República avacalhada, por Josias Pires Neto

Pensei com meus botões: observando o cenário político brasileiro, talvez devêssemos considerar melhor o assunto: os idiotas são apenas [sic!] uma minoria raivosa e barulhenta, capaz de formar maiorias eventuais.

República avacalhada, por Josias Neto

O presidente parece personagem de filme tosco: ridículo, grotesco, desinformado, subserviente aos poderosos daqui e do Norte. Mesmo encarnando sucessivos papéis para avacalhar a República e suas instituições – todas, do IBGE ao INPE – ainda assim, agrada parcela ponderável dos brasileiros. Faz sucesso de bilheteria. Outro dia, depois de ouvir o presidente emitir o último meme absurdo, um amigo lembrou a frase do genial Nelson Rodrigues: “os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”. Premonição sombria, completou o amigo.

Pensei com meus botões: observando o cenário político brasileiro, talvez devêssemos considerar melhor o assunto: os idiotas são apenas [sic!] uma minoria raivosa e barulhenta, capaz de formar maiorias eventuais. Parte dessa minoria de idiotas é constituída pelos donos do dinheiro grosso, donos da grande mídia e membros da alta burocracia estatal que só pensam em seus próprios interesses associados à grande banca financeira internacional. Nunca tiveram compromisso com a maioria, são anti-povo e anti-nação. Viram em um candidato imbecil a oportunidade de desmontar o Estado e locupletar-se com as riquezas e as empresas do país.

Com a ajuda, financiada, de muitos espertos, foram capazes de mobilizar a maioria para ganhar a eleição presidencial. São idiotas deslumbrados com o deus dinheiro mas, ao mesmo tempo, compraram a inteligência de gente sabida o suficiente para ajuda-los a dirigir o desespero da maioria infeliz, que reclamava e reclama por transformações políticas e econômicas profundas. Maioria infeliz que se sentiu abandonada pela esquerda palaciana.  Maioria conduzida a eleger um governo comandado por idiotas e imbecis. Vivemos uma situação deveras desconcertante e paradoxal.

Mas um poder comandado por idiotas e imbecis, ainda que tenha a ajuda milionária de muitos espertos, tende a ser necessariamente destrutivo, como estamos vendo. O exercício do poder pelos imbecis e idiotas jamais poderá ser realmente legitimado pela maioria. É um poder que produzirá revolta por ser estúpido e destrutivo. Se toda a revolta contra o poder dos idiotas e imbecis for enfentada pela mais sangrenta violência, como o presidente que avacalha a República parece pretender, afinal, ele pregou a necessidade de matar “uns 30 mil” e destruir a oposição de esquerda, devemos inferir que o poder que avacalha é necessariamente ilegítimo.

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A “brincadeira” de fazer arminha com as mãos ajudou a ganhar a eleição. Era o cara contra o sistema. Mentira deslavada. Mas as pesquisas indicam que a maioria é contra a violência política prometida pelo presidente que avacalha a República. Se, ainda assim, a violência política for instituída na dimensão prometida  (matar uns 30 mil, no mínimo) e se, ao cabo, só restarem imbecis e idiotas – ainda que endinheirados – legitimando o poder do presidente que avacalha tudo, é possível afirmar que, aos olhos da história, esse presidente e seus acólitos  terão cometido crime de lesa pátria, de lesa humanidade e seu governo servirá de exemplo para que, no futuro, jamais os imbecis e idiotas voltem ao poder.

Como o presidente que avacalha a República parece personagem de filme tosco que faz sucesso numa ponderável parcela do público me dei conta de que há um frase de Terry Eagleton que talvez nos ajude a pensar a situação política atual do Brasil:

“A estética como costume, sentimento, impulso espontâneo, pode conviver perfeitamente com a dominação política; porém esses fenômenos fazem fronteira, embaraçosamente, com a paixão, a imaginação, a sensualidade, que nem sempre são tão facilmente incorporáveis. Como [Edmund] Burke coloca, em seu Appeal from the New to the Old Whigs: “Há uma fronteira para as paixões dos homens quando eles agem a partir do sentimento; mas nenhuma há, quando eles estão sob a influência da imaginação”. A subjetividade “profunda” é o que a ordem social dominante deseja atingir, e também o que ela tem mais razão de temer. Se a estética é um espaço ambíguo e perigoso, é porque […] há alguma coisa no corpo que pode revoltar-se com o poder que a inscreve; e esse impulso [de revolta] só pode ser erradicado se [for extirpado], junto com ele, a própria possibilidade de legitimar o poder”.