Ser ou não ser cidadão, eis a questão, por Cristiane Alves

Obras de Tarsila do Amaral

Ser ou não ser cidadão, eis a questão

por Cristiane Alves

Quando nos sentimos impedidos ou logrados dizemos que somos cidadãos, pagamos impostos, temos direitos. Pois bem, o que é ser cidadão?

O termo cidadania teve origem na Grécia antiga, cujas cidades tinham estatutos de estado, eram independentes e tinham características ímpares. Ali, era possível ser estrangeiro em uma cidade cuja língua, cultura e religião era a mesma que a sua, mas tinha função distinta.

A política surgiu na cidade. Urbanidade, a capacidade de ser cordial e ético ao tratar o outro provém do modo ideal de se relacionar dentro das cidades. A república, o poder descentralizado (conforme consideravam descentralização), as decisões conjuntas e participativas, tudo tendo como sítio ideal o urbano, a cidade. 

Parece lógico, portanto, que cidadão era o indivíduo frequentador da cidade e das relações políticas propostas por ela. Hoje cidadania parece mais ligada ao voto, aos encargos, às cobranças. É verdade, ser cidadão envolve cumprir regras, sempre foi assim. Mas não para aí.

Ser cidadão é ter o espaço urbano como um de nossos sentidos, tão intrínseco que não questionamos ou racionalizamos. É quase como respirar. Do mesmo modo como o não poder ser cidadão é como tentar vivenciar a morte estando vivo.

Ocorre que somos o espaço que frequentamos. É essa uma das razões de pessoas se tornarem diferentes conforme o bairro para onde mudam, ou o motivo de pessoas nunca saírem do mesmo bairro mesmo melhorando suas condições econômicas.

É compreensível então que, ao sermos impedidos de frequentar todos os espaços não nos sintamos cidadãos completos, e essa é a verdade. Não somos.

O compositor José Geraldo propôs uma discussão riquíssima através da canção “Cidadão”. Linda composição que narra o cotidiano de um trabalhador da construção civil, desde suas dificuldades com transporte (e transporte público é um fator relevante ao se entender o uso da cidade) até seus feitos transformadores da paisagem. Nessa narrativa o personagem é impedido de frequentar os espaços que ajudou a construir, o edifício alto, a escola que sua filha não pode frequentar por ser pobre. De todos os espaços por ele construídos apenas a igreja lhe permitiu acesso. Um cidadão incompleto é o que mostra ser com um lamento poético.

Hoje um vídeo circulando nas redes sociais causou indignação e desconforto. Nele, um segurança de shopping tenta impedir um rapaz de alimentar um garoto pobre na praça de alimentação de um shopping. O vídeo é emblemático porque, embora fale pouco ou quase nada a respeito do garoto, sua identidade ou origem (ainda bem), mostra que algumas pessoas, mesmo pagando, são menos humanas. Não mostra identidade, mas mostra, e seríamos muito desonestos se ignorássemos tudo que diz ali.

Gostaria muito que ao ler esse texto você pensasse o que nos faz mais humanos, brasileiros ou cidadãos que outros. Quem sabe um dia as pessoas vistam suas camisetas e saiam às ruas exigindo por direitos iguais para todos.

Seria realmente lindo.

 

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