Paralelos entre o externo e o interno, por Mariana Nassif

Paralelos entre o externo e o interno – e o inferno, definitivamente, são os outros, mas a gente também se queima

por Mariana Nassif

Essas duas últimas semanas não estão sendo fáceis. Não, não é só pra mim: observar, incrédula, a liberação do facismo aqui e acolá tem sido deveras exaustivo para todos que conheço – sorte e critério, enorme parte das pessoas que me cercam estão preocupadas com o país que estamos construindo. 

Numa esfera mais íntima, tenho tomado determinadas rasteiras que, olha, só por Deus. oyá, a mãe que me guia, parece estar soprando uma ventania de “resolve aí, minha filha” e eu, filha honrada que sou, tento dar conta. Vez ou outra, entretanto, eu surto. Meus surtos, pprém, andam bastante silenciosos, o que tem trazido de volta sensações físicas que adormeciam. Enquanto lido com elas nesse novo formato, ecoa uma frase daquele amigo amado, meu querido e adorado, que dá conta do resultado de um tempo onde eu não fazia minhas próprias escolhas. 

Nossa, como foi importante escutar isso. 

Primeiro pra definir contornos de que esse tempo já passou. Custou muito, muito dinheiro em terapia inclusive, além da reordem energética e determinada de cuidar de Orí, minha prórpia cabeça, que é anterior ao Orixá. Beijos, ficou no passado, mesmo que ainda colha frutos do que quer que aquilo tenha sido. Segundo e não menos importante, pra dar conta de fazer e realizar novas escolhas, agora que conscientemente compreendo que os ecos ressoam lá na frente, com potência e força proporcional ao momento em que foram feitas. E sim, sou intensa. 

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Uma das situações que venho enfrentando sem o menor enfrentamento dá conta de emoções que definitivmente não me dizem respeito. Já escrevi, avaliei, senti, dei tempo ao tempo e não, não mesmo, isso não me pertence. Acontece que não reagir, atuando como parede para me privar do envolvimento com essa vibe ruim, é, além de novo, extremamente incômodo. Ah, como é mais fácil agir impulsionada pelo ódio. Nossa, e como eu tenho ódio. Sinto na pele e isso passa para a ponta dos dedos, trazendo uma força física fenomenal pros braços, pronta pra guerrear. Respiro, reflito e deduzo: não é assim que quero lembrar desse período lá na frente. 

A realidade é que vivo uma história de amor, um amor grande, importante, e como bem disse meu par nessa empreitada, “sentimentos assim carecem de cuidado e paciência”, mesmo que a gente não saiba o que vem pela frente. Ai, como é bom trabalhar junto por aquilo que a gente quer. Essa história de amor pode não ser perfeita, já somos de certo calejados pra esperar isso, mas sabemos, também, que se alimentarmos aquilo que acreditamos, é deste solo que virãoo as flores – as minhas, as dele e as nossas, essas que ainda nem chegamos a plantar direito e que já sofrem interfrência do externo. 

Externo. É aí que esse ódio vai morar. Fora de mim, fora das minhas escolhas, fora dos meus movimentos. 

Paralelos com o que acontece no atual momento político, ah, como seria bom se cada um daqueles que usa o ódio como motor de escolha pudesse enxergar lá na frente, neste caso durante os próximos quatro anos, e sentir na pele a vergonha de não conseguir embasar voto e ação no amor, na crença de que independente do que seja o bem, mesmo que a gente não consiga ver e sentir ou até mesmo pegar, e por este motivo escolhe o mal. 

Já estamos crescidos demais pra isso e, sim, se você tem idade pra votar, pode muito bem refletir sobre isso. Porque diferente dessa minha história pessoal, os ecos dessa escolha feita com ódio ao que já foi vai prejudicar o externo sim, mas muito, muito mesmo, cada um de nós, intimamente, e não é possível que isso seja tão sofisticado assim que ninguém consiga enxergar. 

3 comentários

  1. Sempre existira aqueles que resistirão e reagirão

    O jornal Libération publicou dia 23 uma reportagem vinda da Agence France Presse na qual tentam entender porque gays e mestiços ou negros vão votar em Bolsonaro. Não falaram em mulheres porque são tantas também… Enfim, muita gente vai votar sem essa percepção. Um dos entrevistados, cabeleireiro e gay, diz que “Bolsonaro não tem a maldade que dizem ter”.  Outra pessoa disse à uma conhecida que “Bolsonaro é do bem”. Fico pensando que os nossos valores definitivamente não são os mesmos.

    Vamo bora, Mariana. Felicidades a você e ao que vira.

  2. A vida é um fenômeno

    A vida é um fenômeno biológico temporário que independe das nossas emoções. Nós podemos nos tornar prisioneiros delas (e do hábito de analisá-las) ou simplesmente ir vivendo e sendo tão felizes quanto for possível, sempre ajustando nossas demandas internas às limitações importas por um mundo que certamente nunca irá girar em torno de nossas emoções.  

  3. .

                                                              

     

    O presente no Universo é o equilibrio, é a harmonia a eternidade.

    Por mais que nós seres imperfeitos e limitados, diante da hecatombe, to trovão e da tempestade, acreditamos no final do mundo, este invariavelmente se renova.

     

     

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