Sim, ou, não?, por Gustavo Gollo

Mais frequentemente que imaginamos, as palavras trazem com elas umas implicações não decorrentes das intenções de seu autor e completamente injustificadas.

Sim, ou, não?, por Gustavo Gollo

Mais frequentemente que imaginamos, as palavras nos induzem a acreditar no que não deveríamos, sem perceber termos sido iludidos por elas. Algumas perguntas, por exemplo, podem trazer embutidas respostas prontas, pressupostas na própria pergunta.

Também se acredita, comumente, ser possível responder adequadamente a perguntas apenas com sim, ou não, o que consiste em uma forma tradicional de incriminação, vejamos um exemplo:

– Responda sim, ou, não: você já parou de bater na sua mulher? Sim ou não?

– Sim –, responde o crédulo.

– Aaaahhh, parou ontem, né? Todo dia isso! Tem que parar com isso de uma vez!

– Não – responde afobadamente a criatura, à beira do desespero, percebendo ter incriminado a si própria.

– Não?! Mas ainda não parou de bater na sua mulher? Mas isso é coisa que se faça? Tem que parar com isso!

Tendo aceitado o sim, ou não, recairá sobre a dócil criatura, a condenação – mesmo na eventualidade de o cara ser solteiro!

O exemplo ilustra claramente tanto o fato de perguntas poderem pressupor respostas prévias, quanto a malevolência absurda dos que impõem a obrigatoriedade do sim, ou, não.

 

Mais frequentemente que imaginamos, as palavras trazem com elas umas implicações não decorrentes das intenções de seu autor e completamente injustificadas. Uma parte considerável de nossas crenças advém, pura e simplesmente desses “efeitos colaterais”, informações indesejadas que acabam atingindo o alvo receptor do verdadeiro informe.

Também é possível estudar e utilizar conhecimentos análogos com propósitos de manipulação, como fazem cotidianamente os grandes meios de comunicação.

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Nossas crenças andam fortemente impregnadas de “efeitos colaterais” desse tipo. Ao mesmo tempo, somos umas criaturas conservadoras, de modo que, uma vez familiarizados com tais absurdos, qualquer consideração que os contradiga, por mais óbvia e racional que seja, nos parecerá, ela sim, disparatada. Vige o absurdo.

 

De qualquer modo, sinto-me obrigado a alertar o leitor para uma arapuca adicional incluída no exemplo, uma espécie de anzol nele contido que, ao enganchar no interlocutor, tende a gerar situações absurdamente constrangedoras.

Advirto seriamente que, se tentar explicar a artimanha linguística exposta acima a outras pessoas, com uma frequência surpreendente, o leitor se verá metido no seguinte imbróglio:

– Responda sim, ou, não! Você já parou de bater na sua mulher?!

– E o que é que você tem com isso?!

 

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