Uma análise do neofascismo, por Walter Serralheiro

Uma análise do neofascismo, por Walter Serralheiro

Trump, Le Pen, Bolsonaro… A proliferação dessas figuras no cenário político internacional não pode ser só mero acaso, uma triste coincidência. Para além das particularidades locais de seus estilos e propostas, salta aos olhos que têm algo importante em comum.

São todos neo-fascistas, cada um a seu jeito.

É talvez o que de mais astucioso tem sido inventado para promover e acirrar o circuito de gozo mortífero do capitalismo dois ponto zero – o neoliberalismo -, fingindo-se combater seus efeitos mais incômodos.

Tais efeitos, de sintomas, são apresentados pelo neofascismo como causas do que anda mal na civilização: imigração, criminalidade, degradação, corrupção…

Bandidos, Vagabundos, Safados, Corruptos, Imigrantes – dependendo do contexto, só mudam os nomes – são a versão repaginada dos Judeus na Mein Kampf particular de cada político neofascista.

Seu discurso, porém, sempre inclui astutamente os Políticos “tradicionais” nesse conjunto de supostos agentes do mal, causadores das disfunções do sistema. “Político é tudo corrupto!”

Os políticos neofascistas, cada um a seu modo, apresentam a si mesmos como “antipolíticos”, outsiders – alegadamente imaculados pela podridão moral que denunciam.

Muitos cidadãos da pólis nada podem ou querem saber das verdadeiras raízes dos impasses na civilização contemporânea. Estão atarefados demais com a tarefa de sobreviver, ou de acumular. Estão distraídos demais com os narcóticos em circulação no mercado (das drogas ao “entretenimento”). Estão embotados demais pelas narrativas tendenciosas da grande mídia. Concordarão com qualquer discurso raso que “fulanize” as causas complexas dos problemas, escamoteando suas determinações de estrutura. Aceitarão que se impute o que não anda bem a judeus, imigrantes, ímpios, libertinos, bandidos ou corruptos, na esperança de não precisar perder nada do que constitui seu modo de gozo costumeiro. Elegerão, ou permitirão que sejam eleitos, os políticos neo-fascistas – quando seus irmãos mais comportados, os políticos pró-mercado mais tradicionais, não estiverem dando conta do recado.

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Uma vez chegados ao poder, os políticos neofascistas – com seus álibis da anti-política e da inépcia/corrupção intrínseca do Estado – retiram sem qualquer inibição os empecilhos legais remanescentes (“garantistas” à dignidade humana) que restringem o gozo irrestrito do neoliberalismo, o movimento suicida de autoexpansão do capital.

Combinam esse hiperliberalismo na economia com um antiliberalismo que assegure expulsão e confinamento de imigrantes, encarceramento em massa de “criminosos”, perseguição judicial de supostos “corruptos” em processos kafkeanos, esvaziamento das liberdades democráticas. Afinal, as buxas precisam ser queimadas: isso propicia um gozo por si só, reafirma a adicção em acumulação e consumição que o discurso capitalista promove, e distrai multidões de sua própria ruína.

Os que se reúnem, imaginariamente, ao gozo dos Vencedores e Dominadores, versão atualizada do Pai Onipotente e cruel da Horda Primeva, sentem-se libidinalmente representados por esse tipo de político neofascista. Votos não lhe faltarão.

Em todos os lócus de poder que conquistam, esses agentes do neofascismo neoliberal – em nome de Tradição, Família e Propriedade – promovem a destruição cada vez mais veloz daquilo mesmo que dizem promover. Geram, assim, cada vez maior demanda pelo produto que prometem, gerando ainda mais sede pelo que estão prometendo (e sabotando). Isso vai em looping.

Em nome da Ordem e combate à criminalidade, praticam o punitivismo, encarceramento, extermínio. Com isso, geram mais revolta, disposição à violência, organização e potencialização da criminalidade; afinal, as cadeias do punitivismo são verdadeiras universidades do crime. O agravamento da criminalidade resultante gera cada vez mais demanda de “endurecimento” no combate à criminalidade, numa espiral ao infinito.

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Em nome do combate à corrupção, geram mais e mais corrupção. Os juízes responsáveis pela prisão de um conhecido líder popular são suspeitos de vender facilidades a réus (através de compadres diversos) e favorecer grandes corporações.

Quem nos salvará dos salvadores da Pátria, se esses justiceiros forem revestidos de poder sem limites? Como se poderá viver uma vida suportável sob uma tirania da toga neofascista?

Família e tradição também são solapadas sob a égide da lógica neoliberal: como resistirão os laços sociais ao desemprego, precarização, degradação generalizadas? Ora, sua deterioração irá gerar ainda maior clamor pela restauração dos valores de Tradição e Família, alimentando o neofascismo neoliberal.

Até que algo no real faça ponto de basta ao desvairio desse modo de gozo…

 

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8 comentários

  1. Cada país tem o neofascista que merece

    Sem querer defender Trump, que abomino, mas pelo menos ele pode se declarar como “não político” e “outsider”. Já a nossa versão local quer passar essa imagem mesmo tendo sido sustentado pelo estado a vida toda e como político nos últimos 30 anos, além de colocar toda a família no mesmo caminho.

  2. Trump, Le Pen e Bolsonaro: Nenhuma semelhança.

    Parece que nas três palavras que iniciam o texto, haja uma desqualificação do que vem a seguir. Primeiro Trump, Le Pen e Bolsonaro, além de serem de direita não tem muito em comum para que se possa dizer que “A proliferação dessas figuras no cenário político internacional não pode ser só mero acaso, uma triste coincidência.”. Pois a origem dos três é completamente diferente em todos os aspectos.

    Primeiro Le Pen surge na política francesa em 1956 sendo eleito fazendo a campanha do movimento Pujadista (União de Defesa dos Comerciantes e Artesãos – UDCA), um movimento semi fascista com características populares que chegou a eleger neste ano 52 deputados na assembléia nacional.

    Em 1965, Le Pen chefia a camapanha do candidato de extrema direita Tixier-Vignancour um antigo colaborador do Estado de Vichy (Estado apoiado pelos Nazistas, na parte francesa não ocupada).

    Em 1962 Le Pen funda o Front Nacional, que depois de participar de várias eleições totalmente frustradas só consegue eleger alguém nos anos 80 e em 2015 JMLP é expulso do Front Nacional.

    Como se pode ver, atualmente Le Pen já está aposentado ao mesmo tempo de Trump começa a sua carreira política, pois há poucos anos ele era um empresário do ramo imobiliário e um showman na TV. Ou seja, alguém que teve sempre a sua carreira no setor privado.

    Bolsonaro é um deputado que durante várias legislaturas obtinha uma votação média, algumas vezes quase não se elegendo. Nunca participou de um movimento de extrema direita, pois simplesmente eles não existiam como organização política após 1966. Pulou de partido em partido com uma base política canhestra e baseada no apoio de reivindicações policiais e militares fazendo o papel na política do mesmo tipo de apresentadores de programas policiais.

    Ou seja, a trajetória dos três é completamente diferente, as bases políticas totalmente diversas, a capacidade de organização e teorização sobre algo também diferente.

    Por este motivo que Bolsonaro não é o candidato do grande capital nacional e internacional, ele é um espantalho que ganhou vida própria devido a características da ignorância da direita brasileira.

    Não vou questionar o resto do artigo, pois para isto teria que a cada ponto escrever algumas páginas, as ao meu julgamento ele está forrado de equívocos, imprecisões e erros de análise.

     

  3. neofascistas são diferentes e isso os torna iguais.

    Excelente artigo pois coloca o que há de comum no monstro que temos que enfrentar e que  se esconde no meio de sombras que enganam inclusive gente bem intencionada e informada. O fascismo é a ideologia da manipulação (Goebbles)e do ‘punho'(Musolline)

    O que eles tem ideologicamente em comum: 1) a retórica nacionalista,’German uber alles’ é o lema principal do fascismo alemão:; tanto Trump (América primeiro) como Le Pain(a França para os Franceses), como Bolsonaro (Brasil acima de tudo); a consequencia é de que todos que não se submetem ao discursos fascista são agentes estrangeiros (mexicanos, arabes…venezuelanos??)

    O nacionalismo retórico é uma das bases ideológicas do fascismo, visa unir o povo para esconder a divisão de classe e submeter os trabalhadores ao capital. Por isso os fascismos se adaptam as circunstancias de cada pais: são iguais por que são diferentes. O fascismo manipula o ‘sentimento nacional’ por meio de uma figura que representa esse sentimento de acordo com a história de cada pais – o ‘grande empresário’ (Trump) o militar que vai botar ordem na casa (Bolsonaro): na história do Brasil, no imaginário manipulado a ‘ordem’ é sempre associada a algum tipo de intervenção militar’.

    2) manipulação religiosa – ‘deus acima de todos'(Bolsonaro); defesa da ‘cultura judaico cristã'(os 3!) junto com um moralismo conservador que em geral é para consumo externo (manipulação novamente!)

    3) bode expiatório para a degradação das condições da maioria da população – os imigrantes, os gays, os negros, qualquer um que caiba na situação do momento e local – todos eles!

    4) repetir uma mentira mil vezes até todos acreditarem nela – Trump=Bolsonaro!

    5) um fantasma de um suposto ‘totalitarismo’ para argumentar que estão defendendo a democracia adaptado as circunstancias de cada pais – está em todos eles, Obama é comunista, PT é comunista,  a the economist é comunista, nazismo é de esquerda; a UE é a reprodução da URSS ou do Terceiro Reich, etc.

    5) proteção ao grande capital, com qualquer medida necessária ao acaso e de acordo com as condições do pais no sistema mundial de acumulação: proteger a industria nacional (Trump em guerra imperialista contra a China), privatizar tudo para subodinar totalmente o país ao circuito da especulação financeira (Bolsonaro)

    6) a subordinação dos trabalhadores para afastá-los de politca de esquerda e da luta de classes: onde há uma tradição de proteção social dificil de ser retirada de uma vez, se promete mante-la mas de forma divisiva, seletiva e até punitiva(paises europeus) ; onde não há é na base da porrada mesmo (Brasil, EUA)

    O fascismo  é um nacionalismo mas é um fenomeno mundial, ficar ressaltando só as diferença só ajuda a obscurecer o monstro que temos que enfrentar nos próximos anos, independente do resultado das eleições.

     

     

    • Nacionalismo não é sinonimo

      Nacionalismo não é sinonimo de fascismo. Assim como nacionalismo não é sinônimo de xenofobia.

      Os globalistas tentam colar essas ideias desde sempre, pois não lhes convém países soberanos que defendam os interesses de seu povo. (uma das primeiras mudanças que a globalização exige é a precarização do trabalho conforme a divisão internacional do trabalho para atender interesses das grandes corporações globais)

      Tanto alemanha nazista, quanto a italia de mussolini foram profundamente entreguistas, privatistas e subordinadas ao capital financeiro, o “nacionalismo” que apregoavam era na verdade xenofobia, preconceito e ódio a certos grupos e ideias…

      Assim como o discurso nacionalista de bolsonaro é uma grande mentira: o cara bate continencia para bandeira americana, disse que a amazonia não é nossa, seu economista pretende privatizar o país inteiro e seu ideal para reforma da previdencia é o modelo implantado no chile sob pinochet (leia sobre a quantidade de suicidios entre idosos no chile).

       O nacionalismo de esquerda, por outro lado, é uma forma de libertação anti-imperialista e anticolonialista. É generoso, acolhe o outro, valoriza a diversidade, mas não submete seu povo a interesses de corporações globais. Defende um trahalho digno – não implementa uma reforma trabalhista que beira a escravidão, não acaba com a previdencia solidaria, não permite que suas riquezas naturais sejam entregues a outros que não sua gente. 

      Tem uma história que acho interessante sobre o poder das corporações sobre os estados

      http://justificando.cartacapital.com.br/2017/09/29/esquerda-deveria-ressignificar-nacionalismo-brasileiro/

      Almir Felite

      “Para os Estados Unidos sai mais barato o ferro que recebem do Brasil ou da Venezuela do que o ferro que extraem de seu próprio subsolo.”

      O trecho poderia pertencer a qualquer jornal brasileiro da atualidade, mas foi retirado da antológica obra de Eduardo Galeano, “As Veias Abertas da América Latina”, clássico publicado em 1971.

      O uruguaio segue, em sua análise, lembrando a trágica queda de Getúlio Vargas, o qual escolhera desrespeitar a imposição americana firmada em acordo militar que proibia o Brasil de vender matérias-primas estratégicas para países socialistas, vendendo ferro para a Polônia e a Tchecoslováquia a preços mais altos que os que conseguia com os EUA em 53 e 54.

      Em 1957, a americana Hanna Mining Co. compraria grande parte da mineradora britânica que explorava o Vale do Paraopeba, em Minas Gerais, onde, à época, se encontrava a maior concentração de ferro do mundo. Mas, apesar do grande negócio, a empresa não estava legalmente habilitada para explorar a riqueza cobiçada. A mineradora, porém, contava em seus quadros com pessoas que integravam o alto escalão do Estado brasileiro.

      Jânio Quadros, em 21 de agosto de 1961, tentaria se defender da cobiça das empresas americanas, anulando as autorizações ilegais que favoreciam a Hanna e restituindo as jazidas de ferro à reserva nacional. Quatro dias depois, porém, seria obrigado a renunciar após pressão de ministros militares. Mas a Campanha da Legalidade, liderada por Brizola, frearia o anseio militar e americano ao colocar o vice João Goulart no poder.

      Jango tentaria pôr em prática o ataque fatal a Hanna, a partir de julho de 1962, com um plano de estabelecer um entreposto de minerais no Adriático para abastecer europeus capitalistas e socialistas. Tal objetivo somou-se a outras medidas, como a restrição à drenagem dos lucros de empresas estrangeiras, criando uma situação cada vez mais explosiva no país que culminaria no golpe militar de 1964.

      A revista Fortune consideraria o golpe como um “resgate de último minuto pelo Primeiro da Cavalaria” para a Hanna. Já o Washington Star diria que “um bom e velho golpe de estado, no velho estilo, dos líderes militares conservadores bem pode servir aos melhores interesses de todas as Américas”.

      Mas a história logo mostraria que nem todas as Américas sairiam satisfeitas.

      Logo após o golpe, homens da Hannah ocuparam a vice-presidência do Brasil e mais três ministérios. Não tardaria para que a mineradora americana tivesse seus desejos atendidos. Em 24 de dezembro de 1964, quando o corpo da democracia ainda esfriava, a Hanna ganharia um decreto que a autorizava a explorar o ferro de Paraopeba.

  4. que aula………………….muito obrigado

    então tudo o que está acontecendo de ruim no Brasil vem de uma mentira contada por bandidos,

    porque é preciso ser muito bandido para se considerar “não político” e viver da política

    golpistas e praticamente toda a família

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