Segunda Chance, por Samuel Lourenço Filho

Foto Afroreggae

Segunda Chance

por Samuel Lourenço Filho

Primeiro é o estigma de assassino. Não há meios que me possibilitem esquivar desse rótulo, salvo se eu não mais tocar no assunto. Como não consigo fazê-lo, talvez, seja pela culpa de participar de um homicídio do qual eu não tinha nenhuma relação direta, ou seja pela impossibilidade de se esquivar dada as questões de responsabilização, em que assumindo o a autoria do crime, seria uma forma de tentar se honesto e justo no processo.

Depois vem a questão de ser um “ex-presidiário”, esse é o outro estigma que marca o sujeito após o cometimento de um crime. Daí independe do crime praticado, ex-presidiário é um só. Esse etiquetamento de ex-bandido, impossibilita, em muitas situações, uma retomada, menos hostil, de vida extramuros, já que a sua relação com grande parte das pessoas que compõe a sociedade, é desprovida de afeto.

A segunda chance para alguém que comete um crime é uma situação ou condição vista como um privilégio e atribuída àqueles que após um assassinato ou qualquer outro crime, voltam ao convívio externo. Em geral é a partir da vítima que a questão da segunda chance ganha força: “A vítima não tem segunda chance, mas você tem né?”. Assim, a segunda chance é vista com muita indignação por parte daqueles que a criam para esse fim. Inventam a segunda chance para então, desejar anular o penitente.

Segunda chance seria se o assassino morresse e ressuscitasse, do contrário, esse negócio não existe, não passa de uma construção ideológica que visa reforçar o estereótipo de que a pessoa que comete crime, que responde o processo presa, que vive os flagelos da prisão, é um agraciado.

Mas considerando a existência da segunda chance, é importante frisar que as pessoas só a reconhecem, ou a tal só passa a existir depois que o penitente é posto em liberdade, mas se a pessoa no momento de assassinato, não morre junto com a vítima, a tal segunda chance começa bem antes, nesse caso, no momento da prisão ou da fuga.

O que seria então uma segunda chance?

Geralmente eu sou muito criticado por ter essa segunda chance. Para os críticos, ou justiceiros, o fato de eu, hoje, estar estagiando, concluindo uma faculdade, significa que eu fui um privilegiado enquanto a vítima não. Já ouvi: “Você vai se formar, a vítima não!”.

Ninguém me criticou por ter uma segunda chance quando, já rendido, fui alvo de diversos disparos, e sob gritos de “vai morrer, seu filho da puta!”, seguia em direção aos demais policiais para ser amarrado com uma corda. A segunda chance começou ali.

Durante os dois anos e quatro meses que fiquei na condição de preso provisório, nada foi dito sobre a segunda chance. Fiquei por quase três anos em carceragens que são ambientes minúsculos que concentram uma quantidade gigante de presos. Lá o suor era puxado com o rodo, tamanho era o calor das celas. Certa feita um pastor aferiu a temperatura no lugar que passava dos 50°.

Comida azeda, pão mofado, água quente pra consumo saindo da torneira, morcego morto em caixa d’água foram aos privilégios de um preso, contudo isso não é visto como segunda chance, pois esse é o pacote do esculacho. “Matou alguém e desejava carinho ao chegar na cadeia?” – radicaliza o desonesto. São 12 anos de cumprimento de pena, e insiste em bater na tecla de segunda chance.

As pessoas não falam em segunda chance enquanto a pessoa está presa em regime fechado. Mas ao chegar no semiaberto, conseguir uma saída temporária, progredir para o regime aberto, conseguir o Livramento Condicional. Só vociferam contra o penitente quando descobrem que ele foi solto, nesse caso, não há segunda chance, pois se assim fosse, os reclamões e insatisfeitos os deixariam em paz. E isso não acontece, então não existe uma nova chance com seus erros dos passados e toda projeção do futuro marcada pelas acusações já resolvidas na justiça.

Dificilmente teremos uma segunda chance para o bandido numa sociedade cristã comprometida com a culpa. É complexo imaginar numa segunda chance para o ex-detento quando se tem uma turma voltada para o justiçamento popular e que se alimenta de um ideário baseado na tal impunidade, para os tais não basta ter cumprido pena, deveria ter morrido! Não há de ter segunda chance, quando uma sociedade que não consegue lembrar o que comeu no almoço do dia anterior, mas não esquece do que você fez anos atrás.

Se assume o crime, torna-se um ser frio. Se chora, é remorso e teatro. Se fica calado, consentiu com o feito. Se busca a vida “comum”, é visto como alguém que vive como se nada tivesse feito. Segunda chance é uma artimanha utilizada para expor o criminoso, depois de condenado e de ter cumprido a pena, como privilegiado. Incitar seu assassinato é a maneira mais sutil de revelar que de fato não existe segunda chance.

Samuel Lourenço Filho – Cronista, palestrante, egresso do Sistema Prisional, aluno de Gestão Pública para o Desenvolvimento Econômico e Social -UFRJ

2 comentários

  1. Na prática é uma hipocrisia

    Na prática é uma hipocrisia não haver prisão perpétua na nossa legislação, se o cumprimento da pena não é considerado como “punição dada, vida que segue”, então a sentença é para a vida toda.

  2. Sobre ex-presidiário

    Eu não me lembro se li ou ouvi um ex-presidiário dizer em um filme: “vocês não verão as grades que exitem ao meu redor, mas elas estão aqui e vão permanecer para sempre;”

    Esse pensamento não é típico do brasileiro, ele é, praticamente, universal. Até mesmo entre os familiares ele se faz presente.

    A ciência que lida com o comportamento ainda não conseguiu resolver esse problema e acredito estar longe disso.

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