Política é o que acontece entre o Paraíso e o Apocalipse, por Rita Almeida

Política é o que acontece entre o Paraíso e o Apocalipse

por Rita Almeida

Ao que parece, o Fim do Mundo, que tinha data marcada para este fim de semana, foi cancelado mais uma vez.

A primeira profecia Apocalíptica que ouvi falar foi no catecismo, só não se sabia quando seria: Vigiai, pois ninguém sabe o dia e nem a hora, dizia Mateus (13, 35-37). Contrariando a profecia bíblica, no entanto, marcar data para o fim dos tempos tem tido mais periodicidade do que a Copa do Mundo. Volta e meia temos uma agenda e uma teoria para fundamentar o ocaso, mas até hoje, nada.

Mas, se por um lado, o futuro está fadado ao Apocalipse, ao passado endereçamos toda nossa nostalgia saudosista. O passado sempre nos parece melhor, mais interessante e mais feliz. Tal como no filme Meia-noite em Paris, de Woody Allen, o presente nos parece sempre um lugar desconfortável, por isso, não nos cansaríamos de retroceder para viver num tempo passado, cada vez que nos fosse dada tal oportunidade. Vemos isso sempre nas nossas conversas cotidianas, naquele discurso sobre o quanto “nossa época” era melhor que “a de hoje”. E é curioso que atribuímos “nossa época” à infância ou juventude, como se o agora não nos pertencesse mais.

Repetimos assim, a trajetória presente no drama bíblico: no passado temos o Paraíso, no futuro, o Apocalipse. Nessa sensação nostálgica de que o passado abriga sempre uma vida melhor e mais feliz, temos uma prisão imaginária, que sempre carrega consigo uma outra prisão imaginária: a de que o futuro só cabe temer e esperar o pior. Mas o fato é que a vida acontece, de verdade, é nessa pequena fresta entre o Paraíso e o Apocalipse.

Freud dizia que nossa existência é marcada pelo mal-estar, ou seja, nosso desarranjo com a existência é algo inevitável, já que é inerente à condição humana. Sempre foi assim e sempre será assim. Isso quer dizer que o passado também abrigava seus mal-estares. Talvez seja apenas o distanciamento de tal passado que nos permita idealizá-lo a ponto de acha-lo mais colorido do que realmente deve ter sido. O futuro também terá seus próprios mal-estares, que ainda não conhecemos e, talvez, por isso, nos assombrem tanto. Sobrevivemos aos mal-estares do passado então, podemos tranquilamente romantiza-los, o que não é possível fazer com mal-estares que nem mesmo conhecemos. 

Mas minha proposta aqui é interrogar essas duas prisões imaginárias partido de um texto de Walter Moser – professor de literatura comparada da Universidade de Montreal – chamado Spaizet, que achei bastante potente. A proposta do texto é a de que estaríamos vivendo o tempo do Spatzeit; um momento de declínio, de perda de energia, de decadência, de saturação da Modernidade. Sabemos que a Modernidade desbanca o homem de suas certezas teológicas e é responsável por instaurar três grandes feridas narcísicas na humanidade: com Copérnico o homem não é mais o centro do universo, com Darwin o homem não é mais o centro da criação e com Freud o homem não é o senhor do seu próprio Eu. No entanto, se por um lado a Modernidade arrancou o homem do seu lugar de obra divina a ser resgatada pela salvação transcendente, por outro lado, prometeu a mesma salvação, desta vez por meio da ciência e das utopias de um Estado ideal. Mas, afinal, tais promessas de salvação oferecidas pela Modernidade também não foram cumpridas. E diante da sensação de decadência dos ideais modernos vivemos entre duas possibilidades: uma nostálgica, de que o passado era maravilhoso e promissor, ou uma melancólica, que pressente uma catástrofe iminente no futuro. Moser nos convida, entretanto, a tomar consciência de Spatzeit, ou seja, compreender a particularidade desse momento de esgotamento, de morte de uma era que levará ao surgimento de outra. Apenas tal consciência nos resgataria da paralisia trazida pelas prisões imaginárias no passado e no futuro. 

Independentemente do fato de estarmos experimentando o declínio da Modernidade, escapar do imaginário sempre nos deixa mais abertos para as contingências que se apresentam, porque nos descola do ideal e da moral, desse modo é possível fazer um uso mais potente e criativo do presente real, e das possibilidades e instrumentos que este oferece. O ideal é sempre moral, nesse sentido, porque está preocupado em como as coisas deveriam ser ou deveriam ter sido, e não em como elas realmente são.

Nesse momento tive vontade de rasgar /deletar este texto, porque ficou me parecendo um guia de autoajuda budista. Apesar de gostar muito dos preceitos budistas, minha intenção aqui não é propor um guia de conduta individual – viva o presente – mas, potencializar nossa ação política em direção ao real. Uma política comprometida com o real é aquela que não se ocupa nem de perseguir o Paraíso e nem em temer o Apocalipse. Real aqui não se confunde com a realidade, trata-se daquilo que resiste à idealização, às normatizações e à moralidade; real como aquilo que é, do jeito que é.

Retomando o termo de Moser, podemos dizer que o Brasil vive especialmente um tempo de Spatzeit. Vivemos o declínio, senão a derrocada, da república, da democracia, e de todas as instituições que sustentavam nossa sociedade. Diante disso, temos visto nossa política ser arrastada para essas duas vertentes imaginárias citadas acima. Uma bastante apocalíptica que sobrevive insuflando o medo – as esquerdas temem um golpe militar ou a ascensão de um governo fascista e a direita teme a “venezuelização” ou “cubanização” do país. E outra sustentada num ideal paradisíaco. Nesse caso, a meu ver, esquerda e direita perseguem hoje o mesmo paraíso: a política sem corrupção. E o trágico é que esse ideal higienista tem atravessado a nossa política de modo a inviabilizá-la por completo, na medida em que é impossível pensar numa política que esteja totalmente imaculada pela corrupção num mundo totalmente comandado pelo dinheiro, e eu não estou falando só de Brasil (leiam Alain Badiou).

O que eu estou querendo pensar com este texto é que, se esperarmos que o Paraíso da política imaculada, pura, limpinha, cheirosa e sem corrupção chegue para que, somente depois, nos movimentemos para refundar o Brasil, ficaremos paralisados na dimensão de um impossível; tal Paraíso não existe. A Lava-jato – o nome é bem apropriado para o higienismo que ela persegue – não lavará nossa política completamente. Por outro lado, fazer política sustentada no medo é fazer o pior tipo de política. Massas apavoradas demandam um mestre forte. O medo generalizado é que abre brechas para a ascensão de governos fascistas e de extrema direita.

Assim sendo, a política que precisamos para atravessar os tempos sombrios em que vivemos, precisa estar apartada do Paraíso e do Apocalipse. Nada de multiplicar o medo e nada perseguir ideais. Precisamos mover a política partindo daquilo que é, ou daquilo que somos ou daquilo que temos. E eu torço para que as esquerdas percebam isso o quanto antes. Que a direita se aprisione em ideais moralistas é totalmente esperado, mas das esquerdas esperamos mais, obviamente. Das esquerdas esperamos uma política comprometida com o real, uma política que assuma a impossibilidade de ser perfeita e que seja apenas a possível. 

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3 comentários

  1. Novo golpe Globo/ Judiciário: candidatos (midiáticos!) “avulsos”

    Novo golpe Globo/ Judiciário: candidatos (midiáticos!) “avulsos”

    Quer dizer…

    Não são “candidatos midiáticos”, não, sabe…

    São apenas… hmmm… “pessoas da sociedade” (!) …

    “De fora da (‘maldita’) política” (!), entendeu?

    Sei… ¬¬

    Por Romulus

    O juiz que liberou a candidatura avulsa deve ter baseado a decisão naquela tese da Flávia Piovesan…

    (de ANTES de a Doutora se vender ao Golpe por uma cadeirinha na Corte Interamericana de Direitos Humanos)

    – … tese de que tratados de direitos humanos seriam internalizados com a força de emenda à Constituição.

    Certamente o dispositivo constitucional requerendo filiação partidária para sair candidato NÃO é cláusula pétrea.

    O problema é que essa tese de Piovesan perdeu força depois da promulgação da Emenda Constitucional 45, que acrescentou mais um parágrafo ao Art. 5o (das garantias e direitos individuais, a nossa “bill of rights”).

    O tal parágrafo prevê que tratados de DDHH (Direitos Humanos) terão, sim, força de emenda à Constituição…

    MAS…

    – … nesses casos requer o MESMO quórum de aprovação de emendas (3/5; 2 turnos).

    – E não a maioria simples da aprovação de tratados em geral (igual ao de leis ordinárias).

    Esse tema em particular, da candidatura avulsa, vai ser decidido pelo STF mesmo.

    Com meu ex-Professor Luis Roberto Barroso – sempre ele! – como patrono de (mais uma) tentativa de assassinato da (classe) política.

    Isso porque a dúvida sobre o status dos tratados de DDHH internalizados ANTES da EC45 permaneceu.

    E isso inclui a Convenção Interamericana de DDHH!

    É com esse “limbo jurídico” que os juristocratas (Barroso à frente) e a Globo querem jogar.

    Digo, GOL-PE-AR!
     

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  2. “Puxando a linha do meu passado, o carretel da uma volta soh”

    Tenho refletido sobre o mal-estar existencial e aqueles outros mal-estares que somamos ao longo da vida. Muitas vezes lançamos aos outros aquilo que não conseguimos edificar. Na politica também tem sido assim. Mas não vejo a Direita como portadora da moralidade publica. Ela é apenas porta-voz do moralismo e dos “bons costumes”, mas dentro dela, sempre foi amoral, aética e pouco escrupulosa com o bem publico. Ela é moralizadora, porém pouco afeita à mesma. A propria Lava jato é apenas uma porta-bandeira do moralismo de ocasião, onde cada procurador, juiz e advogados, procuram tirar o maximo desse Pais em transe. E penso também que a esquerda e parte da socieade ja entenderam o movimento e a procuram saidas para a catarse social que vivenciamos.

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