Zé Dirceu: Criar um, dois, três, mil comitês em defesa de Lula

Em texto exclusivo para o Nocaute, ex-ministro afirma que só existe um caminho para garantir a eleição de Lula: usar o poder da consciência política e social e a luta nas ruas de todo o Brasil.

do Nocaute

Zé Dirceu: Criar um, dois, três, mil comitês em defesa de Lula

O ano de 2017 seguramente se encerra de forma tragicômica, com o espetáculo da Suprema Corte e do Senado fazendo justiça unicamente para Aécio Neves.

Antes valia tudo: ônus da prova cabendo ao acusado, condenação sem provas (por convicção ou pela literatura jurídica), domínio do fato (uma aplicação que nem o autor da teoria aprova) e trânsito em julgado parcial, com execução penal após condenação em segunda instância.

Paralelamente, o país assiste, bestificado, ao festival de compra de votos e de barganhas para livrar o usurpador de ser processado por denúncia apoiada em delações altamente suspeitas, forjadas a fórceps. À base de chantagem, fraude e escutas arquitetadas a quatro mãos, entre a Procuradoria Geral da República e investigados também suspeitos de tramarem nas sombras a montagem de falsas provas e flagrantes.

Tudo pode acontecer. Menos anular delações, por mais ilegais que sejam. Não importa se fraudadas e montadas por meios criminosos, sob a suspeita de colaboração com os delatores, inclusive de membros da própria PGR.

A ladainha é que ilegalidades e práticas condenáveis não contaminam as delações, como se elas se constituíssem em provas em si e de per si, por um sopro divino. Mas o que se constata é a interferência da mão um tanto demoníaca, vingativa e punitiva da PGR.

Enquanto isso, vende-se o país, violentam-se e extinguem-se direitos. Até o da liberdade do próprio trabalho, por meio de um decreto infame, restabelecendo a escravidão.

Nada detém a sanha dos que traíram o juramento constitucional e o pacto social e político que refundou nossa democracia. Por dinheiro e poder, não descartam o uso da força, como alertam seus apaniguados mercenários, pois há que proteger e sustentar o rentismo e a usura, em nome de promessas que jamais serão cumpridas. Como não foram no passado recente, seja na ditadura ou na era FHC.

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Não satisfeitos com o golpe, praticam o poder sem limites, delegado por um Congresso Nacional submisso e vendido em praça pública. Não se inibem com a vizinhança de uma Suprema Corte entretida com discursos retóricos sobre a moralidade e os princípios constitucionais que os próprios ministros rasgaram ao darem passagem a um golpe parlamentar agora desmascarado, porque comprado com dinheiro da corrupção. Fato que se tornou público e notório e que todos os integrantes do STF estavam cansados de saber – é vedado a eles o direito de alegar desconhecimento, engano ou engodo.

E a força do poder real se manifesta no mercado, no capital financeiro bancário, nos interesses dos rentistas. Assim como na tecnoburocracia policial e judicial encastelada no Estado, ávida por ascender à faixa do 1% habitada pelos mais ricos, com seus estilos de vida luxuosos e faustosos, almejando ser celebridade. Manifesta-se também na mídia controlada pela família Marinho, uma das mais ricas do país – riqueza conquistada à sombra da ditadura, manchada pelo sangue dos torturados e assassinados, pela corrupção sistêmica e impune da era militar.

Essa tríplice aliança decretou que Lula não pode ser candidato, que nosso povo não pode ser nacionalista, que o Estado não deve e não pode ser de bem-estar social. E que o trabalho e sua renda, como toda renda, devem servir ao deus mercado – leia-se, ao interesse da minoria dominante.

A eleição acontecerá, apesar de desejo explícito das elites de acabarem com ela, seja pelo prolongamento do golpe parlamentar, com um quê de legalidade e moralidade via parlamentarismo e voto distrital.

Mas o medo do povo — afinal, os políticos têm que salvar a própria pele e precisam pensar nas próximas eleições — emperra as reformas “salvadoras” e já derrotou o distritão. E a reação dos trabalhadores das cidades e do campo e das classes médias, duramente atingidos pelas reformas, certamente irá colocar em risco a reeleição de centenas dos hoje servidores fieis do golpista – e que amanhã serão opositores desde sempre.

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Tudo estava preparado para a eliminação civil e, se possível, física de Lula, com condenação de dezenas de anos de prisão, sem direito de responder em liberdade, após condenação em segunda instância. Mas eis que o povo não desiste e insiste em eleger Lula presidente pela terceira vez, incapaz de entender os desejos dos senhores da vez. Não por ignorância, mas por desconfiança, conhecimento e experiência passada.

Não podemos nos comportar como se nada tivesse ocorrido. Nem o golpe e nem a perseguição implacável a Lula e ao PT, com sistemática campanha de criminalização do ex-presidente e do nosso partido. Tampouco toda a violência estimulada pela mídia contra nós, desde as manifestações de 2013. Manifestações copiadas e manipuladas pela direita e pelos golpistas com apoio externo – hoje comprovado -, a serviço das privatizações e da entrega do patrimônio nacional. Indignação, revolta e protestos que desapareceram não só da mídia e dos tribunais, mas também das ruas, quando chegou a hora do PSDB, da mídia, dos bancos e da própria Justiça.

Nenhum de nós poderá, de boa-fé, alegar desconhecimento do que significa o golpe em marcha, até pela experiência histórica do caráter violento e da total ausência de qualquer compromisso moral por parte de nossos adversários, da nossa direita e da nossa elite. Eles jamais vacilam e são capazes de toda violência e do uso da força, como vimos várias vezes em nossa história e das quais estamos agora mesmo sendo vítimas.

Daí, a necessidade urgente de dizer em alto e bom som que é preciso se preparar para fazer Lula candidato, garantir seu registro, fazer sua campanha, vencer a eleição e garantir sua posse. Uma vez no governo, garantir o exercício do poder para fazer as mudanças estruturais que o país exige, sob pena de governamos para eles, para gerir sua crise e atender a seus interesses, não os da nação e do povo.

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E só há uma forma, uma maneira de garantir a eleição de Lula e o exercício do governo: com poder. E o único que temos para garantir o poder é a consciência política e social de nosso povo, sua organização e mobilização, a luta nas ruas, bairros, fábricas, campos, escritórios, comércios, escolas de todo o país. Começando por organizar um, dois, três…centenas, milhares de comitês em defesa de Lula, com o povo, ao lado do povo e pelo povo trabalhador. Fora disso, vamos lançar nosso país e nosso povo numa aventura e, como sempre acontece, quem pagará o preço da reação dos de cima será o próprio povo trabalhador e seus filhos, incluindo seus legítimos líderes e condutores.

Não temos o direito de errar de novo, como no impeachment, quando não fomos capazes de defender a Constituição e o mandato popular soberano da presidente eleita em 2014.

Que a lição nos ensine que não há alternativa, a não ser a luta e o combate no nosso campo, com nossas armas. E não no campo e com as armas do adversário, ou inimigo – se formos tratá-los como eles nos tratam.

A hora é de definições, de escolher o lado e a luta, criar um, dois, três…muitos comitês, tantos quantos forem necessários para fazer Lula candidato, vencer a eleição, tomar posse e governar com o povo.

 

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8 comentários

  1. José Dirceu? Presente!

    Eh disso que se trata o momento. Ou levantamos alto a cabeça e a voz e saimos da zona de conforto e do conformismo ou Brasil ficara nas mãos de um Doria, de Huck, de um Bolsanaro, do primeiro aventureiro com muito dinheiro que passar.

  2. zé….

    Estão desmerecendo as Leis, a Constituição que a Esquerdopatia escreveu? O país já condenou e se livrou deste criminoso. A esquerdopatia não consegue? Explica muito a tal Democracia prometida. Estão querendo condenar as leis que eles mesmos redigiram. É surreal !! As leis e Juízes que livram e são cúmplices de Aécio Neves, fruto também desta esquerdopatia.Herdeiro do avô, que ensinou todo tipo de vagabundagem e corrupção à toda família. Nada como um dia após o outro. A Verdade Vos Libertará. O Brasil se explica. E muito bem. E se lamenta. Mais 40 anos perdidos nas mãos destes parasitas. 

  3. Concordo com o artigo, porém

    Concordo com o artigo, porém o próximo presidente não será o Lula, assim que a imagem do anti-lula for construída no candidato da direita, esse candidato ganhará todos os votos do antipetismo que será mais uma vez utilizado na campanha de 2018.

    No congresso então nem se fala, será pior que o de agora.

    Minha esperaça é 2022 após quatro anos de retrocessos e os efeitos do golpe cristalizados na população, torço para estar errado mas não acredito…

  4. Só falta o Dirceu entrar em contato com o PCO

    Pois não foi o PT que iniciou o movimento, que chamou durante meses e que forçou os pelegos do PT a irem de avião na última hora para subirem no palco e receberem Lula depois de seu depoimento em Curitiba. 

  5. E os recados continuam

    Certamente Fernando Morais, as equipes do GGN e do DCM, assim como outros experientes da blogosfera e portais progressistas devem estar atentos aos bastidores das FFAA. 

    Por mais corajoso e altivo que seja, José Dirceu não teria escrito os últimos três artigos, dois deles dialogando diretamente com as FFAA, se de uma parcela destas não tivesse o respeito, apoio e reconhecimento. José Dirceu está em liberdade provisória, obtida por meio de um HC, antes do tribunal de exceção, vulgo TRF4, ter não só confirmado, mas dobrado uma esdrúxula condenação que lhe foi imposta pelo torquemda das araucárias, como sempre SEM PROVAS e recheada de convicções.

    Observe-se que nenhuma das ORCRIMS persecutoras de José Dirceu (midiáticas e judiciárias) deu um pio, até agora, sobre os artigos que ele publicou nos últimos dois meses; nenhum colunista e jornalista patronal, que sempre babaram de ódio contra José Dirceu, fez sequer um comentário sobre esses artigos corajosos do líder e formulador político do PT.

    A exibição de força do general canalha que hoje comanda o GSI e dá guarida ao governo quadrilheiro, assim como a mais do que esdrúxula condenação de João Vaccari Neto pelo TRF4, contrariando duas absolvições anteriores  sobre condenações com a mesma frágil e ilegal sustentação (apenas com base em delações feitas por pessoas presas, coagidas, chantageadas, ameaçadas e torturads psicològicamente, forçadas a delatar quem e nos termos que queriam os lavajateiros) não conseguem esconder o fato de que uma parcela das FFAA está mandando recados às ORCRIMs midiáticas e judiciárias, principalmente em relação ao Ex-Presidente Lula e ao Ex-Ministro José Dirceu. Não é por medo do “povo” que os lavajateiros deixaram de prender José Dirceu e arrefeceram a perseguição ao Ex-Presidente Lula. 

    Sugiro aos blogs e portais progressistas levantar informações com fontes das FFAA.

     

  6. Manda para Lula, para Luis

    Manda para Lula, para Luis Marinho, para Aloísio Mercadante, para Fernando Pimentel, para Rui Costa, para Camilo Santana, para Wellington Dias, para Humberto Costa, para os irmãos Viana (Tião e Jorge), para a Executiva do PT, para a Executiva da CUT. Avisa preles que tá passando da hora! Eles morrem de medo de povo na rua.

  7. É patético que só agora queiram criar comitês como o PCO vem …

    É patético que só agora queiram criar comitês como o PCO vem fazendo, de forma mais correta e mais articulada, um comitê de apoio a  do candidatura de Lula seria colocar tudo em uma só ficha. Uma mera tentativa de manter viável uma eleição.

    O PCO vem há algum tempo criando comitês de Luta Contra o Golpe, que não seria uma mera personalização eleitoreira de que seriam os Comitê de Apoio ao Lula. Um Comitê de Luta Contra o Golpe é mais inclusivo, pois além de permitir que a viabilização da candidatura de Lula incluem nestes comitês toda uma ruptura com toda a ofensiva da direita que ocorre no país neste momento, passando a ser uma mera estratégia eleitoreira, voltando o PT a uma posição defensiva e não ofensiva.

    Parece que a longa estada de Dirceu na cadeia, enfraqueceu seu discernimento, ou simplesmente estão tentando abafar a iniciativa do PCO, o que seria muito pior, pois adotam uma política errada e tardia tentando simplesmente anular uma ação de alguém que tem se mostrado o melhor analista da situação política dos dias atuais, ou seja, demonstrando medo de perder a vanguarda do movimento.

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