Precisamos falar sobre mérito, por Cristiane Alves

Precisamos falar sobre mérito

por Cristiane Alves

Quem disse que não existe mérito? Eu sei que existe, só não acredito nele.

O mérito é falacioso. Confisca para si aquilo que foi produzido coletivamente. Penso no primeiro indivíduo a olhar para um objeto e julgar que rolar seria mais fácil que arrastar. Um gênio. Mas não. Provavelmente sua descoberta tenha sido uma consequência de muitas ações coletivas que culminaram numa rolagem, inclusive o arrasto como reforço negativo.

Isso cabe a tudo o mais, de Da Vinci à primeira viagem espacial tripulada. Muito importantes, justiça seja feita, e depois deles nada foi como antes, inegavelmente. Importa aqui dizer que grandes homens e grandes feitos não surgem espontaneamente, eis que são resultado de vidas antes deles e suas tecnologias, estas que se transformam e transformam, reação em cadeia.

Então lamento dizer, não existe mérito próprio. Mérito tem que ser coletivo, embora, sim, exija esforço, e este certamente pode ser propriedade privada.

“Cresci numa favela onde o bandido matava um e guardava dois para o outro dia, vim de escola pública e me formei em universidade estadual, a melhor. Consegui ter muito mais que meus pais por esforço próprio, sem cota e sem mimimi!” 

Parabéns, caro meritocrata, você é um exemplo a ser seguido. Luta, trabalho e esforço é o que todo aquele que não tem impedimento deve fazer. Não procrastine jamais, bom começo ao socialismo! Mas, não. Você não fez sozinho. Antes de você pessoas se organizaram (embora não pareça) e resolveram, mesmo que precariamente, um problema que o estado não conseguiu sanar: morar. Você morou na favela, uma construção social, coletiva alocada nas áreas onde o capital não julgou, até então, monetariamente útil.

Pense que foi a COTA cedida pelo estado e pelos especuladores, da porção urbana pra você. 

Estudou em escola pública? Aliás, estudou? Agradeça ao poder vigente ter-lhe permitido COTA para estudar. Talvez se não o fizesse teria trabalhado do desmame ao óbito.

Escola pública? Parece justo dizer que seja COTA do erário público dispensada à população que não possui os meios ao ensino privado.

Universidade pública, embora seja mais frequentada por aqueles cujas posses lhes permitissem estudar em instituições privadas, por terem COTAS garantidas por uma alimentação adequada, abrigo, investimentos em uma vida futura e provavelmente capital inicial, alguns pobres conseguem ser selecionados e por esforço próprio seguir até o final. Mas e se o estado não permitisse a COTA de instituições educacionais públicas? E se a COTA de alunos pobres não existisse (não as atuais, falo daquela que não impediu pobre de fazer faculdade).

Importa dizer que nada foi dito sobre gênero ou raça, só esforço pessoal.

Bom, mas estas coisas existem e qualquer um poderia ter feito como você, não é? Talvez fosse útil perguntar aos teus pais o que lhes faltou em termos de esforço pessoal para não terem ido tão longe quanto você, preguiça, talvez. Mas a tua sorte, melhor, o teu mérito, foi ter começado do zero. Tua história começou em você e o teu país não é o Brasil, é a meritocracia. Conte-nos mais sobre isso!

 

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