Será possível fazer militância sem matar o desejo?, por Rita Almeida

Será possível fazer militância sem matar o desejo?  Sobre o “rato tomando banho” e outras miudezas importantes

por Rita Almeida

Alguns textos são particularmente difíceis de escrever, e este foi um deles.  Só segui até o fim por acreditar que as escritas mais difíceis são, também, as mais necessárias, ainda que sejam apenas para provocar incômodo.

Parto de algumas das perguntas que mais têm me angustiado nos últimos tempos: É possível fazer militância, sem cair no discurso moralista?  Como a esquerda pode tratar das suas diversas temáticas identitárias (feminista, LGBT, étnico-racial e outras), sem ficar aprisionada nos excessos do discurso politicamente correto? Como garantir o “lugar de fala”, sem incorrer no autoritarismo e na quebra dos laços? Como defender “minhas causas”, sem transformar o outro no espelho negativo de mim? E a questão mais importante e que atravessa todas as demais: como fazer política sem matar o desejo? Ou seja, como pensar no coletivo e sua estrutura, e ainda assim manter um lugar para a singularidade de cada um?

Para início de conversa é importante dizer que a relação entre o singular e o coletivo é de uma tensão insolúvel, já que o grupo funciona sempre como uma barreira para evitar que o sujeito satisfaça todos os seus desejos singulares. Partindo deste viés, podemos dizer que, o discurso da direita tende a ser mais individualista, e o da esquerda tende a ser mais coletivista. Ou seja, a esquerda acredita que, as ações na estrutura da coletividade são mais eficazes para intervir nos problemas da sociedade do que focar nos seus efeitos singulares. Por exemplo, a esquerda sustenta que, para reduzir a criminalidade, é mais eficaz intervir na redução da desigualdade social do que no aumento da dureza da lei para prender o “zé das couves” . Nesse sentido, primando por ações universalistas, que visam a coletividade, há um enorme risco de que a militância de esquerda se torne um rolo compressor moralista e burocrata, que oprime e persegue qualquer desvio ao que foi estabelecido para o todo.

Entretanto, respondendo às perguntas que levantei, tenho pensado que PRECISA ser possível fazer militância de esquerda sem cair no moralismo burocrata ou nos excessos do discurso politicamente correto. E é preciso, pela importância de se manter frestas para o desejo singular já que, para o bem ou para o mal, essa é única via possível para nos enlaçarmos uns com os outros. Ao contrário do que comumente se supõe, não nos ligamos uns aos outros pelas nossas similaridades, mas pelas nossas diferenças. Num mundo de clones e cópias, não haveria necessidade de nenhum outro, cada um se bastaria. Afinal, por que eu procuraria no outro aquilo que já tenho?

E é nesse ponto que mora a tensão que nunca se esgota entre o singular e o coletivo.  Pois, se uma política em prol da coletividade não consegue deixar um espaço para as singularidades que garantem nossos laços, a única forma de fazer o coletivo se manter coeso é criando um inimigo comum, ou acentuando regras morais e burocráticas, a fim de manter as pessoas olhando e caminhando na mesma direção.  E se repararem, todos os discursos fundamentalistas se valem de tais características: criam excesso de regras e modelos identitários, e se nutrem de ódio ao outro da diferença.

Lamentavelmente – e essa é a provocação que pretendo deixar aqui – nossas formas de militância política no campo da esquerda têm caminhado para um tipo de fundamentalismo. Em nome das mais nobres e importantes bandeiras, caímos no engodo de fazer laço por meio das burocracias morais e transformando o outro/diferente na negação daquilo que sou.  Todavia, nas duas estratégias, conseguimos o efeito contrário do que uma militância precisa para ser efetiva, na medida em que afastamos as pessoas, ao invés de agregá-las para nossa luta. Ou seja, ficamos protegidos e confortáveis entre nossos iguais, criando cada vez mais regras morais para regular o modo como o outro deve se dirigir e agir conosco, e fomentando o ódio pelo outro que não sou eu. É assim que, muitas vezes, a bandeira feminista, por exemplo, se empobrece e embrutece, se transformando numa rivalização mulheres x homens. E podemos estender esse modelo de militância para outras bandeiras: movimento negro (pretos x brancos), movimento LGBT (gays x heteros) e por aí vai…

É obvio que não estou dizendo que abomino completamente as regras, a moral ou as burocracias, elas são fundamentais e necessárias no processo civilizatório. Estou apenas apontando para a importância de conseguirmos utilizá-las sem que sufoquem a singularidade, a contingência, o inesperado, deixando uma fresta aberta para que o desejo de cada um sobreviva e compareça, ainda que saibamos que o desejo será sempre algo que rompe com o estabelecido e o esperado, e que isso, invariavelmente, poderá causar mal-estar às bandeiras que defendo.

Vou tentar traduzir o que estou tentando dizer aqui com um exemplo, que, aliás, foi o que me levou a escrever este textão. Utilizarei, para isso, o meme mais famoso das últimas semanas: o do “rato” (pacarana) tomando banho.

O movimento em defesa dos animais é totalmente legítimo, eu, inclusive, sou uma das adeptas. Creio que evoluímos como espécie humana quando levantamos a bandeira de que os animais são nossos parceiros nessa jornada e merecem tanto respeito quanto nós. Inclusive, esse foi um dos motivos que me fez parar de consumir carne aos 12 anos de idade. Então, a militância em prol dos animais é fundamental, eu penso. Mas a questão é: como atuar nesse campo político, sem se transformar num chato moralista que vomita regras o tempo todo ou num fiscal do erro alheio, pronto a condenar e linchar quem porventura cometeu algum “vacilo” com um animal? Será possível agir no campo coletivo, sem criar uma armadilha opressora e policialesca das singularidades?

Levei cinco dias para parir este texto, tamanha a inquietação que ele me provocou. Sendo assim, não pretendo fechar questão alguma e nem quero criar mais um novo protocolo para evitar a chatice, sendo chata. Só quero lançar um desafio, que eu considero enorme: fazer militância de uma forma menos moralista e dogmática, e mais leve e aberta às singularidades desejantes. Sobre a militância em favor dos animais, pensei o seguinte:

Pensei que precisamos cuidar das leis que protegem os animais e fazê-las valer.  Pensei que tais leis devam regulamentar o uso de animais para experimentos, para nossa diversão, para nosso transporte, para nosso vestuário, e que cada dia mais possamos retirá-los do lugar de objeto e/ou de consumo. Pensei que é importante fortalecer associações e instituições que cuidam e protegem os animais. Pensei que, a discussão ética e ecológica sobre o tema, precisa ser constante nos vários setores da sociedade. Ou seja, pensei que todas as intervenções na política (macro), no sentido de regular e melhorar nossa visão coletiva e nossa versão de cidadania no que tange o cuidado com os animais, são totalmente louváveis e bem-vindas. No entanto, transformar um evento singular – “um animal de estimação tomando banho e sendo gravado pelo seu dono para fazer graça nas redes” – numa sanha perseguidora e moralizadora, que desarvora uma horda de “especialistas” (argh/eca) e problematizadores de ocasião para criticar o “dono” do animal ou quem divulgou o meme, um excesso totalmente desnecessário e quase inútil para a causa, que cumpre mais a função de desagregar e gerar antipatia. Já se depararam com um vegetariano daqueles bem chatos tentando convencer um carnívoro a parar de comer carne? Não dá vontade de picá-lo e botá-lo na churrasqueira ao lado da picanha? Então? É isso! Será possível caminhar para uma sociedade que, quem sabe, não usará animais como alimento, sem ser esse chato moralista que estraga o churrasco alheio?

Estou dizendo que problematizar o “rato tomando banho” é um excesso desnecessário, se estamos falando sob a perspectiva da esquerda, é claro, de pensar que investir nas ações coletivas, na política macro, nas estruturas, é que vão provocar o efeito que desejamos nas miudezas. Assim sendo, transformar o “banho do rato” numa questão a ser abordada pela militância dos defensores dos animais seria o mesmo que, por exemplo, achincalhar um caçador africano ao ser flagrado (filmado) arrancando o chifre de um rinoceronte para vender, sabendo que existe toda uma macro estrutura que compra e lucra com esse tipo de comércio e que, para o tal caçador, pode ser a única forma de sobrevivência.  Portanto, toda militância que fica presa apenas na problematização do um a um, corre o risco de fazer uma militância pequena, moralista, que policia os “erros” de um sujeito, ao invés de se preocupar mais com a estrutura que gera tal efeito. E isso resulta numa militância chata, antipática, que mais afasta o outro do que agrega forças, porque é dura e inflexível, por não se dispor a levar em conta a singularidade de cada situação, ou seja, o desejo de cada um.

Nesse momento alguém deve estar me perguntando: “Então você está dizendo que as militâncias não devem intervir no que acontece no caso a caso?” Eu diria que às vezes sim e às vezes não e, depois de dizer isso, vou entrar no território mais espinhoso do texto, onde será necessário distinguir a lei da regra.

Ao contrario do que pensa o senso comum, numa democracia, ninguém está proibido cometer um crime. Nesse sentido, a lei é bastante diferente da regra, no que tange o desejo, como veremos. A lei coloca o sujeito diante de uma escolha desejante, afinal, ele pode decidir cometer um crime e romper com o acordo coletivo, a fim de fazer valer o que quer. No entanto, se optar por um desejo que o leve a descumprir uma lei, vai estar sujeito a ser investigado, a responder um processo e poderá ser condenado a uma pena. Isso faz da lei um instrumento muito interessante para as subjetividades e para o desejo, na medida em que ela não impede o sujeito de escolher, no entanto, faz com que ele se responsabilize pelas consequências da sua escolha. Portanto, quando a militância atuar no um a um, ela pode ser aquela que denuncia um crime e toma as medidas necessárias para que o suposto criminoso seja julgado e responsabilizado devidamente, se for comprovado o crime. Mas é importante que se entenda que, fazer valer a lei não é o mesmo que encarnar a lei. Encarnar a lei é fazer justiçamento, que quase sempre é sinônimo de linchamento (físico, moral, virtual, ou outros); algo muito comum ultimamente.

“Então, agir usando a lei resolve a questão ética para a militância com o caso a caso?” Também não, penso eu. Numa sociedade tão desigual e injusta como a nossa, não é possível pensar que denunciar Silvio Santos por abuso machista escancarado na TV, seja o mesmo que agarrar um “moleque” na rua aos tapas, chamar a polícia, filmar a cena e divulgar nas redes sociais, acusando-o de abuso por ter “passado a mão da bunda de uma mulher” (outro caso que caiu na rede dias atrás). Uma militância comprometida com a esquerda, também não pode se prestar a pactuar com uma coisa dessas, sabendo que, no caso do jovem, trata-se muito mais de uma vítima da estrutura machista do que seu fomentador. E o que é pior, por ser pobre (como parece que é o caso), poderá receber uma pena totalmente desproporcional ao suposto crime. E o que o evento ajudou na desconstrução do machismo? Nada. Só serviu para alimentar uma espécie de vingança feminista, aliás, para minha tristeza, muito comum no nosso movimento. 

Por outro lado, bastante diferente seria barrar Silvio Santos nas suas condutas abusivas na TV, por exemplo, como foi o caso da repercussão do comentário racista de William Waack, tempos atrás. Trata-se de pessoas públicas, poderosas, formadoras de opinião, que podem ser consideradas fomentadoras de machismo e racismo, respectivamente, e não vítimas deles, além disso, eles terão todas as condições de se defender das acusações. E a repercussão e punição de casos como esse, se for comprovado o crime, fazem diferença para as militâncias? Sim. Pelo lugar de poder e de fala que essas pessoas ocupam. Mas, isso significa que vamos linchar Silvio Santos e William Waack em praça pública ou transformá-los em dois monstros? Também não. Lembramos que eles podem escolher cometer o crime e pagar por ele, estamos numa democracia. Mas se nosso objetivo é desconstruir o machismo e o racismo e não nos vingarmos de Silvio Santos e Waack, missão cumprida, não é?

Vamos agora para o último ponto deste texto, que acredito ser o mais complicado nas militâncias, que é o das regras. Todas as militâncias identitárias seguiram pela via da criação de regras: regras para se comportar e para usar a linguagem. Como eu já adiantei, as regras se diferem da lei. Enquanto a lei suporta o desejo, por levar em conta a possibilidade do sujeito escolher pagar o preço por burlá-la, a regra mata o desejo, pois pretende criar um modo correto de ser, de se comportar ou de falar, que seja totalmente assimilado pelo sujeito, evitando/proibindo o erro antes que ele aconteça. Por exemplo, nenhuma lei será capaz de eliminar o assassinato da nossa sociedade, mas uma regra é capaz de banir completamente uma palavra da nossa língua, caso ela seja considerada ofensiva por alguma minoria. Não é curioso que uma regra seja mais poderosa que uma lei? É por que as regras são capazes de matar o desejo. Nesse caso, o sujeito perde o que ele tinha com a lei: a “liberdade” de escolher cometer o erro.

“Então você está dizendo que não devemos fazer militância por meio de regras?” Não, exatamente. Estou dizendo que, se as regras matam o desejo, o excesso delas numa militância, mata também o desejo na própria militância. Pois, o problema das regras é que elas nunca são suficientes e tendem a se multiplicar e ampliar seu espectro de atuação. Ao contrario da lei que é suficiente para demarcar um limite, uma regra, em geral, abre caminho para outras regras. Vamos supor que o assassinato deixasse de ser uma lei – matar outra pessoa é crime e ponto – para se tornar uma regra – você só pode matar uma pessoa se tiver vestida de amarelo, utilizando a mão direita, de segunda a quarta-feira, em noites de lua minguante, acompanhado de duas pessoas, e… Podemos continuar a construção desta regra ao infinito e ainda desmembrá-la em várias outras regras: para determinar o tom do amarelo, a idade dos acompanhantes… Assim sendo, a regra vai embotando, vai endurecendo, vai embrutecendo e empobrecendo nossos laços, pois tende a cercear todo tipo de diferença. É que, enquanto a lei conta com o erro e o mal-estar que ele provoca, as regras vão fazer de tudo para que todos ajam da mesma maneira, barrando o mal-estar antes que ele aconteça. E uma militância feita apenas de iguais que seguem as mesmas regras e repetem os mesmos mantras, e que exigem que o outro também seja igual, são militâncias que não acolhem as diferenças, por isso, são pobres em laço, dependendo cada vez de mais regras e de um inimigo comum. Por isso, às vezes, se torna muito fácil comparar certas militâncias com religiões fundamentalistas ou grupos fascistas.

Por fim, o que pretendi aqui foi fazer uma provocação e lançar um desafio a todas as militâncias de esquerda: Será possível pensar a política macro em prol de nossas bandeiras e reivindicações – uma política que torne nossa sociedade mais justa e menos preconceituosa – sem se transformar num rolo compressor para as singularidades? E eu repito que precisamos conseguir fazer isso, se a outra opção é matar o desejo. Para o bem ou para o mal, só o desejo garante que não sejamos um bando de cópias e clones repetidos. E só é possível sustentar o desejo, onde cometer erros é considerado uma alternativa possível. Vale lembrar que não habitamos o paraíso; esta é a tragédia e a beleza da espécie humana.

 

 

 

 

 

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