Política para além do umbigo, por Rita Almeida

Política para além do umbigo, por Rita Almeida

A política é uma ética que tem como objetivo cuidar dessa tensão que não cessa entre os interesses singulares, ou de um seguimento da população, e o coletivo da sociedade. É a arte de propor, negociar, organizar ou governar em favor da tessitura e da manutenção do tecido social.

A política abriga, assim, um paradoxo interessante: quanto mais ela fracassa, mais ela se faz necessária. Se ela foi inventada para dar conta das dificuldades inerentes aos laços numa coletividade, quanto mais tais laços estão fragilizados mais precisamos dela. Nesse sentido, o Brasil da atualidade necessita fundamentalmente da política e seus movimentos.

Acredito que não nos falte tentativas de movimento na política. Entretanto, nossa dificuldade, eu suponho, tem sido compreender que qualquer movimento que se diz político precisa fazer laço para além de seus pares, seus iguais. Sem isso, ele declina da sua proposição mais fundamental, que é manter uma tessitura social comum, apesar das diferenças, tão presentes quanto desejáveis. A política foi inventada como modo de nos relacionarmos de forma civilizada para além do nosso gueto ou comunidade, apesar de qualquer divergência que se imponha. É por isso que, quando a política não funciona, sobrevém a guerra, ainda que sejam as pequenas guerras de facebook.

É claro que é possível fazer política partindo do laço com nossos semelhantes e afins, mas, caso isso não avance para fora do grupo de iguais, temos um movimento que nada mais é que o próprio umbigo ampliado. Um grupo que cuidará apenas de reforçar sua própria identidade, criar suas próprias convicções e verdades, ou inventar suas próprias cartilhas e modos de ser. Nesse caso, podemos chamá-lo de religião, de seita, mas nunca de movimento político. Aliás, é possível que isso caminhe para uma situação de não poder, nem mesmo, ser chamado de movimento, já que, a tendência será se endurecer na rigidez do ensimesmamento.

A política nasceu para nos tornar capazes de ir para fora, para além daquilo que nos é familiar. Trata-se de um tipo de laço carregado de ética, uma ética na qual a alteridade sobrepõe-se à mediocridade das nossas pequenas necessidades e demandas. Com efeito, a ética da política é uma ética corajosa, porque se permite atravessar pela alteridade, pela diferença do outro.  Eliminar o outro, afastar o outro, por sua vez, é a estratégia das guerras. Nesse sentido, a política é muito mais corajosa do que a guerra.

É por isso que a política não pode endurecer, se amalgamando a um dogma, moral, ou cartilha, tal como fazem as religiões. Ela precisa ser necessariamente laica, no sentido mais amplo que pode alcançar este termo. Precisa ser permeável e arejada. Precisa se dirigir para fora; para fora das suas convicções e interesses. Não por acaso grande parte das guerras que assistimos têm como pano de fundo divergências religiosas. Ainda que algumas delas façam função de religião, mesmo prescindindo de uma entidade transcendental.

Vou utilizar a filosofia nietzschiana, particularmente a do mestre Zaratustra, para metaforizar o lugar da política como campo de enlaçamento. Na política, não podemos ter receio de nos “sujar”, afinal, mover-se em direção ao outro é assumir, sim, o risco de se contaminar com ele. A esperança é que o outro também possa estar se contaminando conosco. A política não serve aos dogmáticos, aos puristas, aos moralistas e aos limpinhos e cheirosos. Para fazer política é necessário entender que, ou caminhamos juntos, ainda que por uma via possível que não seja a ideal – que eu, ou meu grupo, imaginamos – ou naufragamos todos.

Aproveito para declarar, sem titubear, meu voto a Luiz Inácio Lula da Silva. Hoje, ninguém nesse país entende e sabe fazer política como Lula. E o paradoxo que meu texto denuncia, explica por que ele é tão odiado quanto necessário nesse momento. Até que inviabilizem sua candidatura – e eu torço e rezo imensamente para que não – meu voto é dele.

Lula 2018

 

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