Respeitem Meus Cabelos Brancos, por Marquinho Carvalho

Falarei sobre o atual Flamengo comandado por Jorge Jesus e as absurdas comparações com o fantástico Flamengo da virada dos anos oitenta

Time do Flamengo prestes a inciar a partida contra o Liverpool em Tóquio valendo o título mundial interclubes em 13 de dezembro de 1981. Em pé da esquerda pra direita: Leandro, Raul, Mozer, Marinho, Andrade e Júnior. Agachados: Massagista Adenir Silva, Lico, Adílio, Nunes, Zico e Tita.

Respeitem Meus Cabelos Brancos, por Marquinho Carvalho

Tentarei contar um pouco da história do futebol brasileiro nos anos oitenta e traduzir de maneira serena toda minha indignação sobre tudo que tenho lido e assistido sobre o atual Flamengo comandado por Jorge Jesus e as absurdas comparações com o fantástico Flamengo da virada dos anos oitenta comandado por Zico, Leandro, Júnior, Adílio e companhia.

Aqui não cometerei as injustiças que geralmente se comente quando a relação dos craques daquele time se encerra em Adílio e a palavra companhia. É necessário relacionar todos os incríveis jogadores que fizeram parte daquele fantástico time de futebol que encantou os brasileiros e o mundo.

Então vamos lá: goleiro Raul, lateral-direito Leandro, lateral-esquerdo Júnior, zagueiros Marinho e Mozer (o falecido Figueiredo entrava em vários jogos), meias Andrade, Adílio, Zico, Tita, atacantes Nunes e Lico. 

Após a escalação daquela “seleção rubro-negra”, creio que já posso dizer “alto lá!” para os comentaristas de plantão e também para os torcedores mais velhos que perderam a memória daquele timaço e, parafraseando Jesus Cristo na cruz, peço “perdão para os mais jovens, eles não sabem o que dizem” quando ousam comparar o Flamengo dos anos oitenta e o Flamengo da atualidade.

Posso também adaptar os versos clássicos de “Pobres Moços” do grande compositor gaúcho e autor do hino do Grêmio, Lupicínio Rodrigues: “…esses moços, pobres moços, ah! se soubessem o que eu sei…”, trocando para : “…ah! se vissem o que eu vi”, para descrever o encanto em o futebol praticado por aquele time inesquecível do Flamengo. Ou mesmo reavivando a memória dos que viram e agora cometem o sacrilégio de comparar e até mesmo afirmar que o atual time do Flamengo é melhor do que aquele dos anos 80.

Sinceramente! Eu considero até um abuso as aberrações que são ditas, escritas e apresentadas em vídeos comparando aquela verdadeira seleção do Flamengo dos anos 80 e o atual time rubro-negro dirigido pelo português Jorge Jesus.

Penso que tem que haver alguma explicação para esse fenômeno. Eu só o entenderia caso tivesse ocorrido o fenômeno fictício como o que acontece no filme “Yesterday”, contando a história de um mundo sem as canções dos Beatles. Talvez, se o Brasil e o mundo nunca tivessem visto o Flamengo da geração de Zico, aí sim, seria possível concordar com Luís Penido, narrador de futebol da rádio Globo do Rio de Janeiro, que definiu De Arrascaeta como gênio. Poderíamos endossar o comentarista Vitor Birner, que disse no programa “Linha de Passe”, da ESPN, que o atual time do Flamengo é “avassalador”.

Caramba! Se De Arrascaeta for gênio, o que dizer de Zico? Se o futebol de hoje do Flamengo for “avassalador”, pobre o dicionário Aurélio que não teria adjetivo para definir o Flamengo comandado por Zico. 

Há tempos eu adaptei um ditado popular que originalmente diz “em terra de cego caolho é rei”, para “em terra de cego caolho é Deus”. Creio que esta adaptação se encaixa perfeitamente para o cenário atual do futebol brasileiro. Penso que os torcedores, a mídia, os jornalistas e cronistas esportivos passaram tantos anos vendo times medíocres ganharem títulos, jogando um futebol de terceira categoria e agora ficaram entorpecidos com as grandes apresentações do Flamengo dirigido por Jesus, e esse torpor embaçou as suas visões e os impede de ver o fenômeno de maneira ampliada.

Tenho absoluta convicção de que qualquer analista de futebol que se dispuser a se debruçar seriamente sobre a capacidade técnica do atual time do Flamengo e ousar compará-lo com aquela “verdadeira seleção” rubro-negra dos anos oitenta, necessariamente, terá que se ater também para a capacidade técnica dos times adversários do Flamengo na época e os seus oponentes da atualidade. Creio que esse exercício, efetivamente, é fundamental para abstrairmos a real dimensão técnica do atual time da Gávea.

Ainda na década de setenta afirmo categoricamente que o Brasil tinha diversas seleções espalhadas por vários estados da federação. Claro que a região Sudeste era mais pródiga neste aspecto, no entanto, se aprofundássemos no levantamento dos grandes times espalhados pelo Brasil ficaríamos surpresos com a quantidade de grandes equipes. Aqui em Goiás, meu estado natal, posso assegurar que Vila Nova, Atlético Goianiense, Goiânia e Goiás montaram grandes equipes. E o que dizer de Guarani e Ponte Preta no interior de São Paulo?

Já nos anos oitenta, pôde-se observar uma ligeira queda no nível técnico dos clubes brasileiros, entretanto, mesmo diante desta constatação, pudemos acompanhar equipes fantásticas nos anos oitenta.

Então, aquela “seleção rubro negra”, para se firmar no cenário futebolístico brasileiro teve que “matar um leão por jogo” diante da quantidade de grandes adversários que teve que enfrentar e vencer.

Aqui torna-se imprescindível a comparação entre o elenco do Flamengo dos anos oitenta e seus adversários naquele período, relacionando as bases de algumas equipes brasileiras que enfrentaram o rubro-negro:

Corinthians de Sócrates, Casagrande, Vladimir e Zenon.

Grêmio de De Léon, Paulo Isidoro, Baltazar e Batista.

Atlético Mineiro de João Leite, Reinaldo, Éder, Toninho Cerezo e Luizinho.

Internacional de Mauro Galvão, Benitez, Ruben Paz e Cleo.

Guarani: Wendel, Careca, Lúcio e Jorge Mendonça

São Paulo de Oscar, Dario Pereyra, Renato, Zé Sérgio, Serginho Chulapa e Marinho Chagas.

Grêmio: Leão, De Léon, Batista, Paulo Roberto, Tarciso e Baltazar…

Aqui deixo para os leitores ampliarem a lista… 

Creio que esta relação de alguns excepcionais jogadores que vestiram as camisas dos adversários do Flamengo nos idos dos anos oitenta dão a real dimensão do fantástico futebol que era praticado aqui no Brasil. Mas penso que a palavra que melhor o define é “EQUILÍBRIO” e isto pode ser comprovado por Flamengo x Grêmio nas três partidas que marcaram a final do Campeonato Brasileiro de 1982. O primeiro jogo aconteceu no Maracanã e terminou em 1 a 1, sendo que os dois gols foram marcados nos minutos finais da partida. A segunda partida da final foi zero a zero, o que provocou o terceiro e decisivo jogo. A grande final disputada também no Estádio Olímpico do Grêmio teve a vitória do Flamengo por 1 a 0. 

Evidente que os resultados ressaltam o equilíbrio das duas equipes que chegaram às finais do Campeonato Brasileiro de 1982, entretanto, os dois empates e o placar magro de 1 a 0 na última partida da final não aconteceram somente graças à conhecida garra do time gremista, e sim devido aos talentos individuais da equipe gaúcha e ao seu conjunto. Aquele time que já havia feito história no ano anterior sagrando-se campeão brasileiro em pleno Morumbi tinha jogadores de muita capacidade técnica e muito talento. O goleiro Leão já havia estado em três Copas do Mundo. O uruguaio Hugo De Léon era um grande zagueiro. Batista, um baita meio-campista que já fizera história no Internacional. Baltazar, o goiano denominado “o artilheiro de Deus”, se tornaria em seguida um dos maiores goleadores do futebol espanhol. O lateral Paulo Roberto se firmava como um dos grandes laterais-direitos do futebol brasileiro. Paulo Isidoro, talentoso meia-atacante revelado pelo Atlético Mineiro. Tarciso, ídolo da torcida, já veterano, ainda jogava muito. Renato Gaúcho já despontava como um dos grandes atacantes do seu tempo.

Para enfatizar o equilíbrio técnico apresentado nos três jogos das finais devido aos grandes talentos individuais das duas equipes, seguem as suas escalações para que eu não cometa nenhuma injustiça: 

Flamengo: Raul, Leandro, Júnior, Figueiredo, Marinho, Andrade, Adílio, Tita, Zico, Lico e Nunes.

Grêmio: Leão, De Leon, Vantuir, Paulo César, Paulo Roberto, Batista, Bonamigo, Paulo Isidoro, Tonho, Baltazar e Tarciso.

Dois excelentes times que proporcionaram jogos espetaculares. Melhor, o Flamengo com um dos melhores times de todos os tempos em termos do futebol mundial e o Grêmio como um dos grandes times da história do clube e do futebol brasileiro. 

E o que presenciamos hoje? O Flamengo com uma “seleção” em termos brasileiros, comparando-se com seus tradicionais adversários tupiniquins, e comandado por um técnico estrangeiro que de longe se apresentou muito melhor dos que os demais que comandam os grandes clubes do futebol brasileiro, com raríssimas exceções.

Observem o Grêmio que fez as duas partidas pelas semifinais da Libertadores contra o Flamengo. Um abismo o separa do time carioca em termos de talentos individuais. A equipe gaúcha tem no atacante Everton Cebolinha seu grande jogador. No banco de reservas o tradicional treinador boleiro e falastrão Renato Gaúcho. Um time muito aplicado taticamente, com um bom conjunto, porém, muito inferior tecnicamente em relação do Flamengo e, para complicar, foi pra campo desfalcado dos seus principais jogadores na primeira partida das semifinais em Porto Alegre.

Confirmando velho ditado do futebol que o grande time começa com um grande goleiro, a equipe gaúcha tem seu guarda-metas, Paulo Vitor, um goleiro perfeito para uma equipe da série B do Brasileiro. Inclusive, um dos maiores responsáveis pela derrota no sul. Falhou em todos os gols do Flamengo. Nos três anulados e no gol de cabeça de Bruno Henrique. Ficou parado dentro do gol num cruzamento manjado da direita.

No jogo da volta no Rio de Janeiro voltou a falhar, contribuindo assim para o que denominamos em Goiás de “abrir a porteira” para a goleada que se desenhava, repito, em razão da diferença abissal entre os dois elencos.

Enfim, o Grêmio que enfrentou o Flamengo naquelas partidas memoráveis das finais de 1982 estava anos luz de distância do futebol praticado pelo Grêmio que enfrentou o Flamengo pelas semifinais da Libertadores deste ano e que foi humilhado no Maracanã.

 Encerro alertando aos navegantes de todas as vertentes, sejam da crônica esportiva, dirigentes e torcedores flamenguistas, que o River Plate, apesar de ter uma faixa transversal na camisa, não é o atual e fraquíssimo time do Vasco, que, inclusive, pode ter servido de alerta aos rubro-negros, pois mesmo infinitamente inferior tecnicamente, conseguiu enfiar quatro gols no poderoso Flamengo há poucos dias pelo Campeonato Brasileiro.

 O River Plate tem um excelente treinador no seu banco de reservas, Marcelo Gallardo. Uma equipe equilibrada tecnicamente com um bom conjunto. Está habituada a disputar jogos decisivos. É o atual campeão da Libertadores. Portanto, o Flamengo terá agora um adversário a sua altura.

 O Flamengo, que, por sua vez, não chegava há décadas numa semifinal de Libertadores, enfrentará o River Plate, é um belíssimo time de futebol. Isto é incontestável! Em pouquíssimo tempo o treinador português Jorge Jesus conseguiu montar uma verdadeira equipe de futebol que reúne conjunto, eficiência tática e que extrai o máximo dos valores individuais de seus jogadores. Todos do elenco titular estão jogando muita bola. O comprometimento tático possibilitou aflorar os valores individuais da equipe. Todos, da defesa ao ataque, estão jogando um futebol vistoso e muito competitivo. Há tempos o futebol sul-americano não possibilitava o enfrentamento de duas equipes tão equilibradas. Temos uma grande final de Libertadores.

 Como aprendi a gostar de futebol graças aos grandes times que vi jogar e ao equilíbrio técnico que caracteriza o futebol brasileiro e sul-americano até o final da década de noventa, tenho convicção que veremos um grande jogo de futebol e que Flamengo e River Plate colocarão o futebol sul-americano noutro patamar. É o que eu espero.

Ah! Quase que me esqueço de informá-los. Sou vascaíno de coração e alma!!