Os Brasis: no tempo das “Diretas Já!”, por Arkx

Os Brasis: no tempo das “Diretas Já!”, por Arkx

naquele Domingo 28-MAI, quando Milton Nascimento começou a cantar “Coração de Estudante”, um dos hinos da campanha das “Diretas Já!” em 1984, já escurecia e a noite se misturava à névoa, que tomara por completo a orla da praia de Copacabana.

com a voz cristalina atravessando um cenário onírico, era impossível não sentir uma estranha força no ar. o tempo presente correndo ao redor daquela multidão, criando um poderoso redemoinho para conectar dois momentos históricos. separados por 33 anos, ali flutuavam lado a lado, suspensos na bruma e numa dobra do tempo: 2017 e 1984.

a História narrava a si mesma, nos desafiando a decifrá-la, como uma profecia instantaneamente realizada. para nos fazer compreender que a vida nada mais é do que as histórias que vivemos. e que as vivemos para serem contadas. e mais uma vez serem recontadas, como parte de outras histórias. compondo uma história sem fim.

a multidão fazia a História. ainda assim, era a História quem impunha suas próprias circunstâncias. exigindo uma imediata atualização de atores, personagens, papéis, cena e enredo.

as ações superam os atores, pois estamos todos lançados num mundo que devemos construir. o que só tornamos possível se amarmos o exercício acima dos resultados. já que todo resultado é uma ilusão frágil que nos acomoda e enfraquece. seja pelo ressentimento de não atingi-lo, seja pelo conformismo diante da ilusão de ter atingido.

a figura do profeta era a do líder político de cinquenta anos atrás. mas hoje já não é possível um discurso que se projete no futuro. é preciso dialogar com o kairós, o tempo intenso do acontecimento.  o profeta fala do futuro, e não o faz em seu nome, mas em nome de outros. o parresiasta fala em seu nome e deve sempre se referir ao presente, ao tempo do agora.

a ação não é uma opção, é uma exigência para nossa sobrevivência. pois esta tornou-se uma questão chave, já que no atual estágio do capitalismo financeirizado somos todos descartáveis. é desnecessário um exército industrial de reserva.

se a biopolítica colonizou até os menores aspectos da existência, contra ela só dispomos da biopotência: uma indomável vontade de viver. há que se cuidar da vida. há que se cuidar do mundo. tomar conta da amizade.

em seu incessante processo de mercantilização da vida, Das Kapital encontrou o seu limite. existe algo que jamais será convertido em mercadoria: o Tempo. é possível vender e comprar tempo de trabalho, e até mesmo tempo de vida.

mas o Tempo, ele mesmo, é inegociável. é tudo o que temos, mas não nos pertence. o que é um corpo? ou indagado de outra forma, quem somos? somos um corpo que sente. penso, logo existo? nem tanto. sinto, logo estou vivo!

e como experimentamos a Vida? através do Tempo.

agora, o tempo da resistência chegara ao fim. começaria o árduo e longo caminho da re-existência. a luta para gerar um outro futuro, não mais como estava suposto a ser.

se já não restara pedra sobre pedra, foi justamente com estas pedras, e entre os escombros, que conseguíramos resistir. e seria com estas pedras da ruína de nossa derrota que fincaríamos o alicerce de nossa vitória.

o que propomos: um outro jeito de viver. uma vida que valha a pena ser vivida.

vídeo: Milton Nascimento – Coração de Estudante – Apoteose 1984

https://www.youtube.com/watch?v=urWOKX2LpI0]

vídeo: Milton Nascimento – “DIRETAS JÁ!”- Copacabana 2017

[video: https://www.youtube.com/watch?v=xqVwtJdWcLY

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