Um bolo norte-americano para o inverno nuclear, por Fábio de Oliveira Ribeiro

A ONU foi criada para evitar uma nova guerra mundial. O principal instrumento para garantir esse objetivo foi a proibição de guerras de conquista territorial.

Um bolo norte-americano para o inverno nuclear

por Fábio de Oliveira Ribeiro

A principal consequência da guerra é o movimento das fronteiras. Basta olhar três mapas da Europa para perceber esse fato. As fronteiras que existiam em 1910 deixaram de existir após o fim da Primeira Guerra Mundial. As fronteiras que foram acordadas em Versalhes sofreram alterações novamente após a expansão do Terceiro Reich. No final da Segunda Guerra Mundial, o mapa europeu estava irreconhecível. A Polônia perdeu uma parte de seu território no leste e ganhou uma porção correspondente do território alemão.

A ONU foi criada para evitar uma nova guerra mundial. O principal instrumento para garantir esse objetivo foi a proibição de guerras de conquista territorial. A imobilização das fronteiras europeias garantiu uma paz duradoura, mas não eliminou parte do problema: a difícil convivência de diferentes povos dentro dos novos estados nacionais.

Os limites da pacificação do pós-guerra foram testados durante o violento desmembramento da Iugoslávia. A separação entre ucranianos e russos na Ucrânia é uma nova fonte de problemas, com um agravante. Os EUA criaram e apoiam o regime nazista de Kiev, e a Rússia está determinada a impedir um genocídio de russos em regiões ucranianas cujos povos preferem fazer parte da Federação Russa.

Há uma diferença fundamental entre civilizações regidas por mitos, regidas por interesses gananciosos, e aquelas em que a História desempenha um papel fundamental na política externa. Egito, Pérsia e Atenas (vide a História de Heródoto); EUA, China e Rússia nos dias de hoje.

Os três primeiros deixaram apenas ruínas e alguns textos que inspiraram a criação de dois dos três últimos países. Mas nem mesmo ruínas permanecerão quando o povo atualmente governado por mitos for à guerra porque não entendem ou não querem entender as civilizações governadas pela ganância e pela História.

Um mito existe fora do tempo e mantém contato tênue com a realidade. A racionalidade da ganância é incompatível com a irracionalidade dos mitos. A História é capaz de isolar mitos e a ganância em espaços apropriados, mas incapaz de impedir que ambos causem conflitos futuros.

Na Ucrânia, um mito (a autoproclamada fronteira móvel norte-americana, que se move para onde a Casa Branca acredita ter interesses) apoia a ganância do regime nazista em Kiev e se opõe à relação histórica entre russos ucranianos e a Federação Russa. Este conflito não pode ser resolvido, pois cada uma das partes envolvidas entende apenas seus próprios argumentos. E eles pertencem a universos simbólicos diferentes.

Essas três coisas (mitos, ganância e história) podem afetar a vida de todo homem, mas a influência que exercem sobre as civilizações é imensa e devastadora. Nós, homens impotentes, só podemos imaginar o melhor, mas na verdade somos apenas folhas delicadas.

Na Ucrânia, os EUA têm que abandonar o mito da fronteira móvel. Mas isso provavelmente não vai acontecer. Kiev poderia renunciar à pretensão gananciosa de controlar pela força bruta uma parcela da população que não quer se submeter ao regime político nazista. Isso será difícil de ocorrer enquanto a Ucrânia receber apoio dos EUA e da OTAN. A Rússia não pode e não renunciará ao seu direito de proteger os russos ucranianos que preferem se juntar à Federação Russa.

A guerra parece inevitável. Ela não será pequena e pode ser a última.

As folhas crescem na primavera e no verão e caem no outono e no inverno. E agora um inverno nuclear desconhecido e indesejado está chegando. Ao que parece, nada poderá ser feito para evitar isso. Os mitos seguirão seu curso genocida, a ganância será ofuscada pela irracionalidade, e essas duas coisas colocarão um ponto final na História.

Sim eu sei. Minhas palavras são apenas ecos em uma caverna. A escuridão cega meus olhos e aguça minha audição. O toque me ajuda a me mover neste lugar misterioso que é o futuro. Mas… há sempre um novo “mas”. Estou à beira de um poço que não posso ver? Ecos, ecos, ecos…

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

1 Comentário

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Antonio Uchoa Neto

- 2022-01-26 12:30:20

A “Operation Crossroads” da foto infame que ilustra esse post é a explosão de duas bombas nucleares pelos EUA no atol de Bikini, em 1946. A sordidez da mentira e o alcance da depravação americana que está associada a este teste pode ser vista no documentário “The Coming War on China”, de John Pilger. Para quem tiver estômago e quiser se aprofundar nas citadas sordidez e depravação americanas, pode ver documentários disponíveis no Youtube, sobre os efeitos desses “testes”, além daqueles que se seguiram a situações de guerra em que os EUA se envolveram no sudeste da Ásia: https://www.youtube.com/watch?v=cTfHwJr1UnM https://www.youtube.com/watch?v=DVpo6k3n6II Partes da população da Ucrânia lutaram ao lado dos nazistas contra a União Soviética, na II Guerra Mundial. Já o haviam feito na I Guerra Mundial, e durante a guerra civil que se seguiu à revolução bolchevique. Acreditaram que os alemães estavam ali para libertá-los, e não para escravizá-los. Creio que a antiga solução salomônica de dividir países/etnias, como na Coréia, na Alemanha, já não funciona mais. Pode ser bom, ao menos cosmeticamente, para os diplomatas e arautos da paz mundial, mas não serve mais para falcões, para o complexo industrial-militar, para corporações ávidas por mercado e mão-de-obra barata, enfim, para os interesses de todas essas edificantes instituições criadas pelo ser humano, que, no seu afã de levar a paz, a democracia, e a liberdade aos habitantes do mundo todo, não hesitam em exterminar um bom número deles, comunistas recalcitrantes, demônios amarelos e vermelhos, e todo tipo de sub-gente dos quais não é possível extrair nada, e só dão despesa. Afinal, como diria o Marechal Antonescu, também os senhores dessas instituições tampouco se importam em entrar para a História como bárbaros. Talvez porque não haverá mais História para entrar, depois dessa guerra que se aproxima. Ao menos morrerão ricos, poderosos, e sobre lençóis de cambraia fina. Arre, que eu estou ficando amargo, com isso tudo.

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