Se juizecos e desembargadores adiantam voto, por que Segovia não?, por Armando Coelho Neto

Se juizecos e desembargadores adiantam voto, por que Segovia, não?

por Armando Rodrigues Coelho Neto

A PF vive um envelhecimento precoce. Isso é uma contradição num órgão que teve os quadros renovados e abriga, sob o ponto de vista da formação acadêmica, profissionais de excelente formação. Aliás, não fosse assim não estariam lá. Mas, boa formação acadêmica está longe de configurar sintonia com as grandes questões nacionais, sobretudo quando confrontadas com a conjuntura internacional. Boa formação acadêmica está longe de significar consciência social, sintonia e empatia com os problemas de um país, que a própria PF está ajudando a destruir, empunhando a bandeira do moralismo de ocasião. Qualquer delegadinho vaidoso ou desavisado pode devastar uma grande empresa e fazer despencar suas ações pelo mundo afora.

Boas escolas estão no rol dos privilégios das “elites”, das classes média alta ou remediada. Desse modo, na base de meu mundo é minha história (a recíproca é verdadeira), profissionais “bem formados” correm o risco de tentar fazer prevalecer, na leitura de fatos, os valores impregnados e inerentes àquela classe social. Valores já enfocados neste espaço, até com alusões irônicas do mestre Ariano Suassuna e suas histórias de quem já viajou ou não para a Disneylândia. Ego, ego, ego. É tanto ego na PF, ao ponto de não ser possível por fim às disputas por chefias, às buscas por zonas de conforto, em detrimento da atividade fim da instituição. É como se o trabalho investigativo tivesse importância menor. Muitas vezes parece que escrever brilhantes laudas de juridiquês soa mais importante do que um substancioso plano operacional.

Entre fogueiras de vaidades, uma entrevista para a televisão e dois minutos de fama, ao mesmo tempo em que faz cócegas no ego de uns provoca inveja em outros. Ressalvadas as exceções, é sob essa perspectiva que se formam grupos na procura de espaço. Na busca de equilíbrio, entidades de classe tentam promover debates entre candidatos ao comando da PF. Sinalizam com alguma democracia interna, muito embora, externamente, querendo ou não a indicação venha a ser política. A propósito, o impostor Temer ignorou os tais debates e indicou para o cargo quem bem ele quis, contribuindo para contaminar a já combalida imagem da instituição. Com todo respeito pessoal ao indicado, é o que se deduz das ceninhas exibidas pela mídia.

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Enquanto a credibilidade da Farsa Jato cai, a consciência do golpe se consolida no imaginário social e a instituição dá sinais de bancarrota. Quando parecia caminhar para uma história dignificante que excelentes profissionais pretendiam construir, surge o aquilo deu nisso.

O fato é que a Polícia Federal está sem comando. Com razão ou não, onde já se viu, numa instituição regida pela disciplina e hierarquia, um furdunço desses? Que história é essa de subordinados afrontando seu comandante da forma como o vêm fazendo? Estarei eu querendo defender o espantalho do Temer? Certamente não. Mas há algo de errado nas grotescas cenas que a sociedade vem assistindo. O diretor da PF vive tropeçando em seus subordinados, pois grande maioria não o queria no posto. Sofre do mesmo mal de seu padrinho (o usurpador da faixa presidencial) que a maioria dos brasileiros pede que caia todos os dias – seja em passeatas, feiras livres ou blocos de Carnaval.

De qualquer forma, o homem do Fora Temer está lá e fez um jogo de cena inicial. Futucou o Ministério Público Federal, sugerindo que iria entrar na briga corporativista de sua categoria. Aqui, ali, membros do MPF fazem indevidas interferências no trabalho de delegados. A PEC 37, menina dos olhos dos delegados, foi vendida para sociedade pelo Ministério Público como “a PEC da corrupção”, com apoio da TV Globo. A PEC foi detonada nas ruas pelos Black Blocs e por um bando de alienados que mais tarde virou pato – já foram até ridicularizados no enredo da Escola de Samba Paraiso do Tuiuti.

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A facilidade e descaramento com os quais Temer usou dinheiro público para comprar votos para destruir direitos sociais, não parecem ser a mesma para dobrar a PF. Os delegados querem autonomia, sob uma óptica deles e só deles, em nível muito fora do alcance de entendimento da sociedade. Querem uma autonomia que depende do Congresso Nacional ladrão, que em troca de votos comprados derrubou a Presidenta Dilma. O mesmo parlamento com o qual a PF se aliou no golpe, sabendo que iria entregar o país ao mesmo homem que hoje tentam caçar. Querem uma autonomia que, sob a percepção dos políticos corruptos, seria a criação de mais um monstro contra eles. Já pensou o Brasil repleto de Dalagnols inimputáveis pegando nos pés deles?

A autonomia pretendida só pode vir por lei, mas Temer, tentando fazer gracinha com os delegados, inventou de dar ou deu por meio de portaria administrativa. Como tudo tem estado na onda de moralismo de conveniência, Temer deu de bandeja autonomia de conveniência. Trata-se de uma autonomia para servidores com o perfil descrito no curso deste texto, hoje comandados por um delegado que desde o dia de sua posse, tenta minimizar as acusações contra o traidor de Dilma.

A PF tem um diretor geral fruto do golpe. Um diretor que vem demonstrando ter um conhecimento de causa que não deveria ter. Coisas que a PF só vai refletir quando se der conta de que houve mesmo um golpe no país e que sua contribuição para ele foi definitiva. Só vai entender, quando se der conta do significado de estar com seu reajuste salarial pendurado numa liminar judicial. Quando perceber a cara de jeton barato e provisório desse reajuste num “grande acordo nacional com o supremo e tudo”.

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Sim, o diretor da PF fala demais. Entretanto, se juizecos, desembargadores e ministros do “Supremo” adiantam criminosamente votos e posicionamentos, o comandante daquela instituição se sentiu no direito de também dizer o que pensa. Está tudo em casa, ora bolas!

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

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5 comentários

  1. A PF está sem comando desde que paulo Lacerda foi destituído

    O autor do texto, que é delegado aposentado da PF, por corporativismo ou lealdade a colegas e à instituição a que serviu, deixa de colocar o dedo na ferida e mostrar quea PF tucana está sem comando há bastante tempo, mais precisamente desde que Gilmar Mendes pressionou o Ex-Presidente Lula a destituir o então Diretor Geral, Delegado Paulo Lacerda. De lá para cá, o ninho de víboras tucanas que SEMPRE foi a PF pós-1990, ficou sem chefia, sem comando. Ou o ilustre articulista vai querer nos convencer de que José Eduardo Cardozo, ocupante do MJ no governo da Presidenta Dilma Roussseff e que foi ridicularizado em montagesn, feitas por DPFs, aparecendo como ‘palhaço’ e ‘cachrro de madame’, tinha alguma comando sobre a PF ou que Leandro Daiello – o babaca e boboca que antecedeu o Se(mver)góvia – apitava alguma coisa sobre os núcleos lavajateiros dessa polícia política em que delegados foram flagrados hostilizando a Presidenta da República e fazendo campanha para o tucano Aécio Cunha?

    Outra coisa: por que o articulista não menciona o que foi denunciado pela Revista CartaCapital em 24 de março de 2004? Há 15 anos a PF já estava “comprada” pelo FBI e por outra agências e departamentos de investigação e espionagem dos EEUU. e quem diz isso não é nennhum petista ou opositor do tucanato, mas aquele que foi chefe do FBI no Brasil por 4 anos, Carlos Costa. Vale a pena os leitores do GGN – e o autor do artigo, em particular – relerem e analisarem as denúncias e revelações bombásticas contidas na entrevista concedida por Carlos Costa à CartaCapital. Neste link pode-se ler uma transcrição completa da entrevista, com pequenos erros de ediçã/digitação, mas que não comprometem o conteúdo. 

    https://csalignac.jusbrasil.com.br/noticias/354350802/policia-federal-brasileira-recebe-mensalao-do-governo-dos-estados-unidos

    • João de Paiva

      Li a entrevista de Carlos Alberto Costa e ele fala do que todo mundo politico-juridico-diplomatico-empresarial no Brasil ja sabia, apenas acrescentou detalhes. De que exatamente acusa o ex-delegado Armando Coelho? O que ele poderia fazer, sozinho, contra esse poderia americano que perdura no Brasil? Uma so andorinha não faz a revolução, convenhamos… O problema, como diz o proprio Armando Coelho Neto em seu artigo é que existem sempre muitos dallagnois, segovias, moros, gilmar mendes ou temers no Brasil para venderem o Pais aos americanos e nos tornarem assim eternos coadijuvantes da nossa propria soberania.

      Quem tem o dinheiro, diz Carlos Alberto Costa, manda. Manda porque essa gente toda que citei acima se deixar corromper seja ideologicamente seja moralmente.

    • GRATO PELA COLABORAÇÃO

      Grato pela colaboração. Seu comentário somou. Nada tenho a acrescentar à materia da Carta Capital. Conheci Carlos Costa e admitiro o Bob Fernandes que cobriu o assunto, denunciando inclusive a conta de qual delgado os EUA depositava dinheiro. Depósitos feitos, seja por falta de amparo legal, seja por desconfiança do governo brasileiro.

      Entretanto, meu foco foi uma ironia sobre as contradições da PF e da própria grande mídia. Quis mostrara incoerência dos servidores da PF e o tom da midia sobre o caso Segóvia. Acho que nem ele nem juizecos ou que tais devem estar dando pitacos. Mas, se Segovia, com toda falta de comando, estivesse criticando o Temer, talvez sequer eu precisasse escrever o texto acima. Segóvia é só um carro alegórico nesse samba do crioulo doido. 

  2. O pior de tudo é que quando

    O pior de tudo é que quando se apaga  lentamente um fogo aqui, vem um terremoto para abalar e bagunçar ainda mais o que já está bagunçado. A intervenção decretada por Temer no Rio de Janeiro agora escancara mais um personagem, o general Eche… alguma coisa. Alguns dizem que quem comandou tudo foi Moreira Franco (que seria o Golberi de Temer, ai,ai,ai), outros dizem que quem governa agora é o general Eche alguma coisa. No Rio, a gente sabe das divergências entre a polícia civil e a PM. Entra em cena o exército com um interventor militar.  O senador Requião ironiza dizendo que o Exército está sendo utilizado como porteiro de favela. Temer anuncia o Ministério de Segurança Pública e diz que outras cidades sofrerão intervenção. A globogolpe diz que a intervenção no Rio deverá ir até dezembro, mas que o ideal era prolongar ainda mais. O homem considerado mais equilibrado do exército, o general Vilas Boas,  será substituído em março quando acaba seu mandato. Estamos num Estado policial e policialesco, numa aventura hipócrita, infame e desastrada. Uma tragédia que não tem tamanho, Ou numa das maiores farsas do mundo. 

  3. Tudo MUDARIA….
    Nao tenho duvidas ARMANDO que se o tal Semvergovia estivesse criticando o TEMER, a história seria outra e o seu texto seriado muito esclarecedor.
    Pois se alguém tem moral, credibilidade e conhecimento para falar alguma coisa sobre OU da atual PF TUCANA, partidária, GOLPISTA, essa pessoa chama-se Armando Rodrigues Coelho Neto.

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