Uma nova guerra como nenhuma outra, por Fábio de Oliveira Ribeiro

A censura brutal ou branda da imprensa resulta tanto da incapacidade do neoliberalismo de reformar a si mesmo, quanto dos conflitos militares que estão pipocando no mundo por causa do “imperialismo neoliberal”.

Uma nova guerra como nenhuma outra

por Fábio de Oliveira Ribeiro

No final da década de 1960, início da década de 1970, a imprensa livre criou as condições para o nascimento e o fortalecimento de uma forte oposição política às operações militares dos EUA no Vietnã. A resistência popular nos EUA e na Europa acelerou o fim da guerra. Mas para que isso ocorresse foi necessário o vazamento de documentos secretos que provaram que o Pentágono sabia que o conflito estava perdido enquanto os generais norte-americanos mentiam para a população e defendiam publicamente uma escalada da guerra.

Os militares dos EUA aprenderam a lição. Na Guerra do Golfo, o que predominou foram as notícias divulgadas pelos próprios militares. A ênfase da cobertura jornalística foi dada às imagens das bombas inteligentes que capturavam e transmitiam imagens do alvo antes de destruí-lo. Essas imagens eram selecionadas e apresentadas por militares às empresas de comunicação que as repercutiam e retransmitiam elogiando a precisão do armamento utilizado.

No conflito iniciado após o ataque ao WTC, invasão do Afeganistão e do Iraque, os jornalistas foram engajados nas unidades militares e proibidos de atuar com liberdade. Eles eram transportados por militares e se limitavam a cobrir aquilo que lhe era mostrado. Jornalistas considerados hostis foram banidos e eventualmente vítimas de tiros acidentais de canhões (como ocorreu com a equipe da TV portuguesa num hotel).

Enquanto controlavam e censuravam o trabalho da imprensa, os militares norte-americanos coletavam e arquivavam imagens de suas próprias ações. Algumas delas foram vazadas por Bradley Manning para o WikiLeaks e o resultado foi uma verdadeira catástrofe diplomática para os EUA. Collateral Murder https://www.youtube.com/watch?v=HfvFpT-iypw provou que os militares norte-americanos deliberadamente metralharam à distância um grupo de jornalistas da Reuters e acobertaram o que haviam feito.

A crise criada pela divulgação dos arquivos da guerra no Iraque e no Afeganistão ainda não foi superada. Bradley Manning foi preso, torturado, condenado e após alguns anos de prisão perdoado por Barack Obama. Mas ele continua a sofrer perseguições judiciais nos EUA porque se recusa a depor contra Julian Assange.

Acusado de espionagem, o criador do WikiLeaks passou vários anos confinado na Embaixada do Equador em Londres para não ser preso e enviado aos EUA. Quando o governo equatoriano revogou o asilo político que havia lhe concedido, Julian Assange foi preso por policiais ingleses. Confinado na prisão de Belmarsh, ele aguarda o resultado do processo de extradição para os EUA onde poderá ser condenado à prisão perpétua ou, eventualmente, à morte.

A guerra movida contra a liberdade de imprensa parece ser um desdobramento de duas outras guerras em que o Ocidente ficou aprisionado. A censura brutal ou branda da imprensa resulta tanto da incapacidade do neoliberalismo de reformar a si mesmo, quanto dos conflitos militares que estão pipocando no mundo por causa do “imperialismo neoliberal”.

Durante a Guerra Fria dois sistemas antagônicos foram capazes de coexistir. Em razão de suas idiossincrasias, o neoliberalismo se recusa a admitir qualquer forma de gestão econômica que não seja aquela preconizada pelos neoliberais. Quem desafia a hegemonia mundial do dólar sofre sanções e é desconectado do mercado de fluxos financeiros globais (Irã e Venezuela) ou ameaçado de ser invadido e despedaçado por bombas (Rússia, China e Coreia do Norte).

Encarada como um problema a ser afastado, a democracia sofre rupturas nos países que tentam se libertar da lógica neoliberal. O governo grego de esquerda foi colocado de joelhos pela União Europeia. O Brasil não desafiou a hegemonia do dólar. Mesmo assim os neoliberais norte-americanos e brasileiros se uniram para destruir nossa democracia porque os governos do PT ousaram acreditar que poderiam empregar uma pequena parcela da riqueza petrolífera para educar os brasileiros e cuidar da saúde da população.

Na era Obama a guerra á distância se tornou uma realidade. Drones de ataque pilotados à milhares de quilômetros de distância do local em que operavam se encarregaram de abater alvos inimigos. A definição desses alvos se revelou problemática, pois a acuidade das armas inteligentes é inversamente proporcional à precisão das informações coletadas antes de seu uso. Muitos dos “terroristas” eliminados com mísseis Hellfire eram civis realizando atividades cotidianas vigiadas à distância que foram erroneamente interpretadas como sendo perigosas ou criminosas.

Quando a guerra com drones começou o trabalho da imprensa ficou aprisionado num ponto cego. Nada pode ser coberto no momento em que ocorre (como no caso do Vietnã). O jornalismo engajado (Guerra do Golfo II) se torna uma impossibilidade em decorrência da preservação do segredo militar.

Os fatos coletados entre as vítimas podem ser facilmente desacreditados pelos comandantes militares. Aprisionada nos servidores de computador das Forças Armadas, a verdade só pode emergir se ocorrer um vazamento (algo improvável, por causa do Espionage Act of 1917 e do exemplo do que ocorreu nos casos de Bradley Manning e Julian Assange).

Tudo indica que a próxima guerra ocorrerá predominantemente no mundo virtual. As redes de computadores são essenciais tanto ao funcionamento das imensas burocracias estatais e militares quanto à supervisão à distância de operações militares realizadas com armamentos cada vez mais autônomos. Uma guerra de hackers norte-americanos, chineses e russos pode estar ocorrendo nesse exato momento longe dos olhos do público.

EUA, Rússia e China flexionam seus músculos, mostram algumas de suas novas armas. Mas é evidente que algumas coisas serão mantidas em segredo. Os especialistas em Inteligência Artificial fazem especulações sobre o fenômeno Singularity https://1reddrop.com/2019/01/09/what-is-the-singularity-in-artificial-intelligence-what-you-need-to-know-about-the-future-greatest-event-in-human-history/. Se ele ocorrer primeiro na esfera militar (uma possibilidade que não pode ser descartada) ninguém ficará sabendo antes que a próxima guerra comece se é que ela já não começou.

A evolução me parece clara. Do “You furnish the pictures and I’ll furnish the war.” dito por WR Hearst em 1898 (Hispano-Americana) evoluímos para as imagens obtidas livremente “in loco” que comprometeram a Guerra do Vietnã. A Guerra do Golfo inaugurou a era do predomínio das imagens de bombas inteligentes selecionadas para imprensa por militares. O WikiLeaks implodiu esse modelo ao revelar ao mundo imagens sigilosas sobre um crime de guerra cometido por soldados norte-americanos. O que vem depois?

Quando a guerra migrar definitivamente para a mundo virtual e for predominante realizada por armas inteligentes supervisionadas por Inteligência Artificial, as imagens da guerra podem se tornar jornalisticamente irrelevantes. A escalada automatizada dos meios de destruição em massa levará inevitavelmente a um conflito nuclear. Ninguém mais poderá ver nada, pois os servidores das Big Techs e os equipamentos das redes de telefonia também serão destruídos e os cidadãos do mundo ficarão isolados em casa com seus computadores, smart TVs e smartphones desconectados da internet.

Elevada sofisticação tecnológica totalmente inutil combinada com o mínimo de imagens transmitidas em tempo real. Essa será a nova realidade. Inverno nuclear, desabastecimento nas cidades e um caos generalizado nunca antes vistos… não poderão ser compartilhados. O fim da sociedade do espetáculo será, paradoxalmente, o maior espetáculo jamais visto por uma civilização impossibilitada de ver seu próprio fim.

Fecho os olhos e consigo ver Crab land mines empoderadas pelo uso de Inteligência Artificial capazes de caminhar em massa em direção ao inimigo com ajuda de satélites e drones alados autônomos. Elas foram programadas se enterrar sozinhas no solo à curta distância do inimigo aguardando sua chegada antes de explodir e causar o máximo de dano à maior quantidade de soldados e equipamentos. Finda a guerra nuclear, milhares de armamentos autônomos continuarão funcionando até que suas baterias descarreguem.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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