Por um feminismo desdobrável, por Rita Almeida

 

 

Por um feminismo desdobrável

por Rita Almeida

Para que o discurso capitalista moderno triunfasse, precisamos “matar” o pai (dirá Freud) e Deus (dirá Nietzsche). Jacques Lacan, psicanalista francês, fala disso ao tocar na derrisão do que ele chama “discurso do mestre”, em favor da ascensão de um discurso científico no qual é o saber, e não o sujeito, que toma lugar de maior importância. A suposta neutralidade da ciência se baseia em tal premissa, a de que seja possível criar uma teoria sobre o objeto que seja universal, independente do sujeito que o pesquise. Resumindo, para a ciência, não importa quem diz alguma coisa, mas o que se diz sobre algo. Nela, é o saber que está no poder.

Esta forma de saber poderosa e esvaziada de sujeito – se foi importante para todos os “avanços” científicos das últimas décadas – produziu também um efeito no modo como temos lidado com todas as demais questões presentes na sociedade. Diante de quaisquer problemas ou conflitos, tendemos a responder com saberes que funcionem como protocolos ou regras que definam o que fazer e como fazer. Na medida em que não há mais um Deus, um rei ou um pai que nos diga o que devemos fazer, nós decidimos criar regras e receitas universais de como fazer. Construímos saberes que nos sirvam de parâmetro para viver. Assim sendo, na mesma velocidade dos livros de autoajuda e do sucesso das terapias “coaching”, proliferam os discursos de saber como verdade absoluta sobre os diversos temas da sociedade.

Lamentavelmente, nem mesmo as pautas da esquerda mais progressista ficaram livres deste ranço. Temos criado regras e normas – tanto de linguagem quanto de comportamento – para todos os temas relevantes da esquerda, tais como, feminismo, movimento gay e movimento negro (isso só para citar os principais). E o fetiche exagerado pelo “modo de uso” de tais bandeiras trouxe duas consequências importantes: a supervalorização das regras criadas em detrimento das pessoas envolvidas e um exército feroz de fiscais que estão sempre a postos para dizer se você está, ou não, cumprindo as regras definidas.

Mas, eu estou aqui para falar de feminismo e, depois de todo esse preâmbulo, o que tenho a dizer é que o feminismo que temos hoje parece seguir nessa toada burocrata, se ocupando mais do feminismo do que das mulheres. A meu ver, temos estado mais preocupadas em criar e obedecer a protocolos e regras de como se comportar para não ser machista, do que com as mulheres.

O feminismo tem a oportunidade de encarnar em sua própria forma de luta a ruptura com os padrões, normas e burocracias – modos muito próprios e característicos do exercício de poder do patriarcado. O patriarcado se baseia nessa ideia de que o poder seja um centro em torno do qual o restante gire. A era moderna destitui os mestres do poder, mas coloca o saber e o dinheiro em seu lugar, como vimos, ou seja, o modelo falocêntrico continua intocado. E o discurso feminista que parece prevalecer, tem seguido esse caminho de mudar apenas quem fica no centro: sai o macho-mestre e entram as regras-feministas.

Ademais, a crítica que faço aqui é a seguinte: quando a ideologia feminista se torna o centro do feminismo, sendo mais importante do que a mulher, produzimos uma narrativa que emburrece, empobrece e embrutece a luta. Quando o feminismo se torna uma teoria protocolar, e não uma linha de fuga para as mulheres e suas singularidades, ela cumpre apenas um papel burocrata e policialesco, que acusa, pune e repreende, mas pouco enlaça e acolhe. Entretanto, se o objetivo do feminismo é libertar as mulheres, isso deve inclui a radicalidade de nos libertar do próprio feminismo, quando este se torna apenas um aglomerado de normas que se é obrigada seguir e/ou ser condenada por não seguir.

O machismo está dado, está pronto. E o melhor do feminismo, penso eu, é que ele está sendo inventado, está em processo de construção e não podemos, de modo algum, construir o feminismo sob as bases da mesma opressão da qual queremos nos libertar, vomitando regras de como é ser uma mulher feminista ou não-machista. Não libertaremos as mulheres inventando outras formas de opressão, mesmo que elas sejam de outras mulheres, mesmo que elas se digam autorizadas pelo discurso feminista.

Novamente trarei Lacan para o texto. Ele afirmou, certa vez, que Copérnico não fez nenhuma revolução, já que apenas mudou o que estava no centro: tirou a Terra para colocar o Sol, e que isso não mudou em nada nossa concepção de mundo. A novidade de Copérnico ainda manteve um significado central a partir do qual todo o resto gira em torno, mantendo nosso mundo, tal como antes, perfeitamente esférico, diz Lacan. E disse ainda: A verdadeira subversão seria poder substituir o “isso gira, por um isso cai”, ou seja, considerar o significante como contingente e não como uma categoria fixa, provocando assim uma queda, um corte, que permitiria que o movimento discursivo se faça de outra maneira, sem que se reproduza apenas o “girar em torno de”.

Nos queixamos de uma sociedade falocêntrica, que gira em torno do falo masculino, mas não haverá nenhuma revolução se apenas inventarmos outra coisa pra botar no centro, para servir de eixo, para ditar novas normas, ainda que neste centro estejam as normas feministas, ou a boceta, como queiram. Assim sendo, no meu entendimento, o verdadeiro feminismo é aquele que diante do falo e suas verdades e regras prontas, apresentará a fenda, a rachadura, o furo, o buraco; as verdadeiras representantes do nosso sexo, aquelas que podem desconstruir verdades, desinventar semblantes e trazer alguma leveza a este mundo.

Por fim, quero que o poder da mulher seja verbo e não substantivo. Quero uma revolução que rache e desmonte este mundo e não que simplesmente invente outra coisa para botar no centro dele.

Para encerrar peço socorro a Adélia Prado: “…ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou”

Por um feminismo que se ocupe mais das mulheres que do feminismo!

Por um feminismo desdobrável!

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