O retrocesso subiu a rampa, por Mário Lima Jr.

Evaristo Sá/AFP

O retrocesso subiu a rampa, por Mário Lima Jr.

Nossos maiores cientistas sociais veem o Brasil como um lugar de natureza e mistura racial exuberantes, berço da criatividade onde a empatia domina as relações humanas, embora o país sofra pela violência e pela pobreza. Para tristeza de quem sonha com desenvolvimento e respeito à identidade brasileira e ao meio ambiente, nada do que essencialmente compõe o Brasil foi mencionado no discurso de posse do homem que será Presidente da República pelos próximos quatro anos. Jair Bolsonaro preferiu dizer que a bandeira nacional jamais será vermelha e discursou contra o socialismo como um chefe militar da ditadura.

Com mais de 60 mil assassinatos por ano e 27,6 milhões de desempregados e subutilizados, não se esperava um pronunciamento eufórico à nação, mas uma proposta realista. Bolsonaro nos conduziu de volta a um tempo de polarização e medo e parece sentir prazer fazendo isso. As palavras do presidente confortam ninguém mais do que os ávidos por vingança, vingança por terem permanecido longe do poder desde que João Batista Figueiredo deixou o Palácio do Planalto.

Nos regimes mais cruéis, tiranos tentam impor sua opinião sobre os fatos e afastam o povo da verdade. Na Ilha de Marambaia (RJ), dias antes de tomar posse, vestindo bermuda e calçando chinelo, Bolsonaro afirmou que o golpe de 64 livrou o Brasil do socialismo (temporariamente, pela ótica bolsonarista). A verdade é que nenhum historiador sério defende essa tese, apenas pessoas pequenas, violentas, racistas e retrógradas ou completos ignorantes a respeito do passado do país, condição em que o presidente não se encaixa. O momento apresentava aguda instabilidade política, mas quem manchou a história nacional foram os militares golpistas armados, inicialmente contando com forte apoio da sociedade civil.

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A ditadura oprimiu o povo durante 21 anos. O direito ao voto e a liberdade de expressão foram extintos. Seres humanos foram violentados com as práticas mais cruéis e abjetas existentes no mundo da maldade. Usadas como ferramentas descartáveis de repressão política, crianças a partir de 1 ano e 8 meses de idade sofreram tortura na frente dos pais. A este regime os novos presidente e vice-presidente declaram devoção.

O esforço para que um governo autoritário jamais acontecesse deveria ter sido constante. O ódio não pode receber homenagens de representantes populares, como Bolsonaro fez no voto pelo impeachment de Dilma Rousseff. Quando o general Mourão assinou o termo de posse no dia primeiro de janeiro, transformaram a Câmara dos Deputados em um quartel do Exército gritando “Selva!”. O vice-presidente respondeu com um sorriso sarcástico. O Brasil retrocedeu. A cegueira da hierarquia e da disciplina militar assumiram o poder, ao invés de exemplos de cidadania.

O Brasil dá um passo a frente quando elege, para qualquer cargo público, homens e mulheres que amam nossa identidade, expressa na figura do índio, do quilombola e no sangue europeu espalhado pelo território. Pessoas que não praticam ideologia barata contra inimigos imaginários, mas que compreendem que não se promove dignidade social sem valorizar as raízes de um povo.

 

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