiota. O general aposentado disse que a soberania brasileira está sendo ameaçada.

Antes de comentar essas reações, transcrevo aqui um fragmento do relato que Celso Amorim fez de uma de suas viagens ao Oriente Médio durante o governo Lula:

“O ministro do Exterior, Riad Malki, havia chegado naquela madrugada de uma reunião com a União Europeia em Malta. Malki, com quem mantive contato constante até o fim da minha gestão e mesmo além dela, é um homem de modos amenos e formação técnica. Como a maioria dos militantes palestinos, o ministro havia passado pelas prisões israelenses. Sua conversa valeu, sobretudo, como uma ilustração viva das dificuldades e humilhações impostas pelos ocupantes israelenses à população palestina. Contou-me, por exemplo, que, certa vez, quando se deslocava entre sua casa e a universidade, situada em cidades próximas, porém isoladas entre si, um soldado israelense ‘quase um menino’, pôs-se a verificar seus documentos de forma arrogante. Malki resolveu fitá-lo intensamente. O jovem militar não suportou o olhar do professor, que poderia seu pai ou avô e, descontrolado, ordenou-se aos gritos: ‘Você não pode me olhar, tem que olhar para o chão’. A história me fez lembrar outra, de amargo sabor kafkiano, que ouvira do ministro jordaniano na véspera, ele próprio descendente de palestinos pelo lado do pai. Nesse caso, não se tratava de uma experiência direta, mas do conteúdo de uma carta dirigida à mãe por um prisioneiro palestino em Israel. O bilhete, cujo original estava sobre uma escrivaninha do ministro, começava mais ou menos assim: ‘Mãe, você pode achar que estou ficando louco, mas devo dizer que estou começando a me relacionar com os insetos.’” (Teerã, Ramalá e Doha – memórias da política externa ativa e altiva, Celso Amorim editora Benvirá, São Paulo, 2018, p. 217/218)

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A reação francesa à destruição programática da floresta amazônica levou o idoso general Villas Boas a fazer uma demonstração de arrogância típica dos soldados jovens. O Twitter dele, entretanto, não passa de uma artimanha para desviar a atenção do respeitável público. Macron não ameaçou a soberania do Brasil, mas apenas defendeu os direitos ecológicos da mãe terra que estão sendo ameaçados pelo novo sistema de poder brasileiro.

Villas Boas reintroduziu a soberania no debate nacional no exato momento em que ela está sendo ativamente destruída por Jair Bolsonaro, presidente que doou a Embraer à Boeing, que submeteu o Itamaraty ao Departamento de Estado dos EUA e que se prepara para entregar aos estrangeiros o que restou do pré-sal e todas as empresas públicas que foram construídas com o sangue, suor e lágrimas de várias gerações brasileiros. Portanto, o que o general aposentado realmente pretende é fazer os cidadãos do Brasil olharem para o chão enquanto aceitam o jugo tirânico de um incendiário que pretende transformar o Brasil num apêndice do decadente império norte-americano.

Alto lá general de pantufas. Nós olhamos para o futuro enquanto você olha só consegue olhar para o passado. Sai de cena com elegância e fique quietinho no seu canto. Caso contrário você será humilhado ao lado do seu pupilo.

Se quer realmente ser um diplomata, Eduardo Bolsonaro poderia começar estudando a obra de Celso Amorim. Isso o faria tratar os líderes mundiais com a dignidade adequada ao cargo que ele pretende ocupar sem ter formação adequada. Ninguém, nem mesmo um adversário político, merece ser tratado como se fosse uma barata. Ao ofender verbalmente o presidente da França, a única coisa que o filho do tirano conseguiu foi se rebaixar à condição de um inseto que pode e deve ser solenemente ignorado.

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Tanto o filho do presidente quanto o general Villas Boas tratam o Brasil como se o nosso país fosse um território ocupado. No imaginário deles, os interesses e as manifestações de vontade da população brasileira podem ser silenciados ou ignorados. O comportamento de ambos durante essa crise não vai aliviar a pressão interna e externa sobre o presidente eleito de maneira fraudulenta espalhando Fake News.

Em razão de ter incentivado o incêndio da Amazônia, Jair Bolsonaro começou a ser chamado de BolsoNero por seus adversários políticos. Não sei se o título faz justiça a Nero Claudius Cæsar Augustus Germanicus, pois o imperador romano incentivou as artes e pacificou o império e Bolsonaro é incapaz de fazer as duas coisas. Mesmo assim, não posso deixar de registrar uma ironia.

Se Bolsonaro é o Nero da botocúndia, Villas Boas deve ser considerado um verdadeiro Tigelino tupiniquim. Afinal, foi aquele general que esfaqueou a pátria mãe gentil no útero ao ameaçar o STF para garantir a chegada de BolsoNero ao poder. O candidato a diplomata que se cuide, pois aquele imperador romano não deixou descendentes.

No mais, a história seguirá seu curso. Caso se apoie exclusivamente nos militares para continuar incendiando a floresta amazônica enquanto queima as riquezas nacionais numa liquidação, o capitão motosserra selará seu destino. E quando a França decidir bombardear Brasília o povo brasileiro vai aplaudir os aviadores franceses. Même les cafards sont de meilleurs compagnons que Bolsonaro, ses enfants et ses généraux.