Se não reagirmos à fratura exposta não seremos nem mais Brasil, por Álvaro Miranda

Se não reagirmos à fratura exposta não seremos nem mais Brasil, por Álvaro Miranda

Quando Marx diz no “18 de Brumário de Luís Bonaparte”, em 1852, que, naquele momento, não se devia tirar aprendizados do passado, mas sim do futuro, ele nos dá a necessária lição que resta ao Brasil de agora, com esse desastre escabroso da pandemia e da paralisação de nossa economia há seis anos.

Pode parecer contraditório, como se o passado não fosse importante para compreendermos o presente, mas o que ele afirma exatamente é o seguinte: “A revolução social do século XIX não pode retirar a sua própria poesia do passado, mas somente do futuro.” Ele se referia ao massacre da Comuna de Paris, à guerra franco-prussiana e ao deslocamento do epicentro do movimento socialista da França para a Alemanha.

Para aqueles hoje em dia que veem Marx apenas como ícone do passado ou somente objeto “histórico” de estudos, vale lembrar o que Robert Kurz já alertava com aguda lucidez no início da década de 1990. Resumindo, ele apontava que o sacrifício do terceiro mundo era uma “advertência fatídica” para o chamado mundo desenvolvido.

Em outras palavras, o tal mundo desenvolvido que derrubou o Muro de Berlim, acreditando que teria “mais mercados” para a expansão capitalista, na verdade foi fechando o cerco contra si mesmo na ilusão sem fim da acumulação, do lucro e do bem estar de alguns poucos – e dane-se o resto do mundo. Os supostos “vencedores” do fim da história deram com os burros n’água e não encontraram os tais novos mercados.

Ilusão porque, a partir das décadas de 1980 e 1990, a tal “produtividade” capitalista não precisava mais de territórios com mão de obra barata, conforme o percurso fordista e toyotista da fase monopolista do capitalismo do século XX.

Mas sim de situações que, inevitavelmente, têm que retroalimentar a produtividade, para a qual não bastam mercados de baixos salários, mas sim daqueles que também podem desenvolver suas tecnologias ou fornecer o básico para as tecnologias dos outros. Daí porque a transferência tecnológica acontece mais entre os países do norte do que na relação norte-sul.

A crise do neoliberalismo atual, penso, faz parte desse contexto além de outros fatores determinantes. E a crise pode ser a oportunidade de reinventar. A verdade, porém, é que a “produtividade” das tecnologias tornou-se o fetiche da panaceia: não resolveu e não resolverá o grande problema alimentador das revoluções futuras – qual seja, a precarização do ser humano, com a expulsão de milhões de pessoas do trabalho dito “formal” em direção às situações de uberização, ifoodização, “home office”, informalidades diversas, favelização etc.

A dissonância entre norte e sul não resolverá a insegurança geral, nem vai neutralizar o estupor do beco sem saída, a cada dia, diante da fratura exposta. Muito menos preencher a ausência de perspectivas mínimas de futuro. Só não vê quem não quer, por exemplo, que o crescimento do mito do “agrotec” brasileiro é a tendência inversa do aumento da pobreza nacional.

Vejam o que Kurz diz no início da década de 1990: “A base do gigantesco estoque de capital do Ocidente, a partir da qual se realizam os aumentos seguintes, não poderá jamais ser alcançada, dentro da lógica das mercadorias, pelas outras partes do mundo em conjunto.”

Acrescenta ainda: “Cada passo de desenvolvimento e aumento da produtividade nos países atrasados é negativamente compensado, em escala crescente, por dois, três, ou mais passos nas regiões mais avançadas. É a corrida entre a lebre e a tartaruga, que somente pode terminar com a morte da lebre.” E podemos acrescentar: se não rompermos esse modelo agora, nós morreremos antes da lebre.

Certamente, para muitos observadores das transformações do sistema capitalista, no tempo em que Kurz escreveu isso, a ascensão da China talvez fosse uma incógnita em termos de dimensão e direção.

Hoje o gigante asiático já não é mais um enigma, pelo menos para o presente, sobre o papel do estado, por exemplo, na reinvenção das tramas capitalistas: uma sociedade onde coexistem empresas estatais e privadas num mercado coordenado pelo governo – e não essa esculhambação geral de terra devastada que vivemos.

Não tenho ilusão em relação ao fetiche do estado, mas muito menos se pode esperar da “anarquia” capitalista com suas mentiras de que o espírito competidor e concorrencial é inerente ao ser humano, bem como sua suposta meritocracia dos “homens de bem” que “venceram na vida” para chegar onde estão.

Independente dos olhos de ver ou de assumir docilmente a cegueira, para nós fica claro que o Brasil, na mesma época (anos 1990), já trilhava o caminho do seu desmonte geral, seja do estado, da economia e, consequentemente, dos diversos laços mínimos e básicos daquilo que se pode imaginar como uma sociedade possível.

A lição para o futuro, a partir da pandemia e do desmonte da economia, é que não poderemos mais ter a ilusão de alguma volta ao passado porque nosso passado já era escombro. E agora somos fundo do poço escuro, sufocante e sem luz, ou, se quiserem, abismo sombrio e aterrador – essa é a verdade.

A ascensão do populismo de direita aqui é a materialização dessa ladeira abaixo do abismo. Se não tivermos um projeto nacional, se não rompermos com o espírito de submissão, se não agirmos com força e coragem – não seremos nem mais Brasil! Precisamos, em primeiro lugar, afastar essa gente que tomou de assalto o estado.

A questão, porém, consiste em que a fratura exposta não é só do país que pode se despedaçar e acabar como estado-nação. Mas sim também do próprio sistema capitalista que vai adiando suas crises, cada vez mais agudas, nas tramas do quem pode, pode, quem não pode vai para o escambal. Engana-se quem acredita que, depois da pandemia, se houver “depois”, as coisas vão voltar ao normal. Que normal?

Isso, valendo também para as futuras gerações – e não só para as atuais – se nós, aqui, não revertemos essa situação de colapso a partir de um projeto que sinalize outra direção – e não mais o privatismo de tudo, a desigualdade crescente, a pobreza como normalidade e o escárnio e o deboche racista dos mais ricos.

A partir do colapso, só temos um caminho: buscar algo novo e não algo do passado. Contraditoriamente, a lebre tende a morrer, sim, nessa corrida ilusória e sôfrega da pantomima civilizatória do capitalismo. István Mészáros tem razão quando usa a expressão “socialismo ou barbárie”. Fica a indagação sobre o que queremos ser e fazer nesse salve-se quem puder.

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