Paulo Arantes, Crítico de Lula e Nem um Pouco de FHC, por Jorge Alberto Benitz

Depõe contra o Paulo Arantes de 1997 este antipetista de 2017 que amacia quando fala de FHC e endurece quando fala de Lula e o PT.

Paulo Arantes, Crítico de Lula e Nem um Pouco de FHC

por Jorge Alberto Benitz

    Vendo uma palestra de Paulo Arantes onde era homenageado Roberto Schwarz percebi que ele desancou Lula e todos os desenvolvimentistas que, segundo ele, são populistas com tudo de negativo que isso representa para os paulistas desde que Francisco Weffort, o vira- casacas que se bandeou para o lado dos tucanos depois de fundar o PT, publicou seu livro O Populismo na Política Brasileira”. Falando em populistas, a ojeriza de muitos intelectuais paulistas – felizmente não todos –   a Vargas ficou plasmada com a frase de FHC ao expressar que seu objetivo era “acabar com a era Vargas”. É um ranço que parece vem desde a revolução de 1932 quando a plutocracia paulista, defensora do Brasil colonial agroexportador, tendo como carro-chefe o café, foi derrotada pelas tropa s de Vargas e dos tenentistas.

    Para piorar, Paulo Arantes, saiu em defesa do colega e/ou amigo FHC que, segundo ele, é alguém “bem intencionado”, “foi coerente com seu pensamento”, “engajou- se com o seu saber”. Portanto, nenhuma crítica a um dos maiores responsáveis pela destruição não só da soberania do pais, vendendo por trinta dinheiros o patrimônio nacional, e retirando direitos duramente conquistados pelos trabalhadores e funcionários públicos, enfim, representando com uma contundência assustadora o entreguismo e a defesa dos rentis tas como nunca antes foi feito por governos anteriores, mesmo os de direita.  Enfim, a depender de sua opinião o Lula é um famigerado e horrendo populista da pior espécie e o FHC um coroinha cândido e nada envolvido com tenebrosas transações e defesa do pior de nossa elite rentista e entreguista. Alguém que somente põe em prática seu pensamento anódino e inofensivo. Não sei se sua opinião está pautada pelo internacionalismo marxista, que se lixa para a questão nacional, pelo puro paulistanismo antivarguista, corporativismo acadêmico, amizade com FHC ou um combo de tudo. 

    Paulistanismo em tudo diferente da grandeza de um Antônio Candido que pensava o contrário tributando a Getúlio Vargas, pelo menos ao que ele chama de segundo Getúlio, um papel importante na industrialização e na transformação do Brasil para um patamar  civilizatório maior do que o instaurado durante a republica velha vide link https://www.sul21.com.br/opiniaopublica/2016/08/sempre-antonio-candido-por-jorge-alberto-benitz/. A propósito, o corporativismo e a amizade com FHC não foram obstáculos para Antônio Candido ser fundador do PT e até o fim da vida alguém comprometido com as bandeiras progressistas e democráticas do Partido, inclusive, manifestando apoio nas duas eleições de Dilma Roussef para Presidente da Rep&u acute;blica e enviando carta manuscrita de apoio a Fernando Haddad, talvez, seu último ato político público.

    De minha parte, fica escandaloso comparar o tom conciliador e passador de pano de Paulo Arantes se cotejadas com as revelações, dando conta de um passado não tão decoroso e isento de FHC, demonstradas por Palmério Dória no seu livro Príncipe da Privataria com opinião, por exemplo, que vale a pena ser transcrita na integra de figuras intelectuais respeitáveis como Barbosa Lima Sobrinho demonstrando um perfil em tudo diferente de FHC desde priscas eras. Nele Barbosa Lima Sobrinho, o decano dos jornalistas, narra o seguinte:   

    “O pai de Fernando Henrique, General Leônidas Cardoso, e o tio, general Felicíssimo Cardoso, eram nacionalistas. Seu pai, eleito deputado federal com apoio dos comunistas – que estavam na ilegalidade- desempenhou seu mandato inspirado  em ideais nacionalistas. O filho, atual presidente, não honrou o  nome do pai nem da família. Empregou o genro numa agencia empenhada numa politica declaradamente antiPetrobrás.

    Gostaria de contar uma história: Em 1968 houve uma reunião da Campanha Nacional de Defesa da Amazônia na casa do general Felicíssimo Cardoso, presidente da comissão, tio do atual presidente. Participavam Henrique Miranda, hoje diretor da ABI, o general Carlos Hesse de Melo, os professores Alvércio Gomes e Orlando Valverde e a geografa Irene Garrido. Todos foram testemunhas. Discutia- se a redação de um documento de defesa da Amazônia e Henrique Miranda sugeriu que se mandasse o texto para Fernando Henrique, em São Paulo, para que ele divulgasse e colhesse mais assinaturas. Aí o general Felicíssimo Cardoso disse: “Pode Mandar, Miranda, mas este meu sobrinho não é de confiança. “Concordo com a opinião dele.”( Arremata Bar bosa Lima Sobrinho).
Livro Príncipe da Privataria, escrito pelo Palmério Dória, Editora Geração, nas paginas 321-22 que mostra que vem de longe este espírito antinacional e entreguista de FHC.

    Um perfil que colide com o tom edulcorado e brando de Paulo Arantes na conferência de 2017 durante a homenagem a Roberto Schwarz que parece, como FHC, ter esquecido tudo que escreveu, em 1997, no seu duro e ácido livro “Dicionário de Bolso do Almanaque Philosophico Zero à Esquerda: primeira dentição, ano III da era FHC”. Um estilo edulcorado e brando que evoca, guardadas as devidas proporções, a máxima dita por um governador mineiro nos anos 1920, constante do livro de Pedro Nava “ Aos amigos pão  – de- ló. Aos inimigos, o rigor da lei”.

    Depõe contra o Paulo Arantes de 1997 este antipetista de 2017 que amacia quando fala de FHC e endurece quando fala de Lula e o PT. Usa o seu capital cultural inegável conseguido graças ao rigor e profundidade acadêmico que demonstrou ao escrever livros importantes, que li com prazer, como o Dicionário antes citado, O Ressentimento da Dialética,  Formação e desconstrução Uma visita ao museu de ideologia francesa e outros que não me ocorre agora, para emitir opiniões que tangenciam, se aliam,  no quesito agressividade e ódio antipetista, as de qualquer um leitor comum da mídia dos coronéis midiáticos. A crítica a Lula poderia ser enquadrada como mais uma crítica vinda da do campo da esquerda se não viesse acompanhada desta defesa desbragada  ao FHC. Que régua ele usa para igualar e até ver como mais nocivo ao povo, ao pais e a democracia Lula e o PT ao FHC que, candidamente, para ele parece ser um intelectual coerente, que só quer engajar seu saber no andar do mundo e que não tem nada digno de crítica. Posição distante e antagônica ao seu cunhado José Luís Fiori, a quem tive a oportunidade de assistir uma palestra na extinta FEE (Fundação de Economia e Estatística) do RS – Não por acaso extinta pelos que defendem, como FHC, o neoliberalismo – onde falou sobre a sagacidade e visão larga de Lula que conduziu o Brasil com sua diplomacia a um pata mar de destaque no mundo.

    Pensei em elaborar com mais vagar este texto, mas resolvi deixa- lo assim por corresponder a minha indignação com este tipo de intelectual que nesta hora difícil que passamos resolve posar de dono de uma atitude olímpica equidistante de tudo que corresponda a política real com toda a sua carga de acertos e erros, que sei houveram e muitos, mas nunca a ponto de levar alguém a cometer disparates tão imensos como o perpetrado por um pensador respeitado capaz de influenciar muitos jovens e não tão jovens que admirados com o seu saber acadêmico se deixam encantar pelo que me parece ser um combo do pior do  corporativismo acadêmico, paulistano, misturado com amizade pessoal e cegueira ideológica. Cegueira ideológica no sentido dado por Norberto Bobbio quando diz que a ideologia, muitas vezes, serve mais  como obstáculo do que instrumento para apreender a realidade. 

Jorge Alberto Benitz é engenheiro e escritor.

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2 Comentários

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abelardo

- 2021-11-28 15:28:50

Cego é quem vê só aonde a vista alcança ou não tem a coragem de quem realmente merece respeito por suas palavras, pensamentos e atitudes. Não bastasse a aceleração da destruição nacional, pós ditadura, por FHC e o PSDB, basta pesquisar, analisar e comparar o que "já foi um dia São Paulo" e que se tornou hoje, graças ao PSDB e sua bancada/clube de amigos, parceiros e, financeiramente, bem sucedidos capitalistas.

ed.

- 2021-11-28 14:51:57

Neste mar (ou seria pântano?) de candidatos à presidência, somente dois têm interesse pelo país como nação (espaço e gente): Ciro e Lula. O primeiro até hoje parece não ter aprendido a fazer campanha. Competente como poucos, mas não sabe fazer política, ainda que positiva, sem dispor de poder coronelístico que lhe dispense da inescapável negociação política. O segundo, um reconhecido gigante da política nacional e internacional, desde os tempos da ditadura e da negociação com gigantes multinacionais, está preso ao respeito que tem pela democracia e republicanismo que os adversários só toleram se for a seu próprio favor e da obediência histórica aos interesses estrangeiros, neste último torrão valiosíssimo ainda não soberano do planeta. O resto, em todos os setores de poder deste pobre rico país é formado de capatazes, corretores e larápios oportunistas que infestam o inacreditavelmente submedíocre "topo" de nossa sociedade. Depois de décadas de tentativas, parecemos como moscas cada vez mais enredadas numa teia de interesses que nunca foram os nossos.

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