Por que (ainda) escrever: do ato político à responsabilidade pelo enunciar, por Eliseu Venturi

Imagem – Mira Schendel, Graphic object, 1967¹.

Por que (ainda) escrever: do ato político à responsabilidade pelo enunciar

por Eliseu Raphael Venturi 

“10. […] para burlar a idéia, o ídolo, o fetiche da Determinação Única, da Causa (causalidade e ‘boa causa’) e credenciar assim o valor superior de uma atividade pluralista, sem causalidade, finalidade nem generalidade, como o é o próprio texto” (Roland Barthes)²

Escreve-se porque se é excluído, se é esquecido, não se é ouvido, ou se é preterido constantemente. Fala-se por si e por outros. Há muitas falas em curso e poucos ouvidos atentos.

As forças em um jogo de poder nunca são generosas e sua generosidade é a armadilha para cooptar apoios, alianças, usos e descartes humanos. Tem sido o sacrifício e o rito depois das festas de partidarização.

Escreve-se porque há leitores, porque há destinos, porque há conceitos e há conexões possíveis. Há mensagens, veículos, meios, desejos, intenções, aspirações, processos de vida que não podem ser aprisionados nem na mente, nem no corpo, nem nos dedos. Nem nos livros, nas bibliotecas, nos artigos, nas redes, nos servidores.

Escreve-se pela “mesmidade” interior que demanda alguma tranquilidade da ilusão, para se prosseguir em uma identidade fadada à traição e ao esvaimento, pela repetição das mais caras palavras. Mas, também, pela descoberta das alteridades que redimensionam o próprio discurso que já adveio ele mesmo de outras conexões prévias. Uma continuidade sem linhagem.

A escrita nos joga e nos difere porque nos defronta e nos lança.  

Escreve-se para se localizar em um curso de mudanças, no centro de uma historicidade sem autores, e para se localizar por termos-chave neste mesmo turbilhão sem mapa. Escrever é se colocar, se diferenciar e se igualar, mas, sobretudo, se opor, dessujeitar, guiar por si, construir os rumos.

Escreve-se: porque se lê, se vê, se pensa, se escreve, embora sejam atividades completamente distintas, tencionam-se, repotencializam-se. Porque não se é indiferente ao mundo, seja lá qual for a sua extensão e domínio, e se está nele, hoje, vivo, há cuidado, há justiça, há pretensão. A escrita chama, demanda, provoca, inquieta, responde.

Escreve-se pela irritação com o que se tomam por erros, equívocos, desvios de trajetória, de finalidade e de deliberações. Porque a escrita almeja a correção e aceita o risco dos erros por todos os lados que se enleiam em suas linhas, e a escrita é tolerante e sensível à eficiência da comunicação, a beleza do destruir regras, quebrar cânones e depois disso tudo, comunicar.

Escreve-se porque se erra e se revisa, revisões sem fim, novas versões, novas escolhas, novas decisões, novas leituras que ameaçam ou fortalecem o passado na memória; se escreve para renovar e para manter vivo o discurso, a palavra, a voz aquecida. A escrita é a crença, fé sem deus, entrega sem espera.

Escreve-se por causa do poder, das suas relações de força em cordas de linguagens. Escreve-se, sobretudo, por causa das arbitrariedades, voluntarismos, ascendências, prevalências, discricionariedades. Das arbitrariedades que calam, sufocam, oprimem, subjugam, subestimam, retiram de vez a voz: excluem e eliminam, mas não sem antes um texto.

Escrevem-se nãos, nuncas, nem pensar, aqui não, chega, basta, fora, jamais.

Escreve-se porque se sabe o quanto as identidades são necessárias para se localizar exclusões, e como são, ao mesmo tempo, vertidas em destruidoras. O quão deslizante é o patamar das justiças, o quanto se querem produzir novas identidades supressoras, a todo momento, novos enclausuramentos, novos etnocentrismos, novas explicações históricas, novos sexismos. Pelo tamanho do mal hegemônico e pelo tamanho proporcional do mal contra hegemônico, escreve-se mais e mais.

Escreve-se porque há paixões, amor, ódio, e o discurso pulsa em busca de soluções, mas, sobretudo, em busca de novas perguntas e de novos problemas; o texto não é feito em pedra, é feito a partir da carne.

Escreve-se porque se morre, mas, sobretudo, porque viver é conhecer e conhecer é perguntar; a escrita permanece pelo tempo suficiente a não se perder no ar, a não se enrolar em outras vozes em cuja comunicação nem sempre há ética. A escrita retém um pouco da segurança do discurso, ao menos, nem que seja ao confronto, suscetível que é da interpretação.

Escreve-se porque se lê: a leitura obriga à escrita mental e à escritura dos dedos, por palavras ou por cores, por movimentos ou por novas vozes. Porque a leitura um dia salvou, obrigou a escrever, a devolver ao mundo o que ela trouxe, com um outro olhar, uma outra escrita.

Escrever é compromisso, é comprometimento, é escolha documentada e pública. Vincula-se ao que se diz, é exposição e sujeição pública à ofensa desconhecida, ao ataque anônimo, ao desapreço debochado, ao comentário irônico e maldoso, mas também ao frutífero diálogo distante, a soma e contraposição de argumentos, à revisão de crenças.

Escreve-se pelos lapsos, mas só se escreve verdadeiramente pela saturação mental. Escreve-se pelas imagens, mas, sobretudo, para destruir, desmontar, desconstruir e recompor, elidir as falsas imagens postas em mente ou em outros textos de hipocrisia e falseamento.

Escreve-se porque escrever obriga. Obriga a pensar, a ler o que se escreveu, a revisar o que se escreveu, a se comprometer com o escrito e a responder, sem voltas, com o que se disse. É o exercício da responsabilidade plena, nominada, objetivada no texto, e pela memória da recuperação das intenções do que se disse.

É um ato de coragem e organização mesmo que caótica; é um corte irreversível e uma inscrição no tempo. Escreve-se porque a interpretação é disputa, a argumentação e as justificações de razões são disputas. A leitura é disputa, a escrita é disputa.

Vivemos na era da palavra vazia, do discurso vazio e distraído, da distorção da palavra que nega a crença e o conceito; do compartilhamento do não lido, das redes sem leitura e sem repertório, das compreensões sem pré-compreensões, das hermenêuticas sem Hermes e sem hermeneutas. Vivemos na era da luz que acende e apaga. Era da distorção hipócrita, dos deslocamentos das máscaras, dos teletransportes ideológicos imediatos, da velocidade sem imagem.

Escreve-se porque se é pequeno, quase nada se não se fosse a voz, reféns de uma dignidade abstrata “per se”, dependentes do grito e da demonstração das razões, das justificativas, das esperanças tornadas palavra e pleito. A voz que falta às estrelas, ou que é inaudível na imensidão do universo, o dizer sobre si que parece restar ao humano, sem qualquer privilégio quanto a isso.

Escreve-se porque a realidade é ficcional, a percepção é ficcional, a linguagem é mediação e mente. Escreve-se graças ao dom humano da ficção no papel e nas relações sociais. Relações forjadas nos textos não revisados e nos personagens costurados por textos diários. Criações do passado, do presente, do futuro, do atemporal, do eterno e do infinito.

Escreve-se porque o poder tudo leva: a vida, a consciência, o discernimento, o texto, tudo é vulnerável e suscetível às forças e mais forças, demanda resistências e mais resistências, depende de consciência, formação, educação intelectual e da sensibilidade. Cedo ou tarde tudo se permeia até na coação e no vício. Então até à morte se escreve, enquanto há voz.

Escreve-se porque os outros irritam ou agridem com sua fala e com sua compreensão. Porque o outro pode ser uma ameaça, violência, risco, violação. Escreve-se porque os agressores estão blindados, distantes, invisíveis, fantasmagóricos, difusos, infiltrados em outros discursos, em seus cargos, gabinetes, cadeiras confortáveis.

Escreve-se porque é prevenção. Das ideias prontas aos clichês infinitos, das pós verdades aos estados de exceção repetidos ao infinito, do afrouxamento do direito e dos direitos, a escrita protege a mente. Porque a escrita obriga, demanda, exige e exaure; elabora o olhar.

Do ato político à responsabilidade pelo enunciar. Escreve-se porque escrever obriga. Obriga a pensar, a ler o que se escreveu, a revisar o que se escreveu, a se comprometer com o escrito e a responder, sem voltas, com o que se disse. É o exercício da responsabilidade plena, nominada, objetivada no texto, e pela memória da recuperação das intenções do que se disse. É um ato de coragem e um ato de formação.

Escreve-se porque a morte política é instalada dentro de cada um pelos discursos. E porque escrever é se opor a estas mesmas ameaças, superar o ressentimento, recriar o mundo nas letras, é exercer a sua única posse do mundo e destruir todo o mundo dentro de si.

Eliseu Raphael Venturi é doutorando e mestre em direitos humanos e democracia pela Universidade Federal do Paraná. Editor executivo da Revista da Faculdade de Direito UFPR e Membro do Comitê de Ética na Pesquisa com Seres Humanos da UFPR. Advogado.

¹ Graphic object, 1967, Mira Schendel. Disponível em: <https://www.tate.org.uk/whats-on/tate-modern/exhibition/mira-schendel>. Acesso em: 05 set. 2018.
² BARTHES, Roland. Dez razões para escrever. Inéditos, I, teoria. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 101

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