Quando a busca pela felicidade se torna uma prisão, por Rita Almeida

Quando a busca pela felicidade se torna uma prisão

por Rita Almeida

Na maior parte do tempo da história humana a felicidade não foi um propósito de vida, o que significa dizer que nossa condescendência com os aspectos trágicos da existência, tais como, a infelicidade, o sofrimento e a dor, já foi muito maior. Hoje nos tornamos obcecados pela felicidade, tornando toda tragédia que compõe a existência, algo que precisa ser expurgado e negado.

E é o advento da ciência – com seu conceito de bem-estar e sua promessa de solucionar os mal-estares do homem em vida (sem precisar aguardar a morte e o paraíso) – que transformou a felicidade numa pauta política, política no sentido de ser pensada como uma meta coletiva. A noção de cidadania tem muito a ver com essa noção de felicidade como um direito universal.

Mas, em tempos de capitalismo ultraliberal, a felicidade deixou de ser uma utopia comum, a fim de se tornar uma obrigação individual. O sujeito do nosso tempo é condenado a ser uma espécie de empreendedor de si mesmo e da sua própria felicidade, que, obviamente, ele é convocado a conquistar na prateleira do consumo. Assim sendo, a infelicidade tornou-se um fracasso, também individual, e a felicidade, uma espécie de mérito para aqueles que se esforçaram, se prepararam e trabalharam para conquistá-la.

Mas Agamben traz um conceito de felicidade que rompe com este da meritocracia. Ele afirma que “o que podemos alcançar por nossos méritos e esforços não pode nos tornar realmente felizes. Só a magia pode fazê-lo”. Para Agamben, as crianças é que estão corretas sobre esse assunto, afinal, elas sabem que a felicidade depende da magia do gênio da lâmpada, da galinha dos ovos de ouro, da fada madrinha. Tal como afirma Jorge Forbes, “a felicidade não é um bem que se mereça”. Não se trata, portanto, de esforçar-se ou organizar-se para atingir a felicidade, como se ela fosse uma meta, já que a felicidade se encontra no campo do inesperado, do inusitado, da contingência.  E  Agamben completa: “como é chata a felicidade que é prêmio ou recompensa por um trabalho bem feito!”

Sendo efeito de contingência ou magia, a felicidade é exceção, acaso e surpresa, por isso, se alguém se dá conta de ser feliz é por que já deixou de sê-lo, afirma Agamben. A expressão: “eu era feliz e não sabia” coincide totalmente com tal afirmativa. Também não cabe na felicidade nenhuma moral, posto que ela não pode ser programada. Agamben defende que não se trata de uma imoralidade, mas, de uma ética superior, já que o sujeito feliz não pode saber que é feliz. Assim sendo, a felicidade não tem uma forma de consciência, razão ou moralidade, é algo que escapa a tudo isso. Por isso, na felicidade a gente apenas tropeça e esbarra; não é possível se apropriar dela. O que nos faz feliz é, exatamente, aquilo que não estava destinado ou reservado para a nós. A felicidade é sempre surpreendente.

Nesse sentido, a felicidade, enquanto esse empreendimento meritocrático que o capitalismo tornou mercadoria, se parece mais com uma prisão ou uma obrigação. E, de fato, é assim que comumente a concebemos: como um ideal a ser perseguido, uma lista de objetivos e metas, algo que se alcança com foco, esforço e trabalho. Até por que, este é um tipo de felicidade que demanda dinheiro para se realizar. Nessa felicidade que o capitalismo inventou, não há espaço para a magia, e por que não dizer: não há lugar para o desejo. Onde tudo se programa e se burocratiza, resta pouco espaço para desejar.

Pensando assim, paradoxalmente, só pode ser feliz quem verdadeiramente não se ocupa de ser feliz. Porque felicidade não se procura ou se persegue. Felicidade não se constrói e nem se acumula. Felicidade não pode ser meta, direito adquirido ou obrigação, porque é magia, é desejo. A verdadeira felicidade brota onde não é esperada, e a melhor delas não é de forma nenhuma, merecida ou planejada.

Pensando nisso, eu pergunto então:

Quantas coisas você já deixou de viver por acreditar não fazer parte do seu “projeto de felicidade”?

Quantos erros você já teve medo de cometer e de quantas escolhas abriu mão por acreditar não serem o seu suposto “caminho para a felicidade”?

Será que sua “busca pela felicidade” não se tornou apenas uma prisão que te limita a experiência?

Já pensou quantas vezes mais você se arriscaria ou se abriria ao novo – a verdadeira felicidade – se parasse de acreditar que pode controlar a chegada ou a permanência dela?

Já imaginou como viveria sua vida caso não tomasse a felicidade como meta ou preocupação, mas aceitando que ela virá num momento mágico, e que você não sabe nem como, nem quando, nem onde irá acontecer?

A felicidade é um evento, um espasmo mais ou menos curto, um encontro, portanto, para topar com ela é necessário mais ousadia e coragem, do que trabalho e dedicação. A felicidade sempre está onde não deveria.

Para ser feliz é preciso crer na magia, mas não adianta persegui-la, pois não é possível saber de onde ela pode vir. Isso quer dizer que ela pode estar exatamente lá naquele caminho que você não escolheu, por acreditar que saberia onde ela estava.

Te ensinaram sobre a importância das metas, dos objetivos, dos planejamentos, do foco, da determinação e da preparação para alcançar a felicidade. É certo que isso pode te levar ao sucesso, a uma vida boa, confortável e segura, mas, nada disso é garantia de felicidade. E o motivo é muito simples: você não vai até a felicidade, é ela que vem até você, o que te cabe é apenas abrir-se ao inesperado.

Kafka diria: “se chamarmos a vida com um nome justo, ela vem”

Dito isso, em 2018, procure menos pela felicidade e se abra mais à magia!

Rita Almeida

 

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