Um país ou um feirão – é o dilema que se revela na crise dos caminhões, por Reginaldo Moraes

Um país ou um feirão – é o dilema que se revela na crise dos caminhões

por Reginaldo Moraes

Começo por uma forma de falar que me incomoda: começar alguma reflexão com “a esquerda isso, a esquerda aquilo”. Nós, da esquerda, camaradas, não na terceira pessoa. E vamos ver se é mesmo verdade que “a esquerda pensa isso, faz aquilo”. Ou se estamos construindo um boneco artificial, fácil de atacar para dormir sossegado com nossa própria “esquerdice”.

Vista no retrovisor, a tradição das esquerdas (no plural) está cheia de erros e acertos, grandezas e misérias. Quando olho para as decisões que tomei (eu e meus amigos) depois do AI-5, vejo o tremendo erro de análise e suas consequências desastrosas. Mas procuro me imaginar, de novo, naquelas circunstâncias dramáticas, que limitavam nossa razão e nosso coração. Agora, os acontecimentos avançam rapidamente, alguns tremores de terra anunciam possíveis abalos de grande monta. Vamos procurar – tanto quanto possível – um modo de entender o jogo, para jogar certo. 

Um dos cuidados é evitar a doença para-acadêmica (não é acadêmica, de fato) da discussão abstrata. É claro que tem importância saber se estamos diante de uma greve ou de um locaute. Não para satisfazer nosso dicionário, mas para saber o potencial, os fins almejados pelos agentes e assim por diante. Para posicionar nosso próprio time, enfim. Mas, antes disso, vamos fazer uma fenomenologia básica do evento, descrever o cenário e os sinais de trânsito que conduziram os motoristas de caminhão. Por detrás desse estouro havia um longo e largo processo de conflitos, negociações, pressões e contra-pressões. Esta negociação mais recente – sobre diesel e pedágios – vem de meses. E, enquanto isso, havia uma vida cotidiana de milhares de indivíduos expostos a vidas degradadas e tensas, disponíveis para as mais variadas tentações e aventuras. Trabalhar dezoito horas por dia, na base de comprimidos, dormir e comer na boléia do caminhão. E ganhar apenas o suficiente para seguir na lida. E havia, do outro lado, um projeto de desmonte da nação que tinha como seu elemento chave o desmanche da Petrobrás como instrumento de política de desenvolvimento. A Petrobrás teria que ser transformada, nas exatas palavras do tal Parente, em uma padaria destinada a gerar lucros para seus acionistas.

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O que brotou desse confronto, agora militarizado, é o choque entre uma visão de país e uma visão de feirão administrado por feitores coloniais, que fazem o serviço e ganham sua comissão. Não é casual que o dr. Parente e seus parentes sejam, precisamente, empreendedores desse ramo, para-banqueiros e gestores de famílias milionárias. Estão no papel adequado. 

Para que os caminhoneiros tenham uma vida decente, os brasileiros tenham distribuição dos bens elementares, é preciso ter um país, não esta zorra em que consiste o programa do golpe. Em suma, um país não está nas contas do dr. Parente, como não está na conta dos economistas-banqueiros do PSDB, aqueles que dizem que a constituição de 1988 não cabe no orçamento, que é preciso canibalizar a nação.

Pode ser que os caminhoneiros, suas lideranças e organizações tenham esta ou aquela inclinação, este ou aquele vínculo político. Devem ter, claro. Mas o confronto é esse: vamos ter um país ou um mercado de peixes, aberto aos grandes tubarões? Se queremos o primeiro, a Petrobrás não pode continuar no rumo em que está. E esse rumo foi traçado, em tempos recentes, pelo dr. Parente. Mas o desenho foi feito faz já algum tempo, por um engenho bem mais sofisticado, que incluía atores distantes, lá no hemisfério norte, aqueles que monitoravam secretamente os telefones e redes da Petrobrás e da presidência. Hillarys e Obamas na cabeça. E incluía, aqui, agentes dedicados da ofensiva do império – promotores, juízes, delegados, donos da mídia e um outro batalhão de vendilhões da pátria. A foto de Parente e Moro que agora circula é mais do que uma imagem festiva – é o retrato simbólico da operação delinquente. Um continua o trabalho iniciado pelo outro. Dois porcos numa noite suja. Ou melhor, na foto (e na vida) são quatro os suínos envolvidos.

15 comentários

  1. Um país ou um feirão – é o dilema que se revela na crise

    Esquerda que tem medo de auto-crítica, que se melindra com críticas, é a Ex-querda, cúmplice dos 13 anos de Lulismo que abriram caminho para o atual desastre.

    a crítica é a fagulha que deflagra o movimento e o combustível que o mantém aceso.

    quem foge dela não quer fazer política e deveria procurar um grupo de auto-ajuda.

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      • SOLUÇÃO

        Uma boa solução para mudar a face desse país é uma greve geral. Todos os trabalhadores parados. E por para correr toda a elite desse país. Políticos, empresários, advogados e todos os padres e pastores de igrejas. Colocar todos para correr. Invadir suas propriedades, empresas, fazendas. Formar grupos de trabalho com os trabalhadores de todas as atividades e retomar a produção. Ah, aqueles que não correrem para fora do país deverão trabalhar, limpando latrinas e removendo lixo, comendo quentinhas e dormindo nas ruas.

        Essa idéia já é um começo. Mas, ainda dá para melhorar!

        • Um país ou um feirão – é o dilema que se revela na crise dos cam

          -> Uma boa solução para mudar a face desse país é uma greve geral.

          só que o Lulismo não quer a Greve Geral, pois considera que nada deve ser feito porque mesmo numa masmorra em Curitiba, Lula vai ser candidato e vai vencer as Eleições de 2018. e então vai ser o Redentor do Brasil…

          simples e trágico assim.

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          • Carta na manga

            Por mais incompreensível que seja a tática do Lula (acho absurdo ele ter se deixado prender) até agora ela tem se mostrado acertada.

            Há muitas coisas das quais não temos conhecimento e as possibilidades de desdobramentos surpreendentes são muito grandes.

            Essa resistência aparentemente irracional  do Lula está mantendo a coesão de seu eleitorado, que de outra forma poderia ser dispersado por uma candidatura aventureira. Ele está ganhando tempo, cevando o seu candidato que, para contrariar o candidato da globo, que será bombástico, deverá estar muito bem amarradinho, com as bênçãos dele, o Lula e a simpatia do povo aliada a experiência política a administrativa. 

             

        • Greve geral

          Pode ser a próxima etapa.

          Dá vontade de fazer isso tudo que você disse, pensei nisso hoje,  mas um país sem uma elite mínima afunda em três tempos. 

          É a elite que detém o conhecimento do exercício do poder.

          Dos países que fizeram isso, exceto a China, Cuba e Coréia do Norte, quase todos já se retrataram ou voltaram ao sistema piramidal de poder.

          Russia, China, Cuba, Coréia, a Albânia, a Alemanha, muitos fizeram essa limpa mas, como qualquer praga, a elite corrosiva cresce sem precisar plantar.

           

      • Um país ou um feirão – é o dilema que se revela na crise dos cam

        -> A hora é de soluções. Tem alguma?

        um golpe não pode ser superado pela via institucional/ eleitoral. só um amplo e capilarizado movimento de massas pode derrotar o golpe. e isto é exatamente o que o movimento dos caminhoneiros autônomos se tornou.

        e não há sequer um único post que eu faça aqui, desde 2015, que esta “solução” não seja apresentada e defendida.

        para os Lulistas, contudo, só Lula é a “solução”…

        aliás, foram exatamente estas questões, e algumas outras, que foram abordadas nesta tarde, numa etapa municipal do Congresso do Povo da qual participei.

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        • Sinal pra você

          Sabe o que eu ouvi de um nonagenário no supermercado agora à tarde?

          -“Não estou vendo desabastecimento nenhum e essa bagunça é culpa do PT, eles é que estão por trás disso tudo.”

          “Mas tá todo mundo preso, o PT está acabado, sr.”

          -“É o PT e o Lula. “

          Seu acompanhante fez-me um sinal para não contrariar o idoso.

          Arques, meu querido,

          nem todo socialista é lulista MAS, assistindo hoje,. boa parte do dia, a cobertura da paralisação, em todos os seus aspectos, em especial o desespero e o cansaço dos agentes do governo reunidos com o seu tio vampiro lá em Brasília, sem tempo para almoço e banheiro, percebi uma coisa estarrecedora. Somente o Lula seria capaz de acabar pacificamente essa manifestação.

          O problema, Arques, a grande preocupação(pelo menos a minha) é a de quem vai capitanear essa paralisação.

          Se a esquerda for esperta, essa é uma oportunidade impar de retomada, mas e se não for?

          O governo admite que não soube negociar, que não tratou com as lideranças do movimento e agora ameaça, quer engrossar, mas não tem gasolina para “os tanques ameaçadores” e ainda disse que vai mandar a polícia federal prender os 20 maiores transportadores do país. PODE?

          O Jungman sempre esteve como um cego perdido num tiroteio. Onde ele chega com a sua bengala branca é abraçado e rodado pra ficar, além de cego, ainda tonto.

           

          • Um país ou um feirão – é o dilema que se revela na crise dos cam

            -> Somente o Lula seria capaz de acabar pacificamente essa manifestação.

            vc, e não só vc, está como o Counselor daquele trecho do filme que postei.

            tanto vc quanto eu, como todos nós, gostaríamos que houvesse uma solução pacífica não apenas para essa manifestação, quanto para tudo o mais.

            porém, as circunstâncias insistem em nos contrariar.

            e não pense que me sinto feliz em escrever isto.

            aliás, tem dias que na BR aqui em frente não passa sequer um caminhão. e desde ontem pela manhã o tráfego de automóveis está rarefeito. isto provoca uma estranha percepção.

            volto ao assunto mais tarde.

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          • Um país ou um feirão – é o dilema que se revela na crise dos cam

            -> Você disse tudo: Estranha percepção!

            para que não haja mal-entendidos: refiro-me a uma BR-2018 completamente deserta, a não ser pelos inúmeros monster trucks, como numa alucinada cena de Mad Max.

            no vídeo abaixo, compreendamos o ponto de vista alheio, sem o que jamais haverá diálogo.

            “O diálogo não é a conversa entre iguais, mas sim a conversa real e concreta entre diferenças que evoluem na busca do conhecimento e da ação que dele deriva. Diálogo é resistência.”

            vídeo: Intervenção Militar vai ser Decretada – O golpe de Temer

            [video: https://www.youtube.com/watch?v=nk4W4K-Oqfc%5D

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  2. Errou, meu amigo. Nem País

    Errou, meu amigo. Nem País nem feirão… É um cabaré de última classe. Tipo um bahamas club.

  3. Temer a cavalo

    Há muitos anos os caminhoneiros trafegam com um adesivo dizendo “Sem caminhão o Brasil para”. Todo mundo sabia da catástrofe que seria não ter ferrovias, hidrovias e ciclovias como alternativas de transporte de carga (inclusive carga viva) e passageiros. Só não contava que o pesadelo viraria realidade. Vamos ver se cai a ficha da população e se faz pressão sobre os gestores públicos e parlamentares.

    Se for verdadeiro o vídeo de um entregador de pizza montado a cavalo na noite de ontem, o símbolo do governo Temer será um quadrúpede apontando os cascos para um caminhão.

  4. os movimentos!!!

    Nem vou falar de 2013. Esse movimento, expontâneo ou não, surge quando a diesel aumenta em demasia. Não surgiu quando a previdência ou a legislação trabalhista mudou com apoio dos deputados e senadores. Ou quando o Parente assumiu a Petrobrás e disse que o comubustivel iria variar de acordo com o preço internacional do barril. Os caminhoneiros ficaram calados, hoje acordarm sei lá porque, onde o maior beneficiados, do movimento, serão os empresários de transporte. 

    E dificil para esquerda ou para um sensato entender esse movimento e sua motivação, não querem mudanças para seus futuros ou de seus filhos, mas sim para um tempo imediato, o preço do diesil. Tenho observado os esquerdistas e outros acharem esse movimento é importante, e, outras categorias, deveriam seguir o exemplo. Qual exemplo? Dizer que todo político é ladrão? defender Intervenção militar? 

    Eleiçõe chegam e cada vez mais fica claro que o Congresso ficará igual a antes. 

     

  5. + comentários

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